Crônicas do Jequitinhonha: Marcinho

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraTenho escrito, nesta série de textos, as palavras louco ou loucura por diversas vezes entre aspas, o que é um dispositivo um tanto precário, pois as aspas deixam tudo vago, a se explicar. Assim, vou tentar falar do porque do artifício.

Cada um de nós sabe mais ou menos onde estão suas próprias fronteiras entre “sanidade” e “loucura” e apesar de todos os avanços da psicologia, da psiquiatria e da medicina, o diagnóstico de cada paciente, a partir de certos padrões definidos cientificamente, pode ser difícil para os profissionais destas áreas, maioria entre os presentes à palestra do CAPS e, creio, entre os que estão acompanhando este ciclo de publicações que desenvolve os temas ali propostos.Não sou um “profissional da saúde”, lá vão de novo as aspas, mas me parece claro o fato de que alguns casos clínicos são muito complicados. Apenas quem, no Brasil, mergulha dia a dia nesse universo de problemas e potenciais da alma humana está apto a dizer como a atividade entre nós está longe de ser glamurosa: baixa remuneração, estrutura deficitária, avaliações complicadas, tratamentos longos e penosos num ambiente de convivência potencialmente explosivo, em suma, um trabalho duro e arriscado.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Relendo os textos anteriormente publicados, temi que o estilo da crônica pudesse estar pintando um quadro muito romanceado da realidade do louco-artista no contexto das comunidades camponesas do Jequitinhonha.

Marcinho esculpe em 2011.

Marcinho esculpe em 2011.

O sertão, a rotina roceira, de trabalho manual pesado, de sol a sol, de escassos recursos monetários, de dinheiro contado para tudo, com níveis de rusticidade que podem roçar a grosseria, de gente acostumada à dureza e que se tornou, em alguma medida, irascível, impenetrável, tudo isto pode tornar a vida camponesa bastante árdua, quem não sente na pele pode muito bem imaginar.E a vida humana jamais será, em lugar nenhum do tempo e do espaço, uma vida fácil, por mais que o ambiente falso abundante da modernidade possa às vezes iludir certas pessoas a esse respeito.

O caso de Marcinho talvez traga uma luz sobre essa sobrevivência rude e laborativa e o quanto um quadro difícil pode manter-se relativamente estabilizado pelo exercício do inteiro processo artesanal, com seus temperos de vigor físico, referencial simbólico e potência estética.Ao longo de dez anos, devo ter visitado Marcinho pelo menos sete vezes, e em geral fui bem recebido.O que escuto nas casas de outros artesãos da cidade, que o conhecem desde menino, é, contudo, a lenda de que Marcinho passa meses a fio trabalhando, concentrado, praticamente sustentando sozinho uma família numerosa e problemática, e de repente afunda numa espiral decadente que pode durar semanas.Na foto, vemos um dos irmãos de Marcinho. O quanto sofre? Pergunto-me, olhando para ele. O quanto contribuiu e contribui para o sofrimento de Marcinho? Ajuda um pouco aqui, com suas limitações? Exige muito acolá? Às vezes surge à soleira da porta e estaca, duro como um Frankenstein. E fica ali, nos observando, enquanto conversamos, com esse seu carão de silêncio de chumbo, pesado de sombras.Irmão de Marcinho em 2005Alguns relatos, que precisaria confirmar estando presente à cena, contam que muitos consideram Marcinho um feiticeiro, possuído por maus espíritos ou coisa que o valha, tamanha é a capacidade que teria, durante os surtos passageiros, de tomar garrafas inteiras de cachaça pelo gargalo e depois manter-se ainda em pé e barbarizando.

É complicado fiar-se em boatos e peço desculpas de antemão por estar repassando eventuais exageros, comuns nesses casos, mas se o fato não é verdadeiro em relação a esse artista em particular, temos aí um relato verossímil, na medida em que um número grande de pessoas vive sua vida balançando assim, perigosamente, entre ciclos de mergulhos pavorosos e, em seguida, de fertilidade, resgate produtivo.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Eu, por mim, ao longo dos anos, sempre encontrei o artista relativamente calmo, bem falante, e labutando forte, pois não se combate o jacarandá com pulso fraco e mãos macias.Sei que faz uso de medicamentos psiquiátricos porque ele mesmo conta que precisa de seus “remédios de controle”.No começo o visitava na casinha que alugou para si e para a família em ponto central de Araçuaí, ao lado do cemitério. Ali ele se contentava com um “puxadinho” sujo e abafado para trabalhar e, aos poucos, foi preenchendo as paredes caiadas de branco do quarto com traços de lápis grafite, rabiscos de detalhes, recortes sobrepostos, planos vagos, incompletos, idéias que estaria fecundando e instala fluidamente no muro, espécie de caderno mais a mão, antes de transpor tudo para pinturas em tela ou para esculturas em argila e madeira, sonho às vezes concretizado, no mais das vezes não, traços mais ou menos acabados, fantasmas, em abundância, ensaios de estranhezas.

