Do tropicalismo à cajuína: uma homenagem a Torquato Neto

“Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder”
(estrofe do poema Go back, de Torquato Neto)

Torquato Pereira de Araújo Neto (9/11/1944 – 10/11/1972) foi um poeta, jornalista e compositor, que esteve envolvido com a Tropicália, o Cinema Novo e o movimento concretista.

Foto de Torquato NetoTorquato escreveu o breviário “Tropicalismo para principiantes” onde defendia a ideia de uma música pop genuinamente brasileira. Como letrista, ele compôs em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Nonato Buzar, Edu Lobo, entre outros grandes de nossa música.

Também participou de alguns filmes na década de setenta e produziu o seu próprio filme como diretor e ator, o “Terror da Vermelha”, no qual Edmar Oliveira também trabalhou como ator e Arnaldo Albuquerque fez a câmera. Também como ator, Torquato atuou no filme “Adão e Eva”, uma produção de António Noronha, com direção de Carlos Galvão, roteiro de Edmar Oliveira e, mais uma vez, câmera de Arnaldo Albuquerque. Além disso, Torquato foi assistente do filme “Barravento”, de Glauber Rocha.

No final da década de sessenta, com o exílio dos amigos Caetano e Gil, Torquato foi morar em Londres com a esposa Ana Maria. Voltou ao Brasil no início dos anos setenta, mas se isolou do mundo e das pessoas, sentindo-se perseguido e tolhido pela “patrulha ideológica”. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo e rompeu diversas amizades.

Foto de Torquato NetoEm 1973 Waly Sailormoon organizou um livro com textos e poemas de Torquato, chamado “Torquato Neto, – os últimos dias de paupéria”. Nele, existe um capítulo intitulado “D’Engenho de Dentro” onde estão reunidos textos que Torquato escreveu durante o período em que esteve internado no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII – atual Instituto Municipal Nise da Silveira), situado naquele bairro. Nestes trechos ele revela um pouco da profundidade e dos matizes de seu sofrimento.

“Dia 07/10 – um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: ‘quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. É difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. É chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo’. O recorte acaba aí. Hoje, agora, estou fazendo tempo enquanto os remédios que tomei fazem efeito e vou dormir. Esse sanatório é diferente dos outros por onde andei – talvez seja o melhor de todos, o único que talvez possa me dar condições de não procurar mais o fim da minha vida”

Dia 7/4/71 – “Foi um caminhão que passou. Bateu na minha cabeça. Aqui. Isso aqui é péssimo, não me lembro de nada. // Eles não deixam ninguém ficar em paz aqui dentro. São bestas. Não deixam a gente cortar a carne com faca mas dão gilete pra se fazer barba. // Pode me dar um cigarro? Eu só tenho um maço, eu tenho que pedir porque senão acaba. Pode me dar as vinte.”

Um dia após seu aniversário de 28 anos, em 1972 na cidade do Rio de Janeiro, Torquato Neto cometeu suicídio. Depois de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás.

Em homenagem ao poeta, Caetano Veloso compôs a música “Cajuína”, como pode ser visto no vídeo que está acessível em <http://www.youtube.com/watch?v=S5NxSwkwx-o>. Na ocasião, Caetano estava em Teresina e foi visitar o pai de Torquato, que lhe serviu uma cajuína e depois lhe presenteou com uma rosa menina do seu jardim.

Hoje , no Rio de Janeiro, está em funcionamento o Centro de Atenção Psicosocial Caps Torquato Neto, situado no Cachambi.

Foto de Torquato, Caetano Capinan
Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinam.

Cogito
(Torquato Neto – 20/10/1970)

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranquilamente
Todas as horas do fim

Para saber mais sobre a obra de Torquato Neto, visite a página oficial clicando no endereço: <http://www.torquatoneto.com.br/>

Referências:
Torquato Neto – os últimos dias de paupéria. Organizado por Waly Sailormoon. Rio, 1973. Livraria Eldorado Tijuca.

