Os Jogos Paralímpicos chegam em Londres para a sua 14ª edição

Prezados amigos,

A Cerimônia de Abertura dos Jogos Paralímpicos de 2012 acontece hoje às 16h30min, horário de Brasília. Esta será a décima quarta edição da Paralimpíada, que aconteceu pela primeira vez em 1960, em Roma. Este ano 166 países estarão representados por cerca de 4.200 atletas participantes dos maiores Jogos da história, que vão até o dia 9 de setembro.

A delegação brasileira terá 182 atletas que disputarão 18 modalidades com o objetivo de fazer o Brasil subir da 9ª colocação na classificação geral, alcançada nas Paralimpíadas de Pequim (47 medalhas no total: 16 de ouro, 14 de prata e 17 de bronze), para o 7º lugar no quadro de medalhas este ano. A delegação completa do Brasil terá 319 pessoas e será composta por 16 acompanhantes de atletas (atletas-guia, calheiro e timoneiro), 4 tratadores de cavalos, 31 profissionais da área de saúde, 86 oficiais técnicos e administrativos, além dos 115 atletas homens e o recorde de 67 atletas mulheres.

Em comemoração a este grande evento, a Agrega entrevistou o médico Roberto Nahon, integrante da delegação paralímpica do Brasil em Londres.

Dr. Nahon, quais são as funções dentro do esporte Olímpico e Paralímpico que você desempenha?

Sou médico de duas confederações internacionais, a de remo e a de triátlon. Na de triátlon eu trabalho como médico da pan-americana. Além disso, participo do conselho de pesquisa e desenvolvimento do triátlon paralímpico, que está em desenvolvimento muito forte porque vai entrar nos Jogos de 2016. Também sou do conselho paralímpico de remo e faço parte do grupo de classificadores e pesquisa. Estou indo [para Londres] pelo comitê organizador, indicado pelo remo. No Brasil sou médico da equipe paraímpica de remo e triátlon, e olímpica de levantamento de peso e canoa.

Por que os atletas paralímpicos brasileiros têm um desempenho tão bom?

Conseguimos o primeiro lugar no Parapan de Guadalajara, mas não podemos comparar o número de medalhas, porque é desproporcional. Nas Paralimpíadas existem classes, cada classe é separada de acordo com a desabilidade. Nos 400 metros, por exemplo, tem amputado de uma perna, amputado das duas pernas, amputado de uma perna e um braço… só aí já são três medalhas… Mas tudo bem, vamos esquecer o número de medalhas. Já normatizando o número de medalhas pela colocação, o Brasil é muito melhor no Paralímpico porque os nossos atletas são profissionais paralímpicos, coisa que não é comum no resto do mundo.

Os atletas paralímpicos precisam de algum acompanhamento médico mais específico?

Sim. É complicado porque, muitas vezes, esporte não é saúde, esporte é rendimento. A peculiaridade do atleta paralímpico é que ele já tem uma complicação de base e, inclusive, várias delas pioram quando você faz atividade física em alta demanda. Uma coisa é você ter uma dor muscular porque correu muito. Outra coisa é você não ter a perna toda, ter um coto de amputação, e você dá pro coto de amputação e pro músculo que já passou por um problema uma sobrecarga que para o músculo “normal” já seria ruim. Então é muito pior. E outras coisas, por exemplo, um atleta com deficiência visual é muito comum ter hipertensão no olho, que é o glaucoma. Excesso de exercício pode piorar. O remédio que faz melhorar é considerado doping, não pode tomar direto, então tem que diminuir o treino, mas diminuir o treino é igual a diminuir o rendimento… É complicado, mas a capacidade de superação é infinitamente mais importante e o atleta paralímpico tem muito disso.

