O lado bom da vida

Silver-Linings-Playbook-27Ago2012_06Diversão, sensibilidade e um monte de personagens complexos fazem de “O lado bom da vida” (Silver Linings Playbook) uma boa opção no cinema. O filme, que está em cartaz, é inteligente e foge dos clichês típicos de Hollywood. A temática dos transtornos mentais permeia a narrativa e é característica marcante na personalidade de Pat Solatano, de seu pai, representado por Robert DeNiro e de Tiffany, entre outros.

A beleza de “O lado bom da vida” está nas relações que são construídas ou recuperadas ao longo do filme, apesar das dificuldades de cada um. A trama articula um bipolar; um viciado em jogos, chamada Ludopatia, com uma espécie de Transtorno Obsessivo Compulsivo para questões supersticiosas; um neurótico a beira de um ataque de nervos, endividado, sufocado, mas que faz questão de manter as aparências; um irmão perverso; um psiquiatra confuso; vizinhos intrometidos e uma ninfomaníaca insistente. Diversão garantida.

Um filme de sutilezas

Silver-Linings-Playbook-06Nov2012_05O filme é concreto e expõe questões complexas de maneira simples, através de cenas que podem passar como corriqueiras ou, até mesmo, triviais. O preconceito e o estigma em relação à loucura, por exemplo, são questões tensas e emocionalmente confusas para Pat e Tiffany. Se por um lado, eles se identificam quando o assunto são as drogas psiquiátricas, por outro lado não sustentam a comparação do grau de suas loucuras. Refletem para si mesmos um tipo de olhar piedoso para com o outro, o mais louquinho. Um olhar que não ajuda em nada, nem para eles, nem para nós, que trabalhamos com inclusão. Como vemos no filme, o resultado deste tipo de atitude não pode ser bom.

Aos olhos do louco o normal era insano, é o que se pode dizer do diálogo de Pat com seu melhor amigo (aparentemente uma pessoa ajustada). Neurótico, como a maioria de nós, queixava-se com Pat da “pressão”, da família, do trabalho, das sucessivas reformas na casa recém-reformada, daquilo tudo da vida cotidiana que o fazia sentir sufocar. Eis que o louco mais estigmatizado do filme lhe responde: “Isso não é bom para você”, o que, precisamos concordar, deve ter sido uma das frases mais sensatas de todo o filme!

O vício do jogo, a vergonha dos remédios, um surto violento, a lei, a mania, o louco que foge do hospício, os medicamentos e um profundo conhecimento dos motivos que as pessoas têm para não querer tomá-los. Todos os elementos da narrativa convergem para o ápice do filme, um momento de superação e engajamento, quando todos os personagens se reúnem para torcer por uma nota mediana. A nota cinco conquistada (como era de se esperar de um filme) e comemorada a ponto de causar estranhamento na plateia e no apresentador do concurso de dança, (com voz de espanto, “Tudo isso O lado bom da vidapor um 5?”) representa muito mais do que um happy end típico de hollywood. Representa, antes de tudo, a conquista de toda a autonomia possível e o reconhecimento das próprias limitações e de novas possibilidades.

É interessante observar como a vida segue e prospera, a despeito de todas as dificuldades. Algumas pessoas podem até esperar que, em algum momento do filme, coisas melhorem e as pessoas voltem ao estado “normal” de saúde mental. Mas, sobre essas questões, não é tão simples, nem na vida real, nem na arte.

