Crônicas do Jequitinhonha: Lira Marques

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraQuando o pesquisador de campo em antropologia está amparado, como eu estou, de conhecimentos limitados em matéria de psicologia e psiquiatria e mesmo que, somados os encontros de mais de uma década que tive com os artistas e artesãos de que tenho tratado nestas páginas, eu tenha tido um acesso, não superficial, mas ainda restrito, aos recantos mais íntimos da vida familiar e pessoal dessa gente, não pode arriscar, por risco de imprecisão, um diagnóstico a respeito de como a dança da doença e da saúde age sobre o corpo e a alma de cada um dos sujeitos que visita, em especial os assim denominados “loucos”.

Foto: Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Diante disso, minha maior preocupação na palestra de fins de setembro para que fui convidado, no CAPS Itapeva, basicamente, foi demonstrar o interesse, para a psicologia e para a psiquiatra modernas, da análise antropológica.

Que utilidade haveria para essas ciências da alma (dirigi o questionamento à platéia) estar pensando as importantes diferenças ambientais, laborais e sócio-culturais existentes entre o contexto da civilização artesanal indígena e campesina sertaneja e o contexto da civilização mecânica, urbana e eletrodoméstica em que a maioria, acredito, dos leitores desse texto está mergulhada? O estudo dessas diferenças poderia ser um estímulo para tentarmos entender juntos o fenômeno da inserção social e produtiva do “louco” com foco no aspecto da saúde?

Claro, não estamos operando aqui com a apologia do estilo de vida de índios e camponeses, coletores, caçadores, mineradores primários, artesãos e lavradores, com tudo o que ele implica em termos de rudeza, enfrentamento pesado dos elementos e limitações impostas pela ausência de certos refinamentos que dependem da educação formal, embora procure demonstrar, com os exemplos que estou trazendo, as sutilezas particulares que esse estilo possui.

Quem, por exemplo, uma vez as tendo adquirido, poderia se privar das luzes da indústria cinematográfica ou do instrumento do piano, de lenta evolução tecnológica e, tantas vezes, de produção artística esmerada? E porque, para apreciar tais finesses, temos que abrir mão da transcendência simbólica, da conexão cósmica, do potencial estético, da compreensão ativa da matéria e da fortaleza física em que está implicado o trabalho artesanal de base?

EFoto: Coleção de tinturas de terra mais, estamos observando, nesta sequência de postagens que visam aprofundar os temas da palestra, a seguinte evidência: o acesso universal, no ambiente comunitário sertanejo, a recursos primários de técnica e linguagem artísticas pode levar certos sujeitos a níveis surpreendentemente elevados de expressão pessoal e trabalho criativo, a provar que o solo é, via de regra, fértil o bastante, sendo necessário apenas, claro, primeiro, cultivá-lo e, depois, minimamente, prover a sede e a fome com produção continuada e um máximo possível de retorno econômico.

Nada mais ilustrativo nesse sentido do que o caso de Lira Marques.

Assim como Noemisa, de que falei na semana passada, Lira é herdeira da velha tradição, de origem camponesa européia, ameríndia e africana, das paneleiras do sertão brasileiro, um misto que resultou, de todo modo, numa técnica rústica bem padronizada, disseminada em vasto território, com idênticos métodos, implementos, instrumentos e tipos de utilitários produzidos.

No link do fim do texto podemos ter uma idéia de como uma dessas artesãs de tradição centenária trabalha, assentada no chão de terra batida de sua casa de pau-a-pique.

Porém, diferentemente de Noemisa, de Ulisses e dos Juaquis da Fulia, de quem tratei nas últimas postagens, Lira foi criada, predominantemente, no ambiente urbanizado de Araçuaí.

Certo, esta como as demais cidades que conheço nesses sertões, como a boa parte das pessoas que vivem nelas, ainda estão muito ancoradas em ambiente rural, embora se vejam, a cada ano, mais desarraigadas, em virtude dos ventos da modernidade que avançam, inexoravelmente e sobretudo em seus aspectos mais deletérios, sobre um meio especialmente vulnerável à urbanização desordenada e à cultura individualista, consumista e massificadora que constitui a espinha dorsal do novo sistema.

Em tempos assim tumultuosos e desencantados, figuras da estatura de Lira Marques são verdadeiros botes salva-vidas para os que estão a seu redor e ao nível da comunidade.

Em minha última visita, três anos atrás, estava especialmente empenhada em pôr para funcionar um museu de artefatos antigos da cultura do vale e de obras de artistas regionais diversos.

Foto: Máscara de inspiração africanaIncontáveis são os cursos que já deu, espontâneos ou remunerados, de cerâmica e pintura, para os “seus” e para os “de fora”, conforme a arte econômica do sertanejo pobre de utilizar dos recursos baratos que estão à mão, para lhes agregar valor, com habilidade, se beneficiando do tino comercial desenvolvido no ambiente urbano.