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Da Psiquiatria à Psicanálise: o pioneirismo de Henri Ey

O psiquiatra francês Henri Ey Banyuls-dels-Aspres (10/08/1900 a 8/11/1977) dedicou sua vida ao aprimoramento da psiquiatria e ficou conhecido por tirar esta disciplina de sua organização estática. Defendia que a ordem hierárquica das funções psíquicas prevaleciam sobre a organização do cérebro. Foi a partir deste postulado que ele fundou a psiquiatria dinâmica, aproximando as teorias de Freud e Bleuler e incorporando a leitura de Hughlings Jackson para o campo da psiquiatria francesa. A perspectiva de Ey ficou conhecida como a abordagem organo-dinâmica, e formou toda uma geração de novos psiquiatras franceses.

Henri Ey foi redator chefe da revista Évolution Psychiatrique desde 1945 e, em 1961, participou da fundação da Associação Mundial de Psiquiatria, da qual foi secretário geral por muitos anos. Além disso, foi o médico chefe do Hospital Psiquiátrico de Bonneval (Eure-et-Loir) de 1933 à 1970. Ey foi também o mentor dos famosos colóquios de Bonneval, que organizava reunindo psiquiatras, psicanalistas, neurologistas e filósofos de todas as tendências.

Muito fecundo por seus escritos, Ey escreveu um Tratado de Psiquiatria juntamente com Bernard e Brisset, em 1960, que até hoje é referência em cursos de formação de psiquiatras. Dentre sua vasta obra, se destaca ainda o monumental Tratado das Alucinações, de 1973.

O desafio de superar a loucura inventada por Pinel

“Nunca a psicologia conseguirá dizer a verdade sobre a loucura,
porque a loucura é que detém a verdade da psicologia”.
(Michel Foucault)

Foto de Philippe PinelLoucura, doença mental e transtorno mental soam naturalmente como sinônimos aos ouvidos de muita gente hoje em dia. Entretanto, evidenciar este fato é apresentar uma verdade parcial. Podemos considerar que a loucura sempre esteve representada e sempre ocupou um lugar especial na sociedade. Entretanto, o louco, entendido como doente mental, é uma construção recente, uma tese criada por volta do século XIX. O fato é que foi a partir de Phillipe Pinel (20/04/1745 – 25/10/1826) que a loucura passou a ser dotada de um estatuto, uma estrutura e um significado psicológicos. Vejamos brevemente como isso se deu.

Durante toda a Idade Média, o saber sobre a loucura não podia ser considerado um conhecimento objetivo, mas compunha um emaranhado de significações sobrenaturais, ou mágico-religiosas. Já em meados do século XVII, surgem diversas instituições asilares e assistenciais desprovidas de qualquer caráter médico em toda a Europa, como la Salpêtrière e Bicêtre, ou os leprosários adaptados São Lázaro e Charenton. A estes depositários de gente são dirigidos todos os tipos de indivíduos considerados “inválidos”: velhos miseráveis, mendigos, desempregados renitentes, portadores de doenças venéreas, prostitutas, libertinos, excomungados, loucos, etc.

Imagem de louco acorrentadoPorém, no espírito de mudança reinante na França revolucionária, Philippe Pinel inaugura, no final do século XVIII, com a sua Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, a psiquiatria moderna. A partir de então, a loucura, os transtornos da mente e as ciências médico-psicológicas nunca mais caminhariam separadas.

Pinel inicia um importante processo de humanização e ordenamento da loucura, dotando-a de um estatuto científico sobre o qual incidia um olhar disciplinar e taxonômico. Deveria haver um lugar específico para a loucura, o louco não poderia mais estar misturado a outras categorias de gente. Este lugar constituiu-se como o hospital psiquiátrico, onde a loucura poderia ser estudada e classificada, tratada e contida.

Neste sentido, podemos entender que a psiquiatria fundada por Pinel foi, ela mesma, estabelecida sob os ares de um movimento de reforma. Esta reforma aconteceu nos hospitais de Bicêtre e Salpêtrière, onde os loucos foram desacorrentados e separados dos demais internos. O trabalho de Pinel, assim, representa o primeiro esforço de apropriação da loucura para o domínio da ciência médica, isolando-a para o estudo de suas manifestações e terapêuticas. Sua nosografia inaugura os esforços modernos de análise das formas da doença mental, assim como das fases de sua evolução e das técnicas terapêuticas possíveis para o seu tratamento.

