Crônicas do Jequitinhonha: Ulisses e Noemisa

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo o desenvolvimento dos temas da palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de alguns exemplos de “loucos” artistas do barro do Jequitinhonha, a começar por Ulisses e Noemiza.

Num dia de julho de 1997 eu e Matheus Cotta, um grande amigo, com quem então viajava, conhecemos Ulisses de Caraí e lhe demos uma carona até o fundão do vale do Ribeirão Santo Antônio, onde mora, uns vinte quilômetros subindo e descendo as cristas das altas montanhas das nascentes do Médio Jequitinhonha. Matheus dirigia.

Esse sertanejão de metro e noventa, cabeça enorme, muito hirto e impositivo, quando nos viu, nos encarou de frente, pesado, analisando, detrás de óculos grandes e fundos, e o conjunto, para os jovens tenros de sertão, metia medo.

Precipícios sim, precipícios não, pontes, mataburros, suadeira, muita poeira, mas está muito melhor do que navegar pelas estradas de janeiro, ensebadas de lama, com que não teríamos chegado e muito menos regressado da grota medonha que o homem e sua família habitavam.

Não gosta que ninguém seqüestre em aparelhos eletrônicos o trovão de sua voz, muito menos sua imagem, já de cara, na cidade, nos avisaram. Tudo bem, tudo bem, não tinha necessidade não, o importante era a conversa, a aventura.

Acontece que, ao longo da viagem, da boca do sujeito jorrava uma filosofia da natureza de sabor tão peculiar (veneração de lajedo de pedra, conjuro de espírito de plantas, conversa de águas de riacho, etc.) que, assentado a sua frente, no banco do passageiro, não resisti e, cuidadosamente, saquei da bolsa o gravador, pensando que, no fluxo egocentrado do discurso, o velho caboclo não fosse perceber o “clic” do botão de “record”.

Foto: Peça antropomorfa de Ulisses - 1998Mas o gigante de óculos fundo de garrafa escutava muito bem sim senhor e estava perfeitamente atento por detrás da língua solta, pois mal a maquininha dos infernos deu o sinal, ele estacou, parou, abrupto, de falar. Ai, ai, ai, tremi por dentro… O silêncio insistia… Para quebrar o gelo, tolo, arrisquei uma perguntinha sem graça… Por trás de minhas costas, o vazio sufocava… Por alguns segundos torturantes, esperei…E era o nada… Por fim, de súbito, Ulisses decretou: “ô seu moçu, u negóc’ é u siguinti, ôce faz favô di disligá iss’aí purque iss’aí é u passadu, iss’ aí é a morti!” E ponto.

Da única outra vez que vi Ulisses, eu vim sozinho. Porém, em certo ponto da estrada, o peso de meu automóvel fez ruir um velho mataburro e ali ficamos, empacados. Tentei de tudo, sem solução. Então, resolvi andar até a casa do artista, mesmo temendo que me reconhecesse como o idiota traidor do microfone. Reconhecer, reconheceu. Mas como foi, afinal, que me acolheu? Adivinhem…

Ao contar o ocorrido, Ulisses e um genro seu, que estava por ali, pois o caboclo é dono de suas horas, voltaram prontamente comigo ao local do acidente e passaram a manhã iFoto: Visões de Ulisses de Caraínteira lutando com a cabeça e com os braços para tirar da vala meu trambolho de aço. Não se renderam enquanto não venceram o desafio, uma batalha, sob um sol de fritar os miolos. E depois, de quebra, me ofereceram um almoço de levantar defunto de que não me esquecerei enquanto vivo for.

Ulisses, ele mesmo, faleceu, faz poucos anos, e foi parar nos céus de Dali e Miró, mas por décadas sua mente ardente e suas mãos poderosas materializaram, em pesadas esculturas de argila, as imagens míticas que povoavam sua fala, como vemos no exemplo da foto.

Alguns quilômetros riacho abaixo, onde só era possível chegar a pé, até pouco tempo atrás, por uma trilha saborosa, em meio à mata, com direito ao luxo de sinfonias de passaredo e aromas insólitos, profundos de surpresa, ainda vive a prima de Ulisses de quem hoje quero falar com mais detalhes: Noemisa Batista Santos.

Clima quente, pés criados no chão, roupa pouca de chita pobre, essa coisinha mirrada deve estar na faixa dos quarenta quilos, o porte de uma criança magra, não mais. Possui gestos elétricos, mas firmes, pois é roceira, toda concretude e trabalho duro.

E não é como Ulisses, não viaja nas idéias não. Contudo seus olhos nunca batem com os nossos, estão sempre divagando, para baixo, para cima, para os lados, e suas frases rápidas, que saem como flechas, arremessadas no ar, a esmo, sem alvo, embora só tratem das estreitezas cotidianas, são coisa de outro mundo, pois falam uma língua roseana que, meio sem querer, acaba que se faz entender.

