Crônicas do Vale do Jequitinhonha: Os Juaquis da Fulia

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo no desenvolvimento dos temas propostos na palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de exemplos da inserção produtiva do “louco” no contexto camponês do sertão.

Num conjunto de comunidades caboclas em que todos se conhecem, num amplo campo de relações (certa vez um jovem me surpreendeu ao afirmar que reconhecia uma pequena sombra que caminhava a uma distância espantosa, na crista de um morro, pelo simples modo como o homem caminhava) e onde existem muitos Pedros, Marias, Adãos, Evas e Joaquins, é preciso diferenciá-los de algum modo.

Se o sujeito vem de uma comunidade vizinha, em geral, toma o sobrenome do lugar, Pedro de Poço d’Água ou Maria do Galego. Mas em sua terra mesmo ele é normalmente associado a algum parente marcante, um dos avós, dos esposos, um pai ou uma mãe de personalidade: Eva de Adão ou Adão de Eva.

Mas o Joaquim de que falamos possui diversos atributos e, assim, diversos apelidos notáveis.

Sua mãe, Dona Virgínia, octogenária, sólida como o granito, olhos azuis dulcíssimos, alma pura sertaneja extremamente bicho-do-mato, quase não sai de sua cozinha, mesmo agora que os foliões inundaram a casa com sua “alegriagi”: gritarias, cumprimentos e cantigas exaltadas, fanfarronices de toda sorte, um Deus-nos-acuda.

Está ao pé do fogãozinho, acuada, quando a vejo, soprando o tição para a brasa não minguar, conferindo o pontoFoto: Dona Virgínia recebe os foliões de bater o angu, despindo um dente de alho, defendendo a rotina de uma vida e a timidez implacável atrás dos gestos cotidianos e de um dos netinhos que veio da vizinhança e a quem se achegou para receber como podia o choque da turba amalucada que se apresentava sob o pretexto elevado do louvor à bandeira do santo. É com o a vemos na foto.

Assim se explica porque nosso Joaquim é tido, antes de mais nada, como Juaqui d’ Virgínia. Está viúva há séculos e esse filho que não se casou e ficou em casa é um simplório, uma eterna criança, feito para cuidar.

Hoje, no alto de seus cinquenta e tantos anos de idade, quando chegou, de outras paragens, conduzido pelo barco da Folia, à própria casa, eu que conheço esse Joaqui há pelo menos uma década, percebi como, a sua revelia, desligou-se nele a chave do folião “ponta-firme”, cantador de compromisso, e ligou-se a do moleque que será até a morte, o meninão bobobediente, de hábitos, espaços e usos muito demarcados, que não saberia viver sem a luz, o carinho e os bons tratos dessa mãe do conto de fadas.

Nesse dia de janeiro de 2010 fiz de Joaqui d’ Virgínia a foto abaixo. Pedi que posasse, o que em geral não faço, mas mesmo assim o menino aparece evidente, em seu quarto, na passagem da Folia. Na câmara minúscula e sem porta de madeira, pendurados nos paus roliços do teto baixo, sobre a cama rude onde dorme, estão os tantos apetrechos, bolsas, sacolas e sacos em que deposita a natureza concreta e também a insólita de seus pobres pertences e, segundos atrás, os tesouros de sonho que ali esconde tinham sido a fonte da especulação zombateira das crianças mais endiabradas e dos adolescentes já meio mareados de cachaça, como sói acontecer.

Foto: Juaqui d' Virgínia entre seus pertences

Nesse dia, contudo, ele mesmo está são, não bebeu não, e aguentou calado a onda de sadismo carinhoso a que já está acostumado, mas de modo sereno sério, a demonstrar com atitude que na casa de sua mãe se encontra bem acima, na órbita do Santo Sebastião, ao posar para o “retratu”.

Mas que ninguém se engane sobre a capacidade produtiva de Joaquim. Como qualquer sertanejo que se preze, ele sabe o bastante de cada ofício que pode garantir sua sobrevivência: planta seu quintal de milho, mandioca, mamão, cana e banana, feijão de corda e andu, cria galinhas, com que vez por outra faz um “negucin” com parentes e “cumpadis”, e possui seus bons aparatos, anzóis e redes, esporas, enxadas e foices afiadas, arreios, estribos e botas calejadas.

Mas sua excelência mesmo está no ramo dos remédios. Conhece todo tipo de folhas, raízes, sementes e cascas de árvores que, socadas, diluídas, fervidas, decantadas, aplacam febre, curam dor de cabeça, depuram sangue, estancam caganeira e amenizam ressaca.

Durante os dias quentes da Folia e em face dos exageros diversos a que estão sujeitos mulher ou homem, moça, rapaz e ancião, seus saberes são sempre postos a prova e, quando exerce a medicina, toma ares corretos, passa em detalhe o aplique, a mistura, a dosagem, e costuma ser respeitado.