Assista uma entrevista com Clodoaldo Silva, o maior atleta paralímpico do Brasil (8min12seg): <https://www.youtube.com/watch?v=0BxWvxsF-G0&feature=player_embedded>

Para saber mais sobre as Paralimpíadas de Londres:
Página oficial de Londres 2012 (em inglês): <http://www.london2012.com/paralympics/>
Página oficial do Movimento Paralímpico (em inglês): <http://www.paralympic.org/Events/London2012>
Comitê Paralímpico Brasileiro: <http://www.cpb.org.br/>

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50 anos de Psicologia no Brasil

A Psicologia enquanto profissão foi regulamentada no Brasil pela Lei nº 4.119 de 27 de agosto de 1962, há exatos 50 anos. Esta lei colocou o Brasil na vanguarda mundial do desenvolvimento da profissão, muito embora a sua consolidação só tenha ocorrido em 1975, com a aprovação da primeira versão do Código de Ética Profissional do Psicólogo e a criação dos Conselhos. Além disso, a lei também deu autonomia para os cursos de Psicologia, pois até então a disciplina era ministrada dentro dos currículos de Filosofia ou Educação.

Embora seja considerada uma ciência moderna desde o século XIX, a Psicologia, enquanto campo de interesse do pensamento humano, é tão ou mais antiga que o termo grego que está na raiz de seu nome: Ψυχολογία (ψυχή, “psique” e λόγος, “logos”, isto é, o conhecimento da alma). Assim, mesmo antes de sua profissionalização, já contávamos com grandes pesquisadores desta disciplina no país, que já lecionavam e desenvolviam a Psicologia brasileira. Dentre estes pioneiros destacamos o nosso grande mestre Antônio Gomes Penna, seus professores Nilton Campos e padre Penido (Maurílio Teixeira-Leite Penido), entre outros, como Waclaw Radecki, Eliezer Schneider, Euryalo Cannabrava e Jaime Grabois. Estes e outros foram os precursores da Psicologia, enquanto ciência e profissão no Brasil, e contribuiram ativamente para a regulamentação da nossa prática.

Em comemoração aos 50 anos da Psicologia no Brasil, destacamos a “Semana do Psicólogo”, promovida pelo IBMR, no Rio de Janeiro e a “Semana: uma outra psicologia é possível”, realizada pelo Instituto de Psicologia da UFRJ.

Semana da Psicologia IBMR

Semana UFRJ uma outra psicologia é possível

Tenha acesso ao texto da Lei nº 4.119/62: <http://www2.camara.gov.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4119-27-agosto-1962-353841-normaatualizada-pl.pdf>

Mais leis sobre psicologia e outros assuntos na seção “Leis e normas”, em: <https://redeagrega.wordpress.com/lei-e-normas/>

Uma homenagem a Franco Basaglia

“O psiquiatra parece, de fato, descobrir apenas hoje, que o primeiro passo para a cura do doente é o retorno à liberdade da qual uma vez ele próprio o havia privado”

(Franco Basaglia)

Franco Basaglia (11-03-1924 / 19-08-1980) foi um importante psiquiatra italiano, que contribuiu para a melhoria dos cuidados em Saúde Mental. A partir de seu trabalho em Gorizia e Trieste, dois grandes hospitais psiquiátricos da Itália, redigiu alguns dos textos mais consagrados da psiquiatria contemporânea, tais como “O Que é Psiquiatria?” (1967), “A Instituição Negada” (1968) e “Crimes de Paz” (1975).

Basaglia utilizou o pensamento fenomenológico-existencial para questionar a ciência psiquiátrica, partindo do entendimento de que o homem é sujeito-objeto de um sofrimento social. Desta forma, no lugar de uma enfermidade mental, Basaglia enxergou na loucura uma existência-sofrimento em relação ao corpo social. Esta nova leitura sobre a loucura evidenciou alguns aspectos indesejáveis da psiquiatria tradicional, relacionados tanto ao conhecimento científico da psiquiatria, quanto às instituições (dispositivos) de tratamento até então utilizados. Como resultado, Basaglia identificou o que chamou de “duplo” da doença, ou seja, um conjunto de características negativas que não são provocadas pela enfermidade em si, mas pelo próprio conjunto dos dispositivos de tratamento. Aspectos como a negação das subjetividades, a supressão das identidades e o embotamento emocional dos sujeitos eram consequências da institucionalização das pessoas com transtornos mentais.

