Queixa de falta de deficientes no mercado não procede

Prezados amigos,

De vez em quando ouvimos empresários e até mesmo gestores de serviços de saúde argumentarem que não existem mais deficientes no mercado para que as empresas cumpram a Lei de Cotas (artigo 93 da Lei nº 8.213/91). A Lei diz que empresas com mais de cem funcionários precisam contratar pessoas com deficiências, numa proporção variável que vai de 2% (para empresas até duzentos funcionários) até 5% (para empresas com mais de mil funcionários).

Entretanto, segundo dados do último censo realizado, no ano de 2010, o Brasil possui cerca de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Ou seja, quase 24% da população brasileira tem uma deficiência e poderia fazer parte das cotas das empresas. Então, se a população brasileira tem, hoje, 24% de pessoas com deficiência, por que motivo as empresas não conseguem cumprir os 5% das cotas?

Por um lado, podemos considerar que existe a grave questão da desvantagem social que muitas pessoas com deficiências enfrentam, deixando-as com poucos recursos e oportunidades para se inserirem na sociedade de forma plena. Entre elas estão a falta de acesso aos cursos profissionalizantes, aos recursos para mobilidade, a desinformação da sociedade ou o o preconceito, que resultam, entre outras consequências, em falta de acesso ao mercado de trabalho.

Por outro lado, quando se fala em mão-de-obra qualificada formada por pessoas com deficiências, aí sim, realmente estamos falando de um mercado saturado. Em geral estas pessoas já possuem recursos para mobilidade ou para executarem suas tarefas, exigindo pouco esforço de inclusão por parte das empresas contratantes. Em grande medida, as pessoas com deficiência nesta situação já estão trabalhando e, na verdade, sua mão de obra qualificada é concorrida. Talvez daí venha a impressão que alguns empresários têm de que não há deficientes o bastante para preencher as cotas de todos. Sabemos que esta impressão é equivocada e, neste caso, estamos diante de um problema de qualificação da força de trabalho disponível.

Estamos avançando para um novo estágio no que diz respeito à inclusão social no Brasil, pois, para cumprirem a Lei de Cotas, as empresas têm de criar programas inclusivos mais abrangentes. Hoje, para contar com pessoas com deficiências em seus quadros funcionais, as empresas estão precisando investir em soluções ergonômicas complexas, qualificação profissional e grande sensibilização do público interno (e às vezes externo) para que os colaboradores entendam as restrições e potencialidades dos colegas com deficiências. Em outras palavras, pela primeira vez na história do Brasil testemunhamos a necessidade de sairmos de uma zona de conforto que não tem razão de ser, na qual o diferente não fazia parte do nosso cotidiano. Estamos aprendendo que o convívio com a diferença nos faz mais fortes e mais humanos. Estamos aprendendo a promover a inclusão social de maneira mais efetiva e mais responsável.

Para saber mais:

Leia a matéria do Jornal Nacional: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/11/censo-2010-reforca-desafio-do-brasil-em-dar-uma-vida-digna-aos-deficientes.html>

Site do IBGE: <http://www.ibge.gov.br/home/>

Michel Foucault

Prezados amigos,

Hoje é dia de celebrarmos a memória de Michel Foucault (15/10/1926 – 25/06/1984), filósofo francês indispensável e uma grande influência para a formação de nosso pensamento contemporâneo. Foucault foi professor na Cátedra de História dos Sistemas do Pensamento do Collège de France e escreveu vários livros sobre a loucura, a Psiquiatria e a Psicologia. A genialidade de Foucault influenciou e influencia até hoje os círculos acadêmicos e os rumos da história dos cuidados em Saúde Mental.

Em 1954, Foucault publicou seu primeiro livro, a “Doença mental e personalidade”, um trabalho encomendado por Althusser. Posteriormente, sua tese intitulada “História da loucura na idade clássica”, foi orientada por Georges Canguilhem e é um extenso e profundo trabalho de pesquisa. Dois anos depois, em 1963, Foucault publicava o “Nascimento da Clínica”, livro chave para esta disciplina. Muitos outros livros sacramentaram esta trajetória, como “Vigiar e Punir”, “O Poder psiquiátrico”, “Os anormais”, “Nascimento da biopolítica”, a coleção de textos intitulada “Microfísica do poder”, dentre outros, na extensa produção bibliográfica de Foucault.

Ler Foucault é uma experiência de abertura de ideias e de aprofundamento nas tramas da realidade em que o leitor se encontra. Para quem ainda não vivenciou essa experiência, ficamos com três instigantes pensamentos do homenageado do dia:

“A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.”

“A Psicologia nunca pode oferecer à Psiqiatria aquilo que a Fisiologia deu à Medicina: o instrumento de análise que, delimitando a perturbação, permitiria encarar a relação funcional desse dano com o  conjunto da personalidade”

“É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?”

