Para evitar a “almificação dos viventes”

Prezados amigos,

Existem certas armadilhas que se corre o risco de cair quando tem-se a intenção de desenvolver um projeto de inclusão da diversidade. A “almificação dos viventes” é uma delas. Esta noção foi cunhada por Reinaldo Bulgarelli com a intenção de nos alertar contra esse risco e é apresentada em seu livro “Diversos somos todos – valorização, promoção e gestão da diversidade nas organizações” (São Paulo: Editora de Cultura, 2008). A “Almificação dos viventes” diz respeito a uma reação geral que muitas pessoas têm diante do diferente e que é verbalizada por frases do tipo “o que importa não é a nossa aparência exterior; nossas almas são iguais”.

Negar a diferença é uma atitude diametralmente oposta a qualquer intenção séria de promover a inclusão da diversidade. Isto é, consiste em não reparar nas particularidades do outro, ou como diz Bulgarelli, “Almificar os viventes é exatamente ignorar nossas características e fingir que já inventaram óculos capazes de olhar apenas a alma das pessoas. E essa alma não tem sexo, cor, cicatrizes, verrugas, cabelos, idade, tom de voz, origem, língua, cultura, história… Essa alma, para eles, vive separada de um corpo, um tempo, um lugar”.

Um dos fatores importantes que devem ser levados em conta para não “almificarmos os viventes” é o fato de que a nossa subjetividade é produzida a partir de nossa relação com o mundo e, em grande medida, essa relação é estabelecida e mediada pelo nosso corpo e através dele. Desta forma, o corpo tem uma grande influência na formação da nossa subjetividade e não pode ser totalmente desconsiderado quando estabelecemos as nossas relações.

O que Bulgarelli quer dizer com “almificação” não passa por qualquer questão religiosa, nem o seu oposto, a corporificação exagerada dos valores do ser humano. É sim, um alerta contra uma forma viciada de lidar com questões de ordem prática. A “Ciranda da Bailarina”, de Chico Buarque e Edu Lobo pode nos ajudar a compreender que noção é essa: “Procurando bem / Todo mundo tem pereba / Marca de bexiga ou vacina / E tem piriri, tem lombriga, tem ameba / Só a bailarina que não tem” (para ver o vídeo completo: http://www.youtube.com/watch?v=jeEUSfP_LU4 – 02min17seg). Com o perdão da palavra, a “Almificação dos viventes” é quase como uma espécie de “Bailarinização dos viventes”, ou seja, a desconsideração de tudo aquilo que faz as pessoas especiais, posto que somos todos, em maior ou menor grau, igualmente diferentes.

De vez em quando, ao falarmos em support employment, que a Agrega desenvolve através do monitoramento individualizado do trabalhador, somos questionados se, com isso, não estaríamos ressaltando o fato de que ele ou ela é diferente porque tem transtorno mental. Como se, pelo fato de oferecermos ajuda a alguém, estivéssemos expondo essa pessoa diante dos olhares dos outros. Acreditam que o “correto” seria incluí-la como “todos os outros”, disfarçando a sua condição diferenciada. Não percebem, no entanto, que esta atitude nega a diferença, esconde-a e, assim, não inclui verdadeiramente o indivíduo. O support employment é a condição de possibilidade para que algumas pessoas consigam trabalhar. Com isso, queremos dizer que o monitoramento não apenas é necessário, mas desejável, posto que é uma ferramenta que o indivíduo dispõe para exercer um direito fundamental de cidadania que é o trabalho. Ignorar a necessidade do support employment pode, muitas vezes, custar o emprego daquela pessoa.

É preciso aceitar as diferenças para incluir de maneira responsável. Algumas pessoas precisam do support employment para trabalhar, outras precisam de uma bengala, de uma cadeira de rodas, ou de uma linguagem de sinais. A melhor conduta é, justamente, reparar as necessidades da pessoa para se relacionar melhor com ela. “Não reparar pode significar não considerar a pessoa em sua realidade, possibilidades e limites na hora de propor uma atividade, de oferecer uma oportunidade, de planejar alguma coisa para si e para todos. (…) pode significar uma imensa dificuldade de lidar com as pessoas como elas são”, diz Bulgarelli. É a partir da aceitação da alteridade que se inicia um projeto de inclusão social.

A aceitação da alteridade começa com o conhecimento da diferença, e para desenvolver esse conhecimento precisamos de alguma sensibilidade, mas também precisamos de informação. Por isso, apresentamos os vídeos que estão elencados a seguir e que chegaram até nós através do próprio Bulgarelli. Estes vídeos, que foram feitos pela TV Câmara, são muito bons para transmitir este conhecimento sensível. Cada um têm duração aproximada de 01 minuto e foram concebidos com base no “Manual de convivência”, de Mara Gabrilli. Além disso, podem ser muito úteis às empresas que pensam em desenvolver um plano de inclusão social com a contratação de pessoas com deficiências e/ou transtornos mentais.

Como lidar com a pessoa cadeirante: <http://www.youtube.com/watch?v=7om_glb3l10&feature=relmfu>

Como lidar com a pessoa surda: http://www.youtube.com/watch?v=f63tBCyDMyM&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa cega: http://www.youtube.com/watch?v=nWjjyPUWZo0&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa que tem uma deficiência intelectual: http://www.youtube.com/watch?v=lY2OLBVdt10&feature=relmfu

Como lidar com a pessoa que tem uma deficiência física: http://www.youtube.com/watch?v=lGaC36rV3OA&feature=related

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