O cenário que configurava a instituição psiquiátrica tradicional era, portanto, mais nocivo do que terapêutico. Basaglia dizia que a psiquiatria era institucionalizante, o que, segundo ele, era um “…complexo de ‘danos’ derivados de uma longa permanência coagida no hospital psiquiátrico, quando o instituto se baseia sobre princípios de autoritarismo e coerção. Tais princípios, donde surgem as regras sob as quais o doente deve submeter-se incondicionalmente, são expressão, e determinam nele uma progressiva perda de interesse que, através de um processo de regressão e de restrição do Eu, o induz a um vazio emocional” (1981).

Basaglia operou uma transformação institucional e científica da psiquiatria, reformando-a e levando a profundas modificações no estatuto científico e nos aparatos tecnológicos da loucura, assim como em seus sentidos ideológicos e culturais. Seu trabalho foi um marco a partir do qual é possível distinguir a Psiquiatria tradicional, caracterizada pela multiplicação dos dispositivos de alienação, da Psiquiatria reformada, norteada pelo processo de desinstitucionalização e pela criação de novos dispositivos em Saúde Mental.

As três premissas que nortearam seu trabalho foram: (a) a luta contra a institucionalização, ou seja, a desconstrução dos hospitais psiquiátricos; (b) a luta contra a tecnificação, quer dizer, não permitir que a loucura fosse apropriada por outros saberes científicos que justificassem novas formas de intervenção sobre a doença, passando, desta forma, a cultivar a preocupação pelo doente e; (c) a construção de uma relação de contrato social com o doente, substituindo as antigas formas tutelares de interposição, típicas das instituições asilares.

O pensamento de Franco Basaglia é de grande importância para o trabalho que a Agrega desenvolve nos dias de hoje. Profissionais da saúde de todo o mundo estão descobrindo novas possibilidades de cuidado e entendimento sobre o transtorno mental. Em outras palavras, significa que Basaglia não apenas iniciou a ressignificação epistemológica da loucura como também preparou o terreno para reconstruirmos os aparatos técnicos dos cuidados em Saúde Mental. Sabemos, hoje, que a loucura não é sinônimo de improdutividade, pois através do support employment, por exemplo, temos acesso a histórias de pessoas que conseguiram trabalhar, produzir e superar expectativas.

Franco Basaglia merece as nossas homenagens por seu trabalho e suas reflexões. De fato, foi ele quem iniciou a desconstrução daquela psiquiatria tutelar, substituindo-a pela psiquiatria reformada que busca, através do cuidado dedicado ao doente, restaurar a sua liberdade. Sem essa busca de liberdade, hoje não seria possível lutarmos pela empregabilidade das pessoas com transtornos mentais; mesmo com o support employment, o nosso esforço seria inútil. Se, em pleno século XXI, ainda é difícil vencer certas barreiras culturais para realizarmos este processo de inclusão social, certamente o nosso trabalho seria impossível não fosse pela obra e pelas ideias de homens como Franco Basaglia.

Para saber mais a respeito de Franco Basaglia, sugerimos o texto de Paulo Amarante: “Uma aventura no manicômio: a trajetória de Franco Baságlia”. Hiperlink para o texto completo disponível em: <https://redeagrega.wordpress.com/artigos/>

Para evitar a “almificação dos viventes”

Prezados amigos,

Existem certas armadilhas que se corre o risco de cair quando tem-se a intenção de desenvolver um projeto de inclusão da diversidade. A “almificação dos viventes” é uma delas. Esta noção foi cunhada por Reinaldo Bulgarelli com a intenção de nos alertar contra esse risco e é apresentada em seu livro “Diversos somos todos – valorização, promoção e gestão da diversidade nas organizações” (São Paulo: Editora de Cultura, 2008). A “Almificação dos viventes” diz respeito a uma reação geral que muitas pessoas têm diante do diferente e que é verbalizada por frases do tipo “o que importa não é a nossa aparência exterior; nossas almas são iguais”.

Negar a diferença é uma atitude diametralmente oposta a qualquer intenção séria de promover a inclusão da diversidade. Isto é, consiste em não reparar nas particularidades do outro, ou como diz Bulgarelli, “Almificar os viventes é exatamente ignorar nossas características e fingir que já inventaram óculos capazes de olhar apenas a alma das pessoas. E essa alma não tem sexo, cor, cicatrizes, verrugas, cabelos, idade, tom de voz, origem, língua, cultura, história… Essa alma, para eles, vive separada de um corpo, um tempo, um lugar”.