Observemos como procede Noemisa, no vídeo disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be>, observemos como o enigma de sua fala e a dança miúda de seus gestos habituais pode ser capaz de produzir o realismo fantástico mais puro.

Foto: Interior da casa, o fundo agora é verde água - 2010

Noemisa “ficô pra tia”, como se diz. Por que? Por imposição da mãe e das irmãs mais “sãs”? Porque talvez, na falta de uns parafusos, jamais tenha sido desejada como mulher, pleiteada como esposa? Difícil saber.

O fato é que ficou para ela, a caçula, a tarefa de uma vida de cuidar da irmã doente. Embora visite essas duas há mais de quinze anos, jamais vi a cara da outra, a “louca” propriamente dita. É sempre mantida presa, quando estranhos se aproximam, oculta no quartinho dela, especial, pois tem porta e corrente com cadeado, no mais, inúteis onde não há o que cobiçar.

As casas da roça por aqui não têm forro e os construtores não parecem ver motivos para subir as paredes internas, de adobe, até o nível do telhado, e enquanto converso, na sala ou na cozinha, ao lado, com a dona da casa, voam lá de dentro da clausura, Foto: A casa feita em 2001 registrada em 2003como que vindos do limbo do purgatório, sentenças secas, exigências ríspidas, palavrões e impropérios de toda estirpe, quando não, em meio ao caudal raivoso, de repente, surge uma modinha sertã das boas, das de sabor antigo, e muito bem cantada, tocante, carregada do espírito das velhas folias, e olha que por aqui esses folguedos já não passam há muito, muito tempo.

Esse canto sem face, de fogo louco, encantado mas agressivo, que soa, ao mesmo tempo, mecânico e sentido, é o pano de fundo dos encontros anuais que tenho com Noemisa, e produz no ambiente da casa uma estranheza que poderia muito bem se achar num livro de Gabriel Garcia Marques mas, juro, está na realidade mesma, nua e crua.

Em janeiro de 2011 visitei Noemisa pela última vez, poucos dias antes do Natal, e a encontrei, como na foto ao lado, mirando o quintal da janela da cozinha, tão pequenina, enquanto lá fora o sol estourava. Observem, o gnomo traz na cabeça uma boina vermelha de Papai Noel. Só Deus sabe onde a conseguiu, em que outra dimensão. Só para Deus ele está trajando o emblema, nessas solidões onde o calor impera mas o tempo está congelado. A cena parece patética, mas é mais complexa, é espantosa: intrigante e perturbadora.

Noemisa deveria, por tradição, ter herdado da linhagem materna a arte da paneleira e fazer grandes potes, bules, buiões e cuscuzeiras. Mas, sendo a mais nova, franzina e “abestaiada”, na crença da mãe e irmãs, ficou restrita às tarefas práticas de catar lenha miúda, preparar bolos de argila ou fazer a comida enquanto as outras subiam as “vasias”. O produto valia uma ninharia mas era o que tinham para obter alguns trocados, um escambo pouco vantajoso na feira de sábado ou nas mãos dos tropeiros acaso de passagem pelos rincões esquecidos onde moravam.

Foto: Crônica do sertão, o pássaro na boca da cobra coral - 2002Como aconteceu com outras chamadas “bonequeiras do Jequitinhonha”, a maioria filhas ou netas de paneleiras, a família permitia que Noemisa, desde criança, colocasse no forno, entre os utensílios, uma ou outra boneca para brincar ou vaquinhas e burricos para montar um presépio rústico, improvisado.


Os anos se passaram, as vasilhas de barro perderam a concorrência para as de ferro e alumínio, cada vez mais baratas, leves e quase indestrutíveis, a manufatura de potes e panelas foi à falência nestas e em outras paragens, e a arte teria desaparecido com o antigo comércio não fosse a loucura de Ulisses, Noemisa e outros que transformaram brincadeira de infância em atividade séria e remunerada, voltada para um público distante, mas que aos poucos passou a influenciar os sertões, na esteira da modernidade.

Desde então, desde meados da década de 1970, e pouco a pouco, os dois mudaram, com muita paciência, esforço e inventividade, o destino do Ribeirão Santo Antônio. As próprias irmãs de Noemisa, Maria e Santa, entre outras, da comunidade, passaram a copiar, sem o mesmo encanto, as doidices que a menina impunha ao barro.

De mera assistente de ofício ela se tornou, assim, o centro de atenções inusitadas: compradores abastados, os mais ousados, que se arriscam nessas lonjuras, brasileiros e alguns estrangeiros, lojistas, jornalistas, pesquisadores. E foi assim que tornou-se o arrimo financeiro da família, com o que vem ajudando a criar as sobrinhas e um filho que uma delas, muito cedo, jogou no mundo, esse mesmo que aparece na filmagem e na foto abaixo.