Alguns desses esboços, por algum motivo, ganham mais força em seu imaginário e ele se põe a materializá-los, também sem a certeza de que vai acabá-los, embora possua técnica refinada, sobretudo na escultura em madeira, em que está sempre a experimentar, com fúria, erros e acertos, colagens, apliques, reformas, recolagens, pronto a mudar de ideia, mesmo na reta final.

Esboços de obras na parede em 2005Marcinho e um ajudante especialmente sagaz que encontrou e com quem andava trabalhando, em janeiro de 2011, estavam havia meses empenhados na elaboração de uma espécie de forca enorme, toda entalhada de relevos barrocos, um grande investimento de tempo e um grande risco comercial, pois quanto maior, mais desengonçada e maluca uma peça, mais dificuldade terá de ser vendida nos altos preços que Marcinho precisa impor, considerando sua arte lenta e refinada

E não seria possível embarcar a forca em avião a partir de Araçuaí, não caberia em carro pequeno, não preencheria todo o frete de um caminhão. O lugar é distante de grandes centros, o comprador ideal pode levar meses ou anos para passar por aqui interessado numa peça como essa.

MDetalhe da forca de 2011as Marcinho queria terminá-la, era uma necessidade maior, interior. Ou o era, pelo menos, no momento daquela visita. Nesse dia, diziam que estavam pensando em produzir, o mais rápido possível, uma pequena fornada de cerâmica, para cumprir com o serviço miúdo e mais rentável que lhes garante o pão de cada dia.

Um ano mais tarde, pergunto ao artista qual foi afinal o destino da grande obra, relacionada à mitologia que o católico mineiro tece em torno da figura do mártir Tiradentes. Disse-me que, depois de minha passagem, precisou desmembrá-la, olha a coincidência, como fizeram com o corpo do líder inconfidente, e vender os pedaços mais em conta, artifício a que se obriga com freqüência, quando o bolso vai ficando vazio e faz-se necessário abrir mão da integridade da arte em favor da mais imediata subsistência.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Em janeiro de 2012, Marcinho estava atacando na peça que está na foto ao lado, e tinha chegado ao ponto em que o esboço deveria assumir algum aspecto de acabado. Era um problema, pois na base de diversos tipos de madeira, pedaços de porta, caixotes, tocos secos, ele estava realizando uma série de testes, como se pode ver, recheios que envolviam telas de arame de refugo de construção cimentadas de gesso, um fundente barato se fizer massa com serragem e lascas de madeira que resultam mesmo da atividade. Quem observa a peça assim nas entranhas vai ter dificuldade em ver mas a mente de Marcinho a enxerga prontinha e está trabalhando sobre todas as etapas futuras, até quando sua idéia inicial vai estar completa, perfeitamente concretizada, entalhada em detalhes, lixada, pintada, envernizada e tal, do caos às harmonias celestes.Não é comum encontrar na estatuária rústica em argila do Jequitinhonha o tema religioso, ao contrário de certos locais do Nordeste do país, onde ele predomina, mas Marcinho toma muito emprestado, conforme planos de imaginação muito próprios e inusitados, do simbolismo católico.O mercado impõe aqueles modelos que tiveram sucesso, no início da carreira do artista, embora não possa exigir o modo específico que ele produz cada obra e por isso, por vários anos, encontrei Marcinho entalhando um Arcanjo Gabriel diferente, sempre em madeira dura, bela, de lei. Uma estátua deste tamanho e quilate, com tantos níveis de detalhe, nunca, de fato, repetida, exige meses de dedicação e não pode ser vendida por menos de cinco mil reais. Em geral é feita por encomenda, o que não é garantia de que seja em breve adquirida por alguém pois não é raro acontecer de quem fez o pedido nunca mais dar as caras nessas longitudes.

Outra prova bastante da influência religiosa e da habilidade do mestre está na cópia barroco-sertaneja que estava fazendo em 2009 da Santa Ceia de Da Vinci, como vemos na foto em destaque.

A Santa Ceia em 2009

A Santa Ceia em 2009

Um mendigo se descompôs sobre um prato (servo servido como comida?) e ficou ali, todo retorcido, estendendo a mão e olhando sofrido, pedinte, desde baixo, como cão. Poderia ter feito parte do conjunto de um presépio e ter sido testemunha do nascimento do Deus Menino, mas seu criador se resignou a vendê-lo para mim cru de cores, em separado, assim como está, sozinho e ressignificado, coitado!

São Francisco Buda barroco de 2002

São Francisco Buda barroco de 2002

A marca de Aleijadinho, a força do ideário cristão, alguns traços orientais e eis que surge, em cerâmica, o São Francisco Buda deitado na telha que comprei, em 2002, por oitenta reais e podemos admirar na foto.