Além disso, Lira, vez por outra, veste a personagem de roupas de chita e trancinhas juvenis com que atua no coral Trovadores do Vale, de que foi uma das fundadoras, faz quase quarenta anos.

Ela e Frei Chico, padre holandês já pra lá de brasileiro, mantêm, há décadas, rica e produtiva amizade, e realizaram uma vasta pesquisa da cultura do Jequitinhonha, sobretudo de seus cantos e danças populares. Adaptando para o palco essas tradições de roça e de rua, os dois vão construindo o repertório do grupo coral, com o que as mantêm vivas do modo possível.

Nas viagens que fazem juntos, estão sempre atentos às cores das terras de cada local por onde passam: grotas esbarrancadas, margens de rio, recortes de máquina à borda de rodovias em construção. Recolhem amostras, levam para casa, a mestra de ofício faz seus testes e, se aprovadas, as dilui em água, dentro de garrafas pet de dois litros que ornamentam, disciplinadas, muretas e estantes da oficina caseira onde trabalha, ao invés de boiar por rios e mares. Foto: Seres de sonhoQuando precisa das tinturas, mistura um pouco à cola Tenaz, fixador barato, e aplica sobre pedronas de quartzo que, por milênios, foram arredondadas e polidas pelas torrentes do Araçuaí. Também as utiliza para desenhar sobre papel Kraft e uma variedade de suportes de baixo custo, compondo as imagens de seres de sonho que navegam nos vendavais de Saturno como as reproduzidas na foto ao lado.

Se tomássemos pelo que vemos na casa de Lira, não acreditaríamos que se trata de pessoa tão engajada em atividades de relação construtiva.

A chegada de visitas, clientes, curiosos e pesquisadores é sempre esperada onde se encontre o artesão de fama, mas o clima da casa de Lira, no mais das vezes, é taciturno, janelas e cortinas semicerradas. Alguém bate palmas, uma irmã, um sobrinho demora a dar as caras na varanda e chega de mansinho, com poucas palavras e sorriso nenhum nos lábios, a demonstrar que ali mora gente cuidadosa e desconfiada.

Nas inúmeras moradias que visito em todo o Jequitinhonha, em geral, quanto mais sou conhecido, mais calorosamente costumo ser recebido, entre esses mineiros de efusão quase baiana. Mas é sempre difícil para mim chegar à porta de Lira Marques.

Suspeito que faça uso de medicamentos psiquiátricos, não sei dizer quais deles e, caso os utilize de fato, não tenho como medir seus efeitos, piores ou melhores.

Lira está hoje na casa dos sessenta, não é muito idosa. Mas quase nunca me reconhece à primeira vista, não importa quantas vezes retorne. De todo modo, sempre, me convida e me conduz até a oficina, nos fundos. Atravessamos toda a casa em silêncio, nos instalamos, longe do centro social, que pertence à família, e só então podemos ter nossa conversa, em particular. Porém, nem sempre permite que ative minha câmera de vídeo para filmá-la enquanto fala, embora goste que eu fotografe as peças expostas e aFoto: Pintura de tons de terra sobre pedra do Araçuaís que foram registradas e dispostas, creio, desde os anos 1970, num álbum que possui. Passamos então à entrega do presente de fotos que fiz na visita anterior, jogo na mesa outras referências de praxe, é como um ritual, devagar ela vai se lembrando de quem se trata e, daí em diante, vai-se fazendo, aos poucos, mais falante e acolhedora.

Muito se discute a respeito das diferenças acaso existentes entre o artista e o artesão. Eu particularmente não as considero diferenças de grau, mas de oportunidade. Como o artesão não pode dar-se o luxo de vender suas peças nos preços elevados que o artista “consagrado” obtém nos mais ricos mercados, vê-se obrigado a reproduzir os temas de sua criação que, nos sucessivos testes de aceitação junto ao comprador, acabam se fixando como os produtos mais rentáveis. É, no mais das vezes, uma questão de sobrevivência, não de competência em matéria de criatividade. Mas é também uma armadilha, na medida em que os modelos “de sucesso” precisam ser tão repetidos que podem agir como entrave a novas experimentações, as quais constituem sempre um risco em termos comerciais.

É o que vejo acontecer com diversos “cronistas do barro” que conheço, como Noemisa de Caraí, João Alves de Taiobeiras, Leonardo da cidade de Jequitinhonha ou Paulo, do distrito de Guaranizinho, que devem se prender à reprodução de seus temas mais famosos se querem se manter e exercitam com parcimônia a inventividade.