Apesar da “fama”, Noemisa jamais conseguiu se ver livre dos mesquinhos atravessadores locais, que rondam à procura de uma oportunidade de lucro fácil. E quando a clientela some, por meses a fio, e é preciso remendar uma cerca ou dar capina na “rucinha” de milho e mandioca, pode se ver obrigada a trocar uma de suas peças por um dia de trabalho de algum rapagão da vizinhança que tem mais liberdade para ir negociá-la, da melhor forma possível, no comércio das cidades mais próximas.

Apesar das dificuldades do dia a dia, sobra tempo e invenção suficiente para deixar a casa bem branquinha com uma espécie de cal natural, a Tabatinga, e depois pintar sobre as paredes de dentro e de fora, com óxido de ferro, corante vermelho com que também tinge suas peças de barro, os magníficos desenhos de arranjos de vasos e flores.

Em geral, Noemisa faz, com suas obras, a crônica da vida sertaneja: o noivo e a noiva vestidos para o casório, a velha fiando algodão, a mula que carrega de cada lado da cangalha um feixe pesado de lenha, o caçador e seus cães que encurralaram uma onça na árvore e estão por abatê-la, a cobra coral que engole um passarinho, o caboclo que está a ponto de enfiar a faca no porco, algumas representadas nas fotos que selecionei.

Foto: Cronica do sertão, sacrificando o porco - 2011Mas em seu repertório existem certos seres, quase identificáveis, como o suposto cão que ganha algo de criatura extraterrestre por um pequeno exagero de feições ou pela pintura geométrica estilizada que cobre seu corpo e existem certos arranjos de um simbolismo muito pessoal cujo significado apenas a autora poderia nos explicar em sua língua de outras eras, se estivesse disposta. Podemos vê-los nas fotos abaixo.

Tudo considerado, penso com meus botões: o que teria sido de Ulisses e Noemisa caso tivessem sido criados como a maioria de nós, que compartilhamos esse texto, habitantes da grande cidade, alheios à rotina laboral camponesa, de grande esforço físico, domínio ambiental, abrangência cósmica e implicações simbólicas? O que lhes teria acontecido se tivessem sido privados da diversidade e da intensidade dos contatos humanos, características das comunidades rurais sertanejas? E se não tivessem nutrido suas almas dos referenciais estéticos da herança católica embaralhada à mística cabocla, Foto: Cão extraterrestre - 2002de traços negros e índios subterrâneos? E se não tivessem sido a platéia atenta dos contadores de “causo” ou se inspirado, na infância, nos poetas cantadores da Folia do Divino que passou por suas casas? Como teriam vivido, então, com um mínimo de dignidade? Como teriam encontrado os recursos para gerir e dinamizar os poderes fantásticos de sua loucura?

Num tempo em que a psicologia passa por um processo de psiquiatrização de conseqüências catastróficas e sofre o ataque de uma indústria farmacêutica de alta lucratividade que, por isso mesmo, pretende impor às universidades mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos, uma visão biologista da psiquê humana, o que, no fundo, traduz o velho e cansado moralismo bíblico que assevera que todo o mal reside no indivíduo, exemplos como os que acabo de dar, espero, são suficientes para demonstrar enfaticamente o quanto o ambiente natural, as tradições, o trabalho diversificado, o intenso convívio comunitário e o exercício da arte aparentemente mais trivial podem mudar por completo o destino pessoal de quem, por fatores genéticos tantas vezes insondáveis, é candidato ao sofrimento psíquico. E demonstrar que essas potências mesmas, libertas, podem se tornar o pilar material e estético de uma comunidade.

Foto: Noemisiahttp://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Agregando notícias #5

“Super Normais”, uma tirinha sobre humanidade e acessibilidade


“Super Normais” é uma tirinha que fala sobre questões humanas e está em circulação na internet divulgando temas sobre inclusão, cidadania e respeito aos direitos. Uma vez por mês, um grupo de amigos de Curitiba se reúne para conversar e criar as tirinhas. Segundo o perfil do grupo em uma rede social, as histórias tratam de “Filosofia, inclusão e vicissitudes da vida sob o ponto de vista de três personagens espelhados em pessoas reais, que acham que ter uma deficiência é super normal.”

O desenhista do grupo, Rafael Camargo, que não é deficiente, relata: “O que foi um soco no estômago, na verdade, foi que o que eles estavam mostrando para mim não tinha nada a ver com deficiência. Tinha a ver com respeito, com civilidade, resiliência. Eu falei: nossa isso é muito bom. É muito verdadeiro”.