Foto de Salpêtrière
La Salpêtrière, Paris

Contudo não podemos deixar de lado a observação de que, desde então, pouco foi feito em favor do louco, embora muitos tenham sido os esforços de apropriação do olhar científico sobre a loucura. Ou seja, a loucura tomada como entidade metapsicológica isolou, do olhar médico, a pessoa que sofre de um transtorno mental. O louco, abandonado nos asilos, serviu a uma certa medicina psiquiátrica como laboratório, ou campo de pesquisas, produzindo um conhecimento médico de grande sofisticação técnica sobre um tipo de loucura específica: a loucura asilar.

Quadro de GoyaSe, por um lado, loucura, doença mental e transtorno mental são conceitos que nem sempre estiveram juntos, por outro lado, enfrentamos hoje o desafio de superar os paradigmas da loucura asilar sem jogar fora os avanços técnicos positivos produzidos pela psiquiatria.

Ou ainda, se como disse Foucault é a loucura que detém a verdade da psicologia, então o psicólogo deve ir até o louco para entender a sua verdade, quer dizer, a psicologia deve compreender a loucura na vida, em liberdade, no trabalho. De fato, a verdade do louco não se define pela doença, assim como não se reduz nenhum enfermo à sua enfermidade.

Vivemos um período singular, propício para uma nova mudança, e a Agrega posiciona-se em defesa de um outro olhar e um outro cuidado para com a loucura. É necessária a abertura de um novo campo de convívio para o louco: o emprego formal. Acreditamos que, através da conquista do trabalho e da cidadania seja possível colocarmos uma pá de cal na imagem da loucura improdutiva e tutelada (crença inventada dos manicômios dos séculos passados), abrindo uma nova possibilidade de relação entre a pessoa com transtorno mental e o corpo social, o que favorecerá o surgimento de novos olhares e novas psicologias da loucura e da lucidez humana.

A beleza em Camille Claudel

Lembramos hoje de Camille Claudel (08/12/1864 – 19/10/1943), escultora francesa de uma sensibilidade fora do comum, que produziu obras de incomparável beleza e delicadeza.

Camille teve por mestres Alfred Boucher e Auguste Rodin. Em 1885 ela foi convidada por Rodin para ser colaboradora em seu ateliê e eles trabalharam juntos em diversas esculturas. Pouco tempo depois, Camille e Rodin se apaixonam e vivem uma intensa relação amorosa. Entretanto, a vida de Camille foi abalada por duas circunstâncias. Primeiro, acusam-na de que suas obras seriam, na realidade, feitas por seu mestre e, em segundo lugar, o fato de Rodin não conseguir pôr fim ao seu relacionamento com Rose Beuret também a perturba. Com isso, Camille fica triste e depressiva, e busca se afastar de Rodin.

Magoada e fora de si, Camille passa a nutrir por Rodin sentimentos ambíguos de amor e ódio que acabam se transformando em um estado paranóico e de loucura. A partir de 1905 os períodos paranóicos de Camille pioram. Ela passa a ouvir vozes e ter delírios persecutórios com frequência, piorando a sua condição de saúde, que chega a configurar um quadro completo de esquizofrenia. Em 1913, após a morte do pai, ela entra em uma fase de frustração e agressividade e é internada no manicômio de Ville-Evrard. Posteriormente Camille foi transferida para Villeneuve-lès-Avignon onde fica até o fim de sua vida. Claudel ficou trinta anos internada, passando a maior parte do tempo amarrada e sedada. Foi desta forma que chegou ao fim o período de maior criativdade na vida da artista.

Retrato de Camille ClaudelÉ pela incrível capacidade de produção e poder criativo destas pessoas tão frágeis em sua saúde mental, e contra este tipo de solução restritiva da vida e da liberdade, que a Agrega se posiciona a favor da inclusão social através do trabalho. Acreditamos que este é um modo eficaz de evitar os chamados tratamentos compulsórios em confinamento.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Camille Claudel, acesse o filme Camille Claudel (legendas em inglês) no YouTube através dos endereços abaixo:

Filme de 1988, direção de Bruno Nuytten, co-produção de Isabelle Adjani, estrelando Gérard Depardieu e Isabelle Adjani:

1ª parte (1h11min49seg): <http://www.youtube.com/watch?v=iA8pHSr_irY>
2ª parte (1h25min58seg): <http://www.youtube.com/watch?v=nZ1e0KSgXn4&feature=relmfu>

Sigmund Freud

Foto FreudSigismund Schlomo Freud (06/05/1856 – 23/09/1939), como fora batizado, já assinava Sigmund Freud quando se formou em medicina. Embora sonhasse em ser cientista natural, optou pela clínica médica depois que conheceu bela Martha Bernays.