E se isto não bastasse, enquanto está embarcado na Folia, Joaquim traz sempre consigo uma bolsa rota de lona e, dentro dela, guarda uma garrafa de vidro colorido, seleto, cheia de sua famosa “miçanga”: pinga embebida em raízes e cascas poderosas, a que Foto: Aparatos de trabalho de Joaquim lavradorempresta tonalidades, sabores e sentidos variados e em torno da qual fermenta, sem ostentação, a lenda dos efeitos milagrosos, na certa duvidosos, mas aceitos por todos, num espectro de reações que vai, na multidão, da admiração fingida à crença mais sincera. A famosa bolsa aparece na foto, pendurada na parede do quartinho onde Joaquim guarda seus aparatos de trabalho.

Embora todos saibam a respeito da reserva especial que o bobo da corte traz na bolsinha, grudada ao corpo, a tiracolo, ele mesmo parece estar sempre a acreditar que se trata de um segredo muito bem guardado, pois a cada vez que algum cristão com “quemação”, “tuntura” ou “piriri-brabo” lhe pede socorro ou que um mestre cantador respeitado quer saborear, após as refeições pesadas, um digestivo forte amargo, é sempre com alta cerimônia, cochichos e táticas de dissimulação que Joaquim convida o privilegiado a dirigir-se com ele para os costados da casa ou o fundão dos bananais onde as aplicações podem-se dar em sigilo absoluto.

E é devido a esta alquimia, a esta mística, que Joaquim é conhecido, especialmente durante o “giru da Fulia”, como Juaqui da Miçanga.

Contudo, não é de tal faculdade que Joaquim tira mais orgulho.

Foto: Menino concentrado segura a bandeira e oferece a esmolaAs Folias do Médio Jequitinhonha são cantadas por dois grupos de quatro vozes, em geral masculinas, postos um diante do outro, nas louvações ao Santo Reis ou ao Divino Espírito Santo, longas ladainhas em que o puxador se compromete a sacar um verso para cada membro da família ou agregados que se apresentam para doar sua “esmola” e receber sua benção ao pegar na bandeira, como faz, concentrado, o molequinho da foto.

O grupo do puxador se esforça para acompanhá-lo, em coral, considerando que as estrofes que inventa são um misto de frases convencionais e inspiradas pelo momento, e a turma da “resposta”, em seguida, deve guardá-las na memória e tentar reproduzi-las com o máximo de fidelidade, se não quer fazer feio.

O coral é composto de três alturas de baixo ou barítono, a que chamam de “contraltos” e uma, muito mais alta, dita “requinta”, posta no fim da fila. Esta é uma voz rara entre os homens da comunidade. Além disso, são muitas as horas que, somadas, dia após dia, os foliões mais fiéis são obrigados a passar entoando, de casa em casa, os mantras religiosos, como a louvação ou o terço cantado, além das cantigas de base das danças leigas, como o “nove” e o “caboclo”, que se utilizam do mesmo arranjo de vozes. Assim, os poucos “riquintêros” são exigidos ao máximo, pois quase não encontram quem possa revezá-los na função.

Joaquim não pensa duas vezes, participa de quase todos os “compromissos” e da maior parte das “brincadeiras”, vem correndo assim que é convocado, enquanto outros enrolam, de corpo mole, valorizando, fazendo cena.

E é nesse momento que nosso herói encarna seu terceiro nome e personagem, o chamado Juaqui da Riquinta, amado por todos por sua bobeira mesma,  prontidão mecânica e dedicação desinteressada. Na foto Joaquim está a postos na louvação à bandeira de São Sebastião.

Foto: Os dois grupos de cantadores louvam Sâo Sebastião

Com o passar dos dias e o avanço da canseira e dos efeitos danosos da cachaçada, a voz vai sumindo, nada que uma boa miçanga não conserte ou não se possa remediar, mal e mal, com o choque depurativo de limão capeta com sal.

Não que Juaqui da Riquinta não se orgulhe do dom que possui, tão requisitado, tão indispensável que é ao bom andamento da Folia, conforme vaga do crente ao profano. E é especialmente sensível ao juízo que eu possa fazer de sua atuação, já que ninguém vai querer dar vexame diante do “omi da fiumadêra”, não é verdade?

“Sem a mia riquinta essa fulia num andava não, é ou num é, fala a verdadi?”

“Não Juaqui!!!”, respondo invariavelmente e pela centésima vez, simpático enfático, “sem a sua riquinta u diabu dessa fulia já tinha acabado, tô pra ti dizê!!”, e invariavelmente meu amigão só falta estourar de orgulho besta!