Para Mirella, uma das integrantes do grupo, “Pessoas com deficiências normalmente são retratadas como super-heróis, pessoas que superaram milhares de desafios, então, são além do normal, ou como coitadinhos, dignos de pena. Então, a gente queria fazer este paralelo (…). Somos pessoas supernormais com histórias, como qualquer outra pessoa”.
Para ver mais tirinhas curta o perfil do grupo no facebook em: <https://www.facebook.com/supernormais>

Cursos do IPUB – UFRJ em especialização em Saúde MentalLogo Ipub

Até 11 de janeiro de 2013 estarão abertas as inscrições para seleção de candidatos para cursos de especialização do IPUB/UFRJ. São sete cursos:

1) Atenção Psicossocial na Infância e Adolescência;
2) Neuropsiquiatria Geriátrica;
3) Assistência a Usuários de Álcool e Drogas;
4) Clínica Psicanalítica;
5) Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes;
6) Psicogeriatria
7) Terapia de Família


Seminário Anual de Saúde Mental
Acontece no Rio de Janeiro, nos dias 13 e 14 de dezembro de 2012, nos auditórios Auditórios 111 e 113 da UERJ. Veja a programação:

Dia 13/12
9h – Mesa de abertura (Auditório)
10h – Conferência “A Cidade no Cuidado ao Usuário de Saúde Mental”
13h30 – Gupos temáticos
Ações Territoriais I: Crise e Matriciamento (Auditório 111)
Ações Territoriais II: Desinstitucionalização (Auditório 113)

Dia 14/12
9h – Mesa: Análise da Gestão de Saúde Mental (2009 – 2012) e perspectivas (Auditório 111)
13h30 – Mesa: Diálogos Intersetoriais – Uso de drogas na Infância e Adolescência (Auditório 111)

Federação Brasileira de Hospitais (FBH) perde causa ao tentar censurar livro e filme que retratam a realidade dos hospitais psiquiátricos no Brasil

Uma vitória da luta antimanicomial, foi como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou a nota que anuncia a vitória, em primeira instância, sobre o processo no qual a FBH tentava censurar a divulgação do livro “A Instituição Sinistra – Mortes Violentas em Hospitais Psiquiátricos no Brasil” e o vídeo “Tribunal nos Crimes da Paz, o Hospital Psiquiátrico no Banco dos Réus”.
A ação judicial ressalta que “O livro e o vídeo tratam de uma crítica ao atual sistema brasileiro. Ou seja, trata-se de uma crítica construtiva que não visa ofender uma instituição psiquiátrica ou um profissional específico”.
Segundo divulgado na página do CFP, o Presidente do CFP, Humberto Verona, lembrou que a decisão favorável é também uma vitória importante que anima os defensores dos direitos humanos, pois há uma tentativa de alguns setores de criminalizar aqueles que defendem as violações de direitos humanos nesse país.

Debates em torno do DSM-5 no Rio de Janeiro


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Surfista brasileiro cego ganha telas de cinema

Derek Rabelo, um jovem capixaba de 20 anos já dividiu com Kelly Slater, Gabriel Medina e Mick Fanning e se tornou protagonista do documentário “Além da Visão”, que está sendo filmado por Bruno Lemos e Luiz Werneck.

Em entrevista ao Globo Esporte, Derek contou: “Eu sempre morei perto da praia, minha família toda surfava. Chegou um momento da minha vida que eu quis surfar, quando tinha 17 anos. Eu sabia que a galera estava indo surfar e ficava na vontade. No início, foi meio complicado, estressante. Eu tentava surfar todo dia, o treinador ficava sempre à disposição. A galera me dava muita força, incentivava. E eu consegui!”
Depois de aprender a surfar, Derek quis conhecer o Havaí para tentar surfar a Pipeline, conhecida por ser uma das maiores e mais perigosas ondas do mundo. “Pipeline foi a bênção de Deus na minha vida, fiquei “amarradão” em fazer isso. Foi uma situação muito diferente, água quentinha, altas manobras. O pessoal do Havaí me deu muita força, gostaram da minha história e deram paz para que eu pudesse surfar a Pipeline. Foi um momento muito maneiro também – explica Derek, que precisa da ajuda de outro surfista para orientá-lo, gritar e empurrá-lo na hora exata de entrar na onda.”

O documentário ainda não tem data para estrear, mas você pode conferir outras histórias de Derek lendo a matéria do Globo Esporte na íntegra em: <http://globoesporte.globo.com/radicais/surfe/noticia/2012/09/cego-brasileiro-destroi-limites-surfa-em-pipeline-e-ganha-telas-de-cinema.html>

Evento em São Paulo discute as interfaces entre a Saúde Mental e a Justiça

Cartaz

Crônicas do Vale do Jequitinhonha: Os Juaquis da Fulia

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo no desenvolvimento dos temas propostos na palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de exemplos da inserção produtiva do “louco” no contexto camponês do sertão.