Lira, contudo, é um caso especial, considerando que partilha, em certa medida, de fontes de alta cultura, de práticas inovadoras e do acesso a um mercado talvez um pouco mais seleto de objetos de arte.

Foto: eça de cerâmica de apelo comercialAssim, para fazer a renda segura, do dia a dia, ela possui seu rol de peças comerciais, de valor atrativo, como as pinturas de terra sobre o kraft, as máscaras de parentesco africano ou as figuras riscadas em placas de cerâmica, magníficas, como as que estão nas fotos que selecionei.

O diferencial de Lira é que ela faz questão de reservar um certo tempo à criação gratuita e pode ser equiparada a qualquer grande artista assim considerado.

Contou-me que possui também algumas peças autorais que reproduz, mas que as refaz apenas em raras oportunidades, e nunca da mesma forma, menos por necessidade financeira e mais por ânsia de expressão de momentos únicos ou de sentimentos pontuais.

Levei à palestra e passei pelas mãos dos presentes um exemplo deste tipo de obra artístico-artesanal, a que a Lira Marques deu o nome de “Me Ajude a Levantar”.

O título se justifica, ela conta, diante do seguinte fato que lhe ocorreu.

Um dia bateu a sua porta uma nativa da região, demonstrando muito interesse em conhecer sua arte.

Certos sertanejos não possuem o menor polimento e podem ser bastante grosseiros e invasivos.

Na certa, esta pessoa estava esperando encontrar algo semelhante à boneca caprichada que aparece na foto abaixo, da grande mestra Isabel de Santana do Araçuaí, tinta de sutis tons terrosos, que é a marca do dito “artesanato do vale”, tornou-se a menina dos olhos de atravessadores, lojistas e decoradores à caça do lucro fácil e donos de pousada no encalço do bibelô padrão exótico ou constitui um prato cheio para o jornalista genérico, rasteiro e mistificador.

Foto: Boneca de Dona Isabel de Santana do Araçuaí

Lira Marques, todavia, possuía algo bem diverso a oferecer à tal mulher: criaturas de planetas fluidos planando em cristais roliços de riacho, grafismos de sentidos íntimos intraduzíveis, impressos em papel grosseiro, cenas de aborto, pesadelo e desastre, fome, morte, seca e enchente moduladas em barro com muito mais zelo pela simples força da expressão do que pelo mero atrativo ornamental.

Uma dessas peças estão representadas, abaixo, em fotos de fotos que fiz do album de Lira.

Foto: AbortoAo se deparar, porém, com esse rol de estranhezas e má-formações, a visita disparou: “Maiz intão é ess’ cu suju c’a sinhora tein pra mi mostrá?”

Cu sujo, uma expressão local muito rude e ofensiva que designa algo mal acabado ou feito de forma porca, relapsa.

A ofensa foi tão súbita e despropositada e pareceu tão brutal ao coração de Lira que a fez mergulhar num processo depressivo de que levou muito tempo para se recuperar. Ao final, certo dia, uma idéia a iluminou. Não se fez de rogada, tratou de pô-la em execução: buscou o barro na mina, empedrado, trouxe pra casa onde o bateu, forte, no pilão, peneirou, temperou o pó com água, compôs o bolo, daí modelou, poliu e queimou seu primeiro “Me Ajude a Levantar”.

Foto: Um dos primeiros Me Ajude a LevantarO tema retrata, a princípio, uma figura humana deitada de barriga para cima, com os braços junto ao tronco, no momento em que começa a subir a própria cabeça antes de poder aprumar o corpo, ou seja, no começo de seu soerguimento. Lira conta que foi assim, no ato desta criação, que teria começado a superar a depressão.

Alega também que, quando sente a necessidade, retorna ao modelo, mas em tamanho e disposição diversas. Nas fotos, um dos mais antigos, em preto e branco, está posto ao lado de outro, mais recente, que Lira me deu.

Foto: Me Ajude a Levantar que ganhei de presenteSim porque, na terceira ou quarta visita a sua casa, encontrei dentro de um pote uma estatueta pequena que, à primeira vista, me chamou fortemente a atenção. Quando a retirei dentre outras peças, fiquei tão sinceramente admirado, pelo que parece, que Lira me presenteou com a obra, um de seus poucos e assombrosos “Me Ajude a Levantar”.

O ato só fez aumentar meu espanto, já que, sentindo os hábitos reservados daquela artista fabulosa, não podia imaginar que pudesse tão repentinamente responder a minha surpresa e admiração, num movimento típico de quem se deixa levar por forças psíquicas mais essenciais e vitalizantes do que as que governam os interesses materiais de superfície.

Coiz’ di lôcu.

Foto: Lira1
Para acessar o vídeo, clique no endereço: <http://youtu.be/uHJnGF8xRS0>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

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