Como seus esboços a lápis na parede branca, como seus arranjos improvisados no coração da madeira, o sistema comercial de Marcinho, como se vê, está igualmente semi imerso no caos. De todo modo, ao final, ele segue sobrevivendo. Aprendeu a escultura de Dona Zefa, célebre e generosa artesã, que conhece desde a infância, e dos tantos outros escultores locais. Mais tarde, esteve em Belo Horizonte por uns tempos e na capital aprendeu, em atelier profissional, a reproduzir em madeira o santuário barroco, em troca de trabalhar para os proprietários. Afirma que seu ofício acabou tão perfeito que passava por falsificação. Nesse período, diz ter sido muito explorado em sua arte, o que o levou a voltar para Araçuaí onde os ventos mesmo de sua alma o conduziram a redimensionar, a seu bel prazer, o universo plástico e a técnica fina que foi levado a absorver em BH, senão por satisfação, por necessidade.

Arcanjo quase pronto.

Arcanjo quase pronto.

Na certa, primeiro, de Lira Marques, depois, de outros, Marcinho assimilou também a técnica rústica e a arte da cerâmica dita “decorativa”. Embora poucos artistas da região se igualem a ele no poder de modelagem (talvez João Alves de Taiobeiras e Leonardo de Jequitinhonha), Marcinho não se preocupa em esmerar o acabamento com as tinturas de terra e polimentos que tanto prezam às bonequeiras do vale. Também não parece ter estômago para ficar repetindo indefinidamente seus sucessos de venda, como tendem outros cronistas do barro. Tudo indica que está mais interessado em produzir uma peça expressiva, de tamanho pequeno a médio, dadas as limitações de transporte (diverso do padrão grande e pesado das esculturas de madeira), e partir logo para a seguinte, considerando que, para vender barato, precisa produzir quantidade embora tentando, pois não consegue ser repetitivo e previsível, um mínimo de perda de autoria, no que talvez tenha que descuidar um pouco do acabamento.Eis o que é Marcinho, um artista completo, demasiadamente humano, lutando de forma brava e hábil, entre as tempestades da alma e as corrupções do mercado.

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Para ler o quinto post, Lira Marques, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/12/13/cronicas-do-jequitinhonha-lira-marques-2/>

Agregando notícias #7

Vem aí o DSM-5

apaO Manual de Diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria chega a sua quinta versão depois de anos de debates; e promete causar mais debates por muito tempo ainda. Previsto para ser lançado em maio, o DSM-5 (com algarismo arábico mesmo, diferentemente das versões I, II, III e IV), vem sendo desenvolvido desde 1999. Segundo a revista Mente Cérebro, “Ao todo, 13 grupos de trabalho ocupam-se de diversas categorias de doenças psíquicas, como ansiedades, psicoses e dependência de drogas. Os 162 membros dessa equipe são apoiados por mais de 300 outros especialistas do mundo todo.” No entanto pondera que “56%, dos membros do grupo de trabalho receberam dinheiro da indústria farmacêutica” que, só no Brasil, movimenta US$ 28 bilhões por ano.

O DSM tem grande relevância para o entendimento dos transtornos mentais, que para nós é importante, sobretudo, por influenciar a CID (International statistical classification of diseases), organizado pela Organização Mundial de Saúde e válido no Brasil.

Dentre as principais polêmicas envolvendo o DSM-5, destacam se as discussões sobre os novos critérios nosológicos. Segundo os críticos, os novos critérios reforçam a tendência medicalizante da sociedade contemporânea, o que supostamente aumentaria o número de pacientes psiquiátricos.

Novo website de vagas de trabalho para pessoas com deficiências

Lançado recentemente, o site “Vagas Inclusivas” foi criado por uma consultoria especializada em inclusão social de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, “o site entra em funcionamento contando com um banco de currículos de 25 mil profissionais com diversos tipos de deficiência (…), mais de 50% destes profissionais possuem ensino superior”, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

Para acessar o site Vagas Inclusivas, clique em: <www.vagasinclusivas.com.br/>

Para ler a notícia da Folha de S. Paulo acesse: <http://classificados.folha.uol.com.br/empregos/1195796-site-ajuda-pessoas-com-deficiencia-a-encontrar-vaga-de-trabalho.shtml>

Pornô para cegos

O site Porn for the blind aprenseta descrições em áudio de filmes de sexo. Criado pela há cinco anos por uma ONG com o mesmo nome, a página traz uma lista de filmes narrados com grande riqueza de detalhes. A ideia é alimentar a imaginação do ouvinte.

O acesso é gratuito através do endereço: <www.pornfortheblind.org>

Fonte: Revista Mente Cérebro, Ano XIX, nº 240. <www.mentecerebro.com.br>

Bazares da AACD

76285_300A AACD está promovendo dois bazares permanentes para angariar fundos para a associação, um no Ibirapuera e outro no Lar Escola Samburá. Ano passado a AACD realizou mais de 661 mil atendimentos para pessoas com deficiências físicas.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 27 jan. 2013, Caderno 2.

Funcionamento do Bazar: de segunda à quinta, das 09h às 16h
Local: Centro de Reabilitação AACD – Ibirapuera
Endereço: Rua Prof. Ascendino Reis, 724 – Vila Clementino

Google Maps com lugares acessíveis

O blog “Mão na Roda” disponibiliza um excelente trabalho de mapeamento de lugares acessíveis na cidade do Rio de Janeiro. Para ter acesso ao mapa, clique em: <http://maonarodablog.com.br/mapa-de-locais-acessiveis/>