Num conjunto de comunidades caboclas em que todos se conhecem, num amplo campo de relações (certa vez um jovem me surpreendeu ao afirmar que reconhecia uma pequena sombra que caminhava a uma distância espantosa, na crista de um morro, pelo simples modo como o homem caminhava) e onde existem muitos Pedros, Marias, Adãos, Evas e Joaquins, é preciso diferenciá-los de algum modo.

Se o sujeito vem de uma comunidade vizinha, em geral, toma o sobrenome do lugar, Pedro de Poço d’Água ou Maria do Galego. Mas em sua terra mesmo ele é normalmente associado a algum parente marcante, um dos avós, dos esposos, um pai ou uma mãe de personalidade: Eva de Adão ou Adão de Eva.

Mas o Joaquim de que falamos possui diversos atributos e, assim, diversos apelidos notáveis.

Sua mãe, Dona Virgínia, octogenária, sólida como o granito, olhos azuis dulcíssimos, alma pura sertaneja extremamente bicho-do-mato, quase não sai de sua cozinha, mesmo agora que os foliões inundaram a casa com sua “alegriagi”: gritarias, cumprimentos e cantigas exaltadas, fanfarronices de toda sorte, um Deus-nos-acuda.

Está ao pé do fogãozinho, acuada, quando a vejo, soprando o tição para a brasa não minguar, conferindo o pontoFoto: Dona Virgínia recebe os foliões de bater o angu, despindo um dente de alho, defendendo a rotina de uma vida e a timidez implacável atrás dos gestos cotidianos e de um dos netinhos que veio da vizinhança e a quem se achegou para receber como podia o choque da turba amalucada que se apresentava sob o pretexto elevado do louvor à bandeira do santo. É com o a vemos na foto.

Assim se explica porque nosso Joaquim é tido, antes de mais nada, como Juaqui d’ Virgínia. Está viúva há séculos e esse filho que não se casou e ficou em casa é um simplório, uma eterna criança, feito para cuidar.

Hoje, no alto de seus cinquenta e tantos anos de idade, quando chegou, de outras paragens, conduzido pelo barco da Folia, à própria casa, eu que conheço esse Joaqui há pelo menos uma década, percebi como, a sua revelia, desligou-se nele a chave do folião “ponta-firme”, cantador de compromisso, e ligou-se a do moleque que será até a morte, o meninão bobobediente, de hábitos, espaços e usos muito demarcados, que não saberia viver sem a luz, o carinho e os bons tratos dessa mãe do conto de fadas.

Nesse dia de janeiro de 2010 fiz de Joaqui d’ Virgínia a foto abaixo. Pedi que posasse, o que em geral não faço, mas mesmo assim o menino aparece evidente, em seu quarto, na passagem da Folia. Na câmara minúscula e sem porta de madeira, pendurados nos paus roliços do teto baixo, sobre a cama rude onde dorme, estão os tantos apetrechos, bolsas, sacolas e sacos em que deposita a natureza concreta e também a insólita de seus pobres pertences e, segundos atrás, os tesouros de sonho que ali esconde tinham sido a fonte da especulação zombateira das crianças mais endiabradas e dos adolescentes já meio mareados de cachaça, como sói acontecer.

Foto: Juaqui d' Virgínia entre seus pertences

Nesse dia, contudo, ele mesmo está são, não bebeu não, e aguentou calado a onda de sadismo carinhoso a que já está acostumado, mas de modo sereno sério, a demonstrar com atitude que na casa de sua mãe se encontra bem acima, na órbita do Santo Sebastião, ao posar para o “retratu”.

Mas que ninguém se engane sobre a capacidade produtiva de Joaquim. Como qualquer sertanejo que se preze, ele sabe o bastante de cada ofício que pode garantir sua sobrevivência: planta seu quintal de milho, mandioca, mamão, cana e banana, feijão de corda e andu, cria galinhas, com que vez por outra faz um “negucin” com parentes e “cumpadis”, e possui seus bons aparatos, anzóis e redes, esporas, enxadas e foices afiadas, arreios, estribos e botas calejadas.

Mas sua excelência mesmo está no ramo dos remédios. Conhece todo tipo de folhas, raízes, sementes e cascas de árvores que, socadas, diluídas, fervidas, decantadas, aplacam febre, curam dor de cabeça, depuram sangue, estancam caganeira e amenizam ressaca.

Durante os dias quentes da Folia e em face dos exageros diversos a que estão sujeitos mulher ou homem, moça, rapaz e ancião, seus saberes são sempre postos a prova e, quando exerce a medicina, toma ares corretos, passa em detalhe o aplique, a mistura, a dosagem, e costuma ser respeitado.

