Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

Prezados amigos,

A partir da última semana de outubro o blog da Agrega divulgará uma série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”. Este minicurso foi parte de um conjunto de palestras que são promovidas pelo Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), sempre no último sábado de cada mês, fomentando o debate em torno de temas da Saúde Mental.

Naldo utilizou objetos artesanais, fotografias e imagens em vídeo, na tentativa de compor um quadro complexo e comovente do estilo de vida sertanejo e estudar as implicações psicológicas de um modo de produção artesanal ainda vigoroso, efetuado num campo de intensas relações comunitárias. Em seguida, apresentou alguns casos concretos de artistas que, “em tese, no contexto da civilização mecânica e eletrodoméstica, poderiam padecer de tipos diversos de sofrimento psíquico que os qualificariam como usuários do CAPS, mas que, mergulhados na vida sertaneja, não são propriamente “aceitos” ou “assimilados” pela comunidade, mas antes, transformam muito naturalmente sua loucura em elementos de potencialização estética e produção de riqueza material que revertem ao conjunto da sociedade“.

Agregar e diversificar: o diálogo virtual de um artesão

A ideia central deste blog é reforçar a noção segundo a qual a loucura é historicamente construída e foi criado com o intuito de combater o estigma, sobretudo a ideia de que a loucura é incapacitante. Uma das estratégias adotadas é a prestação serviços de informação, como a divulgação de eventos, de datas importantes relacionados à saúde mental e a inclusão no trabalho, tanto de pessoas com transtornos mentais quanto de pessoas com deficiências ou, ainda, do fomento ao debate acerca da arte produzida por pessoas com transtornos mentais (como pode ser visto na seção “As imagens da capa” em: < https://redeagrega.wordpress.com/creditos-das-imagens-da-capa/>)

Acreditamos que loucura tal qual é conhecida é uma loucura urbana, nascida entre muros, escondida dentro de um dispositivo de controle, tutelada e estigmatizada. Desde Pinel, os conhecimentos científicos que se aproximaram da loucura não produziram nada de muito novo. Pelo menos até muito recentemente…

Com relação a isso, pedimos licença ao prezado leitor para dizer que a psiquiatria e a psicologia pouco conhecem sobre a loucura, pois a loucura ensinada nas academias foi postulada a partir deste contexto que é muito determinado e cujo marco inicial, podemos dizer, encontra-se na Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, lançado em 1798 por Pinel. Ou seja, o estigma, o medo, a tutela e a ideia de que louco é improdutivo são elementos que povoam o imaginário social que dizem muito daquilo que as ciências modernas construíram em torno do transtorno mental.

Mas estes antigos modos de apropriação e controle do sofrimento mental têm sido duramente atacados, sobretudo por conta da falta de humanidade com que se dedicam à pessoa que se encontra neste estado. Este novo olhar que critica a psiquiatria desumana, inaugurado por Basaglia, nos serve de inspiração na busca das formas esquecidas da loucura que tentamos resgatar em nosso blog.

Queremos mostrar que a loucura pode ser produtiva. Queremos mostrar que a construção de uma sociedade mais saudável precisa da inclusão plena da loucura. Queremos mostrar a possibilidade de uma nova loucura urbana, participativa, produtiva e cidadã.

Hoje, temos a honra de apresentar o trabalho de um pesquisador que teve contato com uma loucura que consegue ser participativa, produtiva e cidadã, muito embora não encontre seu lugar de referência nas grandes cidades, mas no contexto de cidades sertanejas em que a influência da vida rural no espaço urbano ainda é muito marcante. A beleza do que vamos conhecer com o trabalho de Naldo Moreira revela um fato embaraçoso: que pouco sabemos sobre as possibilidades criadoras da loucura, capazes não só de gerar riquezas materiais, mas de colaborar com a potencialização estética das comunidades. É chegada a hora das ciências, dos saberes, dos dispositivos de saúde mental e da sociedade resgatarem a loucura em sua potência positiva, produtiva e criativa; o trabalho de Naldo é uma tentativa de mostrar como isso é possível.

Agregar é possível

A partir de meados de outubro, quando retorna de viagem de férias, Naldo pretende postar aqui uma série de textos, fotografias e pequenas edições de vídeo a fim de desenvolver, através de referências teóricas, notas extraídas de seus diários de campo e imagens ilustrativas, o que foi exposto de forma esquemática durante a palestra. A ideia é explorar a história pessoal, a atividade social e a produção artística de pessoas simples, artesãos e cantadores das folias do Vale do Fanado, que por sua loucura mesma são capazes de dar vida à arte e à cultura de comunidades do Vale do Jequitinhonha, nos sertões de Minas Gerais.

A idéia é inserir um post por semana, por três ou quatro semanas. Aguardemos…

Veja um trecho do minicurso em que Naldo contextualiza o lugar do louco (o porreteiro) na Folia de Reis e no contexto da comunidade sertaneja (2min 01seg): <http://www.redeagrega.com/#!videos>

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7 respostas em “Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

  1. Olá Reynaldo!

    Participei do minicurso sobre saúde mental e contexto social: alguns exemplos do Jequitinhonha e fiquei encantada com a perspectiva que vem trabalhando ao longo dos anos junto às comunidades sertanejas, valorizando e expandindo o modo de vida daqueles sujeitos que ainda mantêm viva a história/identidade de um povo. Esse olhar/perspectiva me remete ao trabalho de AT – acompanhamento terapêutico, que oferta um Lugar para o Outro, um olhar singularizado para o sujeito e não para patologia/doença mental, uma tentativa de encontro com o Outro, de estar com o Outro – de acessá-lo naquilo que lhe é próprio.
    Agradeço por partilhar seu trabalho e experiência!

    Um abraço,
    Solange Costa
    Psicóloga e AT

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