No link <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I> vemos Joaquim arriscar um verso que inventou para o “caboclo”. Não tem a coragem de propor aos homens a formação dos grupos para que o ajudem a puxar a cantiga e a dança no palco de uma das casas por onde passa a Folia, pois os cantadores não o levariam a sério, mas contou para mim que na noite passada tinha preparado na cabeça, em casa, uns versos só seus. Exultei, de pronto, e fui logo sugerindo que fizéssemos uma tomada de vídeo enquanto ele “mandava vê”. Estava orgulhoso, mas um tanto intimidado. Porém, com insistência (confia em mim), topou.

É “cabocu doidu”, diriam os entendidos. Eu achei o invento fantástico, estranho, de personalidade: os homens trabalham para implantar a ferrovia mas é o “tomóvi” que vai passar.

Joaquim deve ter cerca de um metro e noventa de puro osso, pés, pernas e braços enormes e essa geringonça adora divertir toda a gente com suas tiradas: é muito flexível e às vezes se exibe, como na foto, em sessões de contorcionismo, e se a Folia está passando ao largo de algum campo de várzea, junta gente para assistir o lance do pernalonga alcançar com o bico do botinão a trave do alto do gol.

Sinto por esse Joaqui de tantos nomes, de tantas almas, esse amor dolorido e purificador que certos palhaços líricos ou certas crianças ingênuas, sedentas e atabalhoadas às vezes acordam na gente. E esse sentimento em mim é tão carregado de espanto, gratidão e respeito que não consigo jamais embarcar no jogo, no entanto, admito, legítimo, dos tantos que se divertem em provocar meu amigo, achincalhá-lo, zombar de suas tolices, às vezes até o ponto em que ele explode de raiva e chora, conforme o prazer que o espírito de rebanho costuma retirar, mais em uns, menos em outros, dessas pequenas maldades.

Alguns dos mais sábios sertanejos que acompanham o cortejo e exalam uma dignidade na simplicidade comovente pra caramba, estão sempre aconselhando Joaquim a “num dá pano pra manga”, principalmente quando fica muito bêbado e irritável. Buscam protegê-lo, mas sempre acabam admitindo que algo no pobre diabo gosta de levar as provocações até o limite, como se de algum modo ele se deixasse levar por uma espécie de fatalidade ao sacrifício, ao sofrimento, que é real, em prol da felicidade geral.

Procuro a cada ano levar para Joaquim algum regalo, um canivete, um chaveiro, um boné e, claro, a cópia impressa da melhor foto, sempre diversa, que tirei na Folia anterior.

Em 2011 fiz dele o registro digno de nota que figura abaixo, e estava certo de que ele ia apreciá-lo além da conta, pois aparecia com a barba traçada, uma camisa nova, de estampa ousada, muito bem passada, e trazia, sobre o peito meio à mostra, um colar de sementes e gordas bolotas de madeira que alguns dos rapazes lhe emprestou, para que entrasse “na moda”, na certa pensando em preparar para o galã, por conta do arranjo, durante a festa, alguma de suas cruéis patacadas.

Foto: Juaqui da Miçanga bem trajado pra Fulia

O impacto da oferta, como previ, foi grande, pois Joaquim emudeceu, não agradeceu, não porque não seja educado, ao contrário, sempre se mostra muito grato, mas porque, acredito, desta vez, ficou meio sem palavras, talvez tenha-se emocionado e, para não demonstrar, deu no pé, escapou de si, de nós.

Porém, qual não foi minha surpresa, dias depois, quando a Folia chegava ao fim, e numa das casas Joaquim me sinalizou de longe, indicando os fundos do quintal e convocando para um daqueles conciliábulos secretos em que manifesta a necessidade de comunicar ou oferecer algo de importância cabal.

Chegando ao esconderijo, ele sacou do bolso da camisa a tal foto, dizendo: “óia, essi anu nóis vai fazê assi, ess’retratu aqui, c’ocê feiz di mi, ocê vai levá de volta pra casa, eu vô ti dá el’ di presenti pr’ocê, tá bão, combinadu?”

Era uma dádiva inestimável, um enorme sacrifício da parte desse “cumpanheru bão”, um presente maluco muito especial, algo muito tocante, se é que o leitor nos entende.

E assim é a vida humana, se provocamos, ela nos retribui com inimagináveis, gratíssimas, intensas surpresas.

Foto: Juaqui Canta
Juaqui da Riquinta canta um verso que inventou para o “caboclo”: <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o último post, “folie” e estética, acesse:<https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

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5 respostas em “Crônicas do Vale do Jequitinhonha: Os Juaquis da Fulia

  1. Oi Reynaldo, venho acompanhando sua errância e com os olhos marejados e o coração em “fulia” agradecê-lo pela sensibilidade na história de “Juaqui”!

    Um abraço,
    Solange Costa

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