E se isto não bastasse, enquanto está embarcado na Folia, Joaquim traz sempre consigo uma bolsa rota de lona e, dentro dela, guarda uma garrafa de vidro colorido, seleto, cheia de sua famosa “miçanga”: pinga embebida em raízes e cascas poderosas, a que Foto: Aparatos de trabalho de Joaquim lavradorempresta tonalidades, sabores e sentidos variados e em torno da qual fermenta, sem ostentação, a lenda dos efeitos milagrosos, na certa duvidosos, mas aceitos por todos, num espectro de reações que vai, na multidão, da admiração fingida à crença mais sincera. A famosa bolsa aparece na foto, pendurada na parede do quartinho onde Joaquim guarda seus aparatos de trabalho.

Embora todos saibam a respeito da reserva especial que o bobo da corte traz na bolsinha, grudada ao corpo, a tiracolo, ele mesmo parece estar sempre a acreditar que se trata de um segredo muito bem guardado, pois a cada vez que algum cristão com “quemação”, “tuntura” ou “piriri-brabo” lhe pede socorro ou que um mestre cantador respeitado quer saborear, após as refeições pesadas, um digestivo forte amargo, é sempre com alta cerimônia, cochichos e táticas de dissimulação que Joaquim convida o privilegiado a dirigir-se com ele para os costados da casa ou o fundão dos bananais onde as aplicações podem-se dar em sigilo absoluto.

E é devido a esta alquimia, a esta mística, que Joaquim é conhecido, especialmente durante o “giru da Fulia”, como Juaqui da Miçanga.

Contudo, não é de tal faculdade que Joaquim tira mais orgulho.

Foto: Menino concentrado segura a bandeira e oferece a esmolaAs Folias do Médio Jequitinhonha são cantadas por dois grupos de quatro vozes, em geral masculinas, postos um diante do outro, nas louvações ao Santo Reis ou ao Divino Espírito Santo, longas ladainhas em que o puxador se compromete a sacar um verso para cada membro da família ou agregados que se apresentam para doar sua “esmola” e receber sua benção ao pegar na bandeira, como faz, concentrado, o molequinho da foto.

O grupo do puxador se esforça para acompanhá-lo, em coral, considerando que as estrofes que inventa são um misto de frases convencionais e inspiradas pelo momento, e a turma da “resposta”, em seguida, deve guardá-las na memória e tentar reproduzi-las com o máximo de fidelidade, se não quer fazer feio.

O coral é composto de três alturas de baixo ou barítono, a que chamam de “contraltos” e uma, muito mais alta, dita “requinta”, posta no fim da fila. Esta é uma voz rara entre os homens da comunidade. Além disso, são muitas as horas que, somadas, dia após dia, os foliões mais fiéis são obrigados a passar entoando, de casa em casa, os mantras religiosos, como a louvação ou o terço cantado, além das cantigas de base das danças leigas, como o “nove” e o “caboclo”, que se utilizam do mesmo arranjo de vozes. Assim, os poucos “riquintêros” são exigidos ao máximo, pois quase não encontram quem possa revezá-los na função.

Joaquim não pensa duas vezes, participa de quase todos os “compromissos” e da maior parte das “brincadeiras”, vem correndo assim que é convocado, enquanto outros enrolam, de corpo mole, valorizando, fazendo cena.

E é nesse momento que nosso herói encarna seu terceiro nome e personagem, o chamado Juaqui da Riquinta, amado por todos por sua bobeira mesma,  prontidão mecânica e dedicação desinteressada. Na foto Joaquim está a postos na louvação à bandeira de São Sebastião.

Foto: Os dois grupos de cantadores louvam Sâo Sebastião

Com o passar dos dias e o avanço da canseira e dos efeitos danosos da cachaçada, a voz vai sumindo, nada que uma boa miçanga não conserte ou não se possa remediar, mal e mal, com o choque depurativo de limão capeta com sal.

Não que Juaqui da Riquinta não se orgulhe do dom que possui, tão requisitado, tão indispensável que é ao bom andamento da Folia, conforme vaga do crente ao profano. E é especialmente sensível ao juízo que eu possa fazer de sua atuação, já que ninguém vai querer dar vexame diante do “omi da fiumadêra”, não é verdade?

“Sem a mia riquinta essa fulia num andava não, é ou num é, fala a verdadi?”

“Não Juaqui!!!”, respondo invariavelmente e pela centésima vez, simpático enfático, “sem a sua riquinta u diabu dessa fulia já tinha acabado, tô pra ti dizê!!”, e invariavelmente meu amigão só falta estourar de orgulho besta!

No link <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I> vemos Joaquim arriscar um verso que inventou para o “caboclo”. Não tem a coragem de propor aos homens a formação dos grupos para que o ajudem a puxar a cantiga e a dança no palco de uma das casas por onde passa a Folia, pois os cantadores não o levariam a sério, mas contou para mim que na noite passada tinha preparado na cabeça, em casa, uns versos só seus. Exultei, de pronto, e fui logo sugerindo que fizéssemos uma tomada de vídeo enquanto ele “mandava vê”. Estava orgulhoso, mas um tanto intimidado. Porém, com insistência (confia em mim), topou.