Gravura: Jesse Bransford, Head (Michel Foucault), 2004, 9.5×12.5″ Acrylic and graphite on paper.
Ambas imagens disponíveis em: <http://www.michel-foucault.com> Acesso em 24 jun. 2012.

Josef Breuer

Hoje faz oitenta e sete anos que o médico austríaco faleceu. Josef Breuer (15/01/1842 – 20/06/1925) ficou famoso por seu trabalho com Anna O. (Bertha Pappenheim), a partir do qual edificou a “talking cure”, técnica que tempos depois ajudaria Freud a desenvolver o método psicanalítico. Breuer fez uso da hipnose, em seu tempo, mas percebeu que poderia utilizar uma espécie de terapia de conversa, e que a hipnose poderia ser dispensada caso esta conversa fosse habilmente conduzida pelo terapeuta, de modo a tocar pontos delicados da história de vida da paciente. A partir desta nova metodologia, Breuer concluiu que os sintomas neuróticos resultam de processos inconscientes e que desaparecem quando esses processos se tornam conscientes. Breuer chamou a este processo de catarse.

Breuer era amigo e mentor de Freud e os dois trabalharam juntos por muito tempo. Em 1893 lançaram “Estudos sobre a histeria”, considerado o livro inaugural da Psicanálise. Rompem, tempos depois, por discordarem sobre a questão da fantasia infantil.

Breuer publicou cerca de vinte trabalhos sobre fisiologia nervosa, lecionou na faculdade de medicina da Universidade de Viena entre 1875 e 1885 e foi eleito para a Academia de Ciências de Viena em 1894.

Lições de uma empresa que contrata PcD’s e pessoas com transtornos mentais

Prezados amigos,

Há pouco mais de dois meses postamos uma incrível história de um centro de distribuição de uma grande rede de drogarias nos Estados Unidos que tinha 40% da força de trabalho formada por pessoas com transtornos mentais e deficiências.

O que chamava atenção na reportagem era o fato de que este centro de distribuição registrou melhora da produtividade depois que as pessoas com deficiência e transtornos mentais passaram a fazer parte do quadro de colaboradores.

Agora apresentamos um vídeo em que Randy Lewis, o executivo responsável pela iniciativa, reafirma:  “Isso não é a coisa boa, nem a coisa certa a se fazer. Isso é melhor!”. No vídeo ele nos conta mais detalhes sobre a experiência (sustentável) da empresa, sobre os obstáculos que as pessoas com deficiências enfrentam, sobre história, esperança e cura; mas também conta alguns fatos de sua relação com Austin, seu filho autista, que o inspirou a investir nessa ideia.

Assista o vídeo na íntegra em: <http://www.redeagrega.com/#!videos> (21min25seg – Legendado em inglês)

Link para o post: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/05/03/um-bom-exemplo/>

A face trágica da psiquiatria

O filme “Um estranho no ninho” fala, com muita sensibilidade, sobre a grande tragédia dos manicômios. O caráter trágico desta história pode ser percebido a partir da tensão que a chegada da personagem principal cria no ambiente em que a trama se desenrola: uma clínica psiquiátrica. De fato, a tragédia não se restringe ao triste fim de Randall Patrick McMurphy, mas está sempre presente no filme e se traduz no embate que trava o sujeito que resiste contra o processo de institucionalização da psiquiatria. Em geral, não há outra alternativa que não se render à progressiva perda de identidade e auto-estima.

Assim como nos clássicos casos de tragédia grega, como a história de Antígona, McMurphy é punido pela sua afirmação de liberdade. Se Antígona contrariou a lei instituída e pagou o preço por sepultar o próprio irmão, McMurphy não encontrou destino menos grave ao agir de acordo com os seus princípios individuais dentro de uma organização hospitalar cujas regras não deixavam espaço para que o indivíduo se manifestasse de acordo com a sua vontade própria.

“Um estranho no ninho” denuncia que a tragédia dos manicômios é a própria possibilidade de suplantação do sujeito pela ordem médica no contexto de uma psiquiatria ultrapassada. O quadro “sob controle” do “paciente dócil” e assujeitado fora o ideal clínico de outrora, substituído, em tempo, por novas práticas terapêuticas que valorizam a autonomia e as potencialidades criativas e produtivas da pessoa com transtorno mental. Se hoje a Saúde Mental se afasta das pequenas tragédias de seus usuários, infelizmente, o que aconteceu a McMurphy não é muito diferente daquilo que, até recentemente, era feito com muitos pacientes psiquiátricos em nosso país. Graças a muitas lutas no campo da Saúde Mental, hoje, se essa história ainda não é impossível, pelo menos ninguém poderá dizer que é um drama desconhecido da sociedade.

Título original: One Flew Over the Cuckoo’s Nest
Ano: 1975
Direção: Milos Forman