Um dos fatores importantes que devem ser levados em conta para não “almificarmos os viventes” é o fato de que a nossa subjetividade é produzida a partir de nossa relação com o mundo e, em grande medida, essa relação é estabelecida e mediada pelo nosso corpo e através dele. Desta forma, o corpo tem uma grande influência na formação da nossa subjetividade e não pode ser totalmente desconsiderado quando estabelecemos as nossas relações.

O que Bulgarelli quer dizer com “almificação” não passa por qualquer questão religiosa, nem o seu oposto, a corporificação exagerada dos valores do ser humano. É sim, um alerta contra uma forma viciada de lidar com questões de ordem prática. A “Ciranda da Bailarina”, de Chico Buarque e Edu Lobo pode nos ajudar a compreender que noção é essa: “Procurando bem / Todo mundo tem pereba / Marca de bexiga ou vacina / E tem piriri, tem lombriga, tem ameba / Só a bailarina que não tem” (para ver o vídeo completo: http://www.youtube.com/watch?v=jeEUSfP_LU4 – 02min17seg). Com o perdão da palavra, a “Almificação dos viventes” é quase como uma espécie de “Bailarinização dos viventes”, ou seja, a desconsideração de tudo aquilo que faz as pessoas especiais, posto que somos todos, em maior ou menor grau, igualmente diferentes.

De vez em quando, ao falarmos em support employment, que a Agrega desenvolve através do monitoramento individualizado do trabalhador, somos questionados se, com isso, não estaríamos ressaltando o fato de que ele ou ela é diferente porque tem transtorno mental. Como se, pelo fato de oferecermos ajuda a alguém, estivéssemos expondo essa pessoa diante dos olhares dos outros. Acreditam que o “correto” seria incluí-la como “todos os outros”, disfarçando a sua condição diferenciada. Não percebem, no entanto, que esta atitude nega a diferença, esconde-a e, assim, não inclui verdadeiramente o indivíduo. O support employment é a condição de possibilidade para que algumas pessoas consigam trabalhar. Com isso, queremos dizer que o monitoramento não apenas é necessário, mas desejável, posto que é uma ferramenta que o indivíduo dispõe para exercer um direito fundamental de cidadania que é o trabalho. Ignorar a necessidade do support employment pode, muitas vezes, custar o emprego daquela pessoa.

É preciso aceitar as diferenças para incluir de maneira responsável. Algumas pessoas precisam do support employment para trabalhar, outras precisam de uma bengala, de uma cadeira de rodas, ou de uma linguagem de sinais. A melhor conduta é, justamente, reparar as necessidades da pessoa para se relacionar melhor com ela. “Não reparar pode significar não considerar a pessoa em sua realidade, possibilidades e limites na hora de propor uma atividade, de oferecer uma oportunidade, de planejar alguma coisa para si e para todos. (…) pode significar uma imensa dificuldade de lidar com as pessoas como elas são”, diz Bulgarelli. É a partir da aceitação da alteridade que se inicia um projeto de inclusão social.

A aceitação da alteridade começa com o conhecimento da diferença, e para desenvolver esse conhecimento precisamos de alguma sensibilidade, mas também precisamos de informação. Por isso, apresentamos os vídeos que estão elencados a seguir e que chegaram até nós através do próprio Bulgarelli. Estes vídeos, que foram feitos pela TV Câmara, são muito bons para transmitir este conhecimento sensível. Cada um têm duração aproximada de 01 minuto e foram concebidos com base no “Manual de convivência”, de Mara Gabrilli. Além disso, podem ser muito úteis às empresas que pensam em desenvolver um plano de inclusão social com a contratação de pessoas com deficiências e/ou transtornos mentais.

Como lidar com a pessoa cadeirante: <http://www.youtube.com/watch?v=7om_glb3l10&feature=relmfu>

Como lidar com a pessoa surda: http://www.youtube.com/watch?v=f63tBCyDMyM&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa cega: http://www.youtube.com/watch?v=nWjjyPUWZo0&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa que tem uma deficiência intelectual: http://www.youtube.com/watch?v=lY2OLBVdt10&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa que tem uma deficiência física: http://www.youtube.com/watch?v=lGaC36rV3OA&feature=related