É “cabocu doidu”, diriam os entendidos. Eu achei o invento fantástico, estranho, de personalidade: os homens trabalham para implantar a ferrovia mas é o “tomóvi” que vai passar.

Joaquim deve ter cerca de um metro e noventa de puro osso, pés, pernas e braços enormes e essa geringonça adora divertir toda a gente com suas tiradas: é muito flexível e às vezes se exibe, como na foto, em sessões de contorcionismo, e se a Folia está passando ao largo de algum campo de várzea, junta gente para assistir o lance do pernalonga alcançar com o bico do botinão a trave do alto do gol.

Sinto por esse Joaqui de tantos nomes, de tantas almas, esse amor dolorido e purificador que certos palhaços líricos ou certas crianças ingênuas, sedentas e atabalhoadas às vezes acordam na gente. E esse sentimento em mim é tão carregado de espanto, gratidão e respeito que não consigo jamais embarcar no jogo, no entanto, admito, legítimo, dos tantos que se divertem em provocar meu amigo, achincalhá-lo, zombar de suas tolices, às vezes até o ponto em que ele explode de raiva e chora, conforme o prazer que o espírito de rebanho costuma retirar, mais em uns, menos em outros, dessas pequenas maldades.

Alguns dos mais sábios sertanejos que acompanham o cortejo e exalam uma dignidade na simplicidade comovente pra caramba, estão sempre aconselhando Joaquim a “num dá pano pra manga”, principalmente quando fica muito bêbado e irritável. Buscam protegê-lo, mas sempre acabam admitindo que algo no pobre diabo gosta de levar as provocações até o limite, como se de algum modo ele se deixasse levar por uma espécie de fatalidade ao sacrifício, ao sofrimento, que é real, em prol da felicidade geral.

Procuro a cada ano levar para Joaquim algum regalo, um canivete, um chaveiro, um boné e, claro, a cópia impressa da melhor foto, sempre diversa, que tirei na Folia anterior.

Em 2011 fiz dele o registro digno de nota que figura abaixo, e estava certo de que ele ia apreciá-lo além da conta, pois aparecia com a barba traçada, uma camisa nova, de estampa ousada, muito bem passada, e trazia, sobre o peito meio à mostra, um colar de sementes e gordas bolotas de madeira que alguns dos rapazes lhe emprestou, para que entrasse “na moda”, na certa pensando em preparar para o galã, por conta do arranjo, durante a festa, alguma de suas cruéis patacadas.

Foto: Juaqui da Miçanga bem trajado pra Fulia

O impacto da oferta, como previ, foi grande, pois Joaquim emudeceu, não agradeceu, não porque não seja educado, ao contrário, sempre se mostra muito grato, mas porque, acredito, desta vez, ficou meio sem palavras, talvez tenha-se emocionado e, para não demonstrar, deu no pé, escapou de si, de nós.

Porém, qual não foi minha surpresa, dias depois, quando a Folia chegava ao fim, e numa das casas Joaquim me sinalizou de longe, indicando os fundos do quintal e convocando para um daqueles conciliábulos secretos em que manifesta a necessidade de comunicar ou oferecer algo de importância cabal.

Chegando ao esconderijo, ele sacou do bolso da camisa a tal foto, dizendo: “óia, essi anu nóis vai fazê assi, ess’retratu aqui, c’ocê feiz di mi, ocê vai levá de volta pra casa, eu vô ti dá el’ di presenti pr’ocê, tá bão, combinadu?”

Era uma dádiva inestimável, um enorme sacrifício da parte desse “cumpanheru bão”, um presente maluco muito especial, algo muito tocante, se é que o leitor nos entende.

E assim é a vida humana, se provocamos, ela nos retribui com inimagináveis, gratíssimas, intensas surpresas.

Foto: Juaqui Canta
Juaqui da Riquinta canta um verso que inventou para o “caboclo”: <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o último post, “folie” e estética, acesse:<https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Do tropicalismo à cajuína: uma homenagem a Torquato Neto

“Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder”
(estrofe do poema Go back, de Torquato Neto)

Torquato Pereira de Araújo Neto (9/11/1944 – 10/11/1972) foi um poeta, jornalista e compositor, que esteve envolvido com a Tropicália, o Cinema Novo e o movimento concretista.

Foto de Torquato NetoTorquato escreveu o breviário “Tropicalismo para principiantes” onde defendia a ideia de uma música pop genuinamente brasileira. Como letrista, ele compôs em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Nonato Buzar, Edu Lobo, entre outros grandes de nossa música.