Assita o trailer em: <http://www.youtube.com/watch?v=FM3S4GBlwYA>

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Um filme divertido sobre as diferenças

Imagem do filme Amigos Improváveis“Intouchables” (“Intocáveis”, em português) é uma produção francesa de 2011 que conta a história de Philippe (François Cluzet), um milionário que, em razão de um acidente de parapente, fica tetraplégico e passa a necessitar de cuidados exclusivos. Busca, então, um enfermeiro para acompanhá-lo, mas ninguém consegue durar mais do que duas semanas no emprego. Philippe entrevista os mais qualificados profissionais do mercado, mas escolhe Driss (Omar Sy, vencedor do César 2011 como melhor ator por este papel), um ex-presidiário sem qualificação que só entrara no processo seletivo a fim de provar ao governo que está em busca de recolocação profissional, para manter a sua condicional. Recorde de bilheteria na França em 2011, com cerca de 30 milhões de espectadores, o filme foi muito premiado e tem uma excelente trilha sonora.

“Amigos Improváveis” não é interessante pelas questões da deficiência, mas pelas questões humanas. Não é um filme politicamente correto e nem tampouco incorreto; é um filme delicado e divertido… muito divertido! Trata do quase sempre bem-sucedido encontro de pessoas diferentes e, sobretudo, fala do tipo de amizade que pode surgir destes encontros.

Imagem do filme IntouchablesBaseado em uma história real, recomendamos ao nosso prezado leitor que não deixe de assistir “Amigos Improváveis”, não porque conta sobre a vida de uma pessoa que não consegue mover ou sentir nada abaixo do pescoço, ou pela questão das minorias, mas pelas boas risadas que o filme propicia, pelas lições de vida que podemos ter não apenas quando nos superamos, mas, sobretudo, quando nos abrimos a novas, e improváveis, amizades.

Trailer com legenda em português (1min 50seg): <http://www.youtube.com/watch?v=ljbDlsSTqIU>
Trailer oficial com legenda em inglês (2min 17seg): <http://www.youtube.com/watch?v=hsPHXVnt27g>

Ficha técnica:
Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyrril Mendy, Christian Ameri
Produção: Nicolas Duval-Adassovsky, Laurent Zeitoun, Yann Zenou
Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano
Fotografia: Mathieu Vadepied
Trilha Sonora: Ludovico Einaudi
Duração: 112 min.

A face trágica da psiquiatria

O filme “Um estranho no ninho” fala, com muita sensibilidade, sobre a grande tragédia dos manicômios. O caráter trágico desta história pode ser percebido a partir da tensão que a chegada da personagem principal cria no ambiente em que a trama se desenrola: uma clínica psiquiátrica. De fato, a tragédia não se restringe ao triste fim de Randall Patrick McMurphy, mas está sempre presente no filme e se traduz no embate que trava o sujeito que resiste contra o processo de institucionalização da psiquiatria. Em geral, não há outra alternativa que não se render à progressiva perda de identidade e auto-estima.

Assim como nos clássicos casos de tragédia grega, como a história de Antígona, McMurphy é punido pela sua afirmação de liberdade. Se Antígona contrariou a lei instituída e pagou o preço por sepultar o próprio irmão, McMurphy não encontrou destino menos grave ao agir de acordo com os seus princípios individuais dentro de uma organização hospitalar cujas regras não deixavam espaço para que o indivíduo se manifestasse de acordo com a sua vontade própria.

“Um estranho no ninho” denuncia que a tragédia dos manicômios é a própria possibilidade de suplantação do sujeito pela ordem médica no contexto de uma psiquiatria ultrapassada. O quadro “sob controle” do “paciente dócil” e assujeitado fora o ideal clínico de outrora, substituído, em tempo, por novas práticas terapêuticas que valorizam a autonomia e as potencialidades criativas e produtivas da pessoa com transtorno mental. Se hoje a Saúde Mental se afasta das pequenas tragédias de seus usuários, infelizmente, o que aconteceu a McMurphy não é muito diferente daquilo que, até recentemente, era feito com muitos pacientes psiquiátricos em nosso país. Graças a muitas lutas no campo da Saúde Mental, hoje, se essa história ainda não é impossível, pelo menos ninguém poderá dizer que é um drama desconhecido da sociedade.

Título original: One Flew Over the Cuckoo’s Nest
Ano: 1975
Direção: Milos Forman