Também participou de alguns filmes na década de setenta e produziu o seu próprio filme como diretor e ator, o “Terror da Vermelha”, no qual Edmar Oliveira também trabalhou como ator e Arnaldo Albuquerque fez a câmera. Também como ator, Torquato atuou no filme “Adão e Eva”, uma produção de António Noronha, com direção de Carlos Galvão, roteiro de Edmar Oliveira e, mais uma vez, câmera de Arnaldo Albuquerque. Além disso, Torquato foi assistente do filme “Barravento”, de Glauber Rocha.

No final da década de sessenta, com o exílio dos amigos Caetano e Gil, Torquato foi morar em Londres com a esposa Ana Maria. Voltou ao Brasil no início dos anos setenta, mas se isolou do mundo e das pessoas, sentindo-se perseguido e tolhido pela “patrulha ideológica”. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo e rompeu diversas amizades.

Foto de Torquato NetoEm 1973 Waly Sailormoon organizou um livro com textos e poemas de Torquato, chamado “Torquato Neto, – os últimos dias de paupéria”. Nele, existe um capítulo intitulado “D’Engenho de Dentro” onde estão reunidos textos que Torquato escreveu durante o período em que esteve internado no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII – atual Instituto Municipal Nise da Silveira), situado naquele bairro. Nestes trechos ele revela um pouco da profundidade e dos matizes de seu sofrimento.

“Dia 07/10 – um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: ‘quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. É difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. É chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo’. O recorte acaba aí. Hoje, agora, estou fazendo tempo enquanto os remédios que tomei fazem efeito e vou dormir. Esse sanatório é diferente dos outros por onde andei – talvez seja o melhor de todos, o único que talvez possa me dar condições de não procurar mais o fim da minha vida”

Dia 7/4/71 – “Foi um caminhão que passou. Bateu na minha cabeça. Aqui. Isso aqui é péssimo, não me lembro de nada. // Eles não deixam ninguém ficar em paz aqui dentro. São bestas. Não deixam a gente cortar a carne com faca mas dão gilete pra se fazer barba. // Pode me dar um cigarro? Eu só tenho um maço, eu tenho que pedir porque senão acaba. Pode me dar as vinte.”

Um dia após seu aniversário de 28 anos, em 1972 na cidade do Rio de Janeiro, Torquato Neto cometeu suicídio. Depois de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás.

Em homenagem ao poeta, Caetano Veloso compôs a música “Cajuína”, como pode ser visto no vídeo que está acessível em <http://www.youtube.com/watch?v=S5NxSwkwx-o>. Na ocasião, Caetano estava em Teresina e foi visitar o pai de Torquato, que lhe serviu uma cajuína e depois lhe presenteou com uma rosa menina do seu jardim.

Hoje , no Rio de Janeiro, está em funcionamento o Centro de Atenção Psicosocial Caps Torquato Neto, situado no Cachambi.

Foto de Torquato, Caetano Capinan
Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinam.

Cogito
(Torquato Neto – 20/10/1970)

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranquilamente
Todas as horas do fim

Para saber mais sobre a obra de Torquato Neto, visite a página oficial clicando no endereço: <http://www.torquatoneto.com.br/>

Referências:
Torquato Neto – os últimos dias de paupéria. Organizado por Waly Sailormoon. Rio, 1973. Livraria Eldorado Tijuca.

Da Psiquiatria à Psicanálise: o pioneirismo de Henri Ey

O psiquiatra francês Henri Ey Banyuls-dels-Aspres (10/08/1900 a 8/11/1977) dedicou sua vida ao aprimoramento da psiquiatria e ficou conhecido por tirar esta disciplina de sua organização estática. Defendia que a ordem hierárquica das funções psíquicas prevaleciam sobre a organização do cérebro. Foi a partir deste postulado que ele fundou a psiquiatria dinâmica, aproximando as teorias de Freud e Bleuler e incorporando a leitura de Hughlings Jackson para o campo da psiquiatria francesa. A perspectiva de Ey ficou conhecida como a abordagem organo-dinâmica, e formou toda uma geração de novos psiquiatras franceses.

Henri Ey foi redator chefe da revista Évolution Psychiatrique desde 1945 e, em 1961, participou da fundação da Associação Mundial de Psiquiatria, da qual foi secretário geral por muitos anos. Além disso, foi o médico chefe do Hospital Psiquiátrico de Bonneval (Eure-et-Loir) de 1933 à 1970. Ey foi também o mentor dos famosos colóquios de Bonneval, que organizava reunindo psiquiatras, psicanalistas, neurologistas e filósofos de todas as tendências.

Muito fecundo por seus escritos, Ey escreveu um Tratado de Psiquiatria juntamente com Bernard e Brisset, em 1960, que até hoje é referência em cursos de formação de psiquiatras. Dentre sua vasta obra, se destaca ainda o monumental Tratado das Alucinações, de 1973.