Freud e Martha noivaram dois meses depois do primeiro encontro, fato que se tornaria decisivo na história da descoberta da psicanálise. Isso porque seria a partir da prática clínica que Freud desenvolveria a sua técnica terapêutica. Assim, a escolha pelo atendimento médico se deu em função de seu amor por Martha, pois, para casar-se, precisava obter os rendimentos necessários para o sustento da vida conjugal e, como as pesquisas nas ciências naturais não eram tão rentáveis, decidiu pela clínica médica.

Segundo o próprio Freud, de tudo o que escreveu, o seu livro mais importante foi “A interpretação dos sonhos” (Die Traumdeutung), lançado em Viena, em 4 de novembro de 1899. Sobre o livro, o próprio Freud diz: “contém (…) a mais valiosa de todas as descobertas que tive a felicidade de fazer. Compreensão dessa espécie que só ocorre uma vez na vida”. De fato, o que a obra revela é o “discurso do desejo”, segundo nos conta Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Foto FreudO alcance das ideias de Freud no mundo moderno é extraordinário. A Psicanálise reformulou o conhecimento que o homem tinha sobre si mesmo, libertando-o e, ao mesmo tempo, subvertendo a confiança que depositávamos em nossos saberes conscientes. O que Freud questionou foi a própria verdade do sujeito ao descobrir que, em grande medida, somos determinados por conteúdos que permanecem inconscientes. Por isso, a Psicanálise é considerada a terceira ferida narcísica do homem. Em uma passagem da “Teoria Geral das Neuroses”, de 1916 (Vol. XVI das Obras Completas – grifo nosso), Freud diz:

No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.”

Enquanto conhecimento científico, a Psicanálise é um dos referenciais teóricos mais importantes para a Agrega. Sem dúvida, boa parte dos fundamentos sobre os quais são construídas as nossas práticas em Support Employment repousam sobre o pensamento freudiano. Embora não façamos, com isso, uma clínica psicanalítica, podemos dizer que a moral da psicanálise permanece viva na Agrega, pois o princípio que assumimos entende a necessidade fundamental de estarmos dispostos a ouvir o que o sujeito com transtorno mental tem a dizer, da mesma maneira que Freud se propôs a ouvir o que tinham a dizer as histéricas.

Freud ImageNo fim da vida Freud se vê obrigado a fugir da perseguição nazista e vai morar na Inglaterra, segundo ele, “para morrer em liberdade”. Sofrendo de um câncer no palato, Freud pede auxílio ao seu amigo Max Schur para dar fim à sua vida, em 21 de setembro de 1939. Naquele dia Schur aplica a primeira das três injeções de morfina que levaram Freud a morte. A primeira levou-o a um sono pacífico, a segunda foi dada quando Freud tornou-se inquieto e a terceira no dia seguinte, levando Freud ao coma. Freud morreu dois dias depois da primeira injeção, no dia 23 de setembro. Segundo Peter Gay, “Schur estava à beira das lágrimas, enquanto presenciava Freud encarando a morte com dignidade e sem autopiedade. Ele nunca vira alguém morrer assim”. Freud se foi como queria, em seu posto, conservando o controle sobre a sua vida até o fim, tal como o rei Macbeth.

Referências:
FREUD, S. (1917[1916-17]). Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte III). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud Volume XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
GARCIA-ROZA, L.A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
FREUD além da alma. Direção: John Huston. Produção: Wolfgang Reinhardt. EUA: Bavaria Film / Universal International Pictures, 1962, 140min., son., p&b., 1 DVD.

Uma homenagem a Franco Basaglia

“O psiquiatra parece, de fato, descobrir apenas hoje, que o primeiro passo para a cura do doente é o retorno à liberdade da qual uma vez ele próprio o havia privado”

(Franco Basaglia)

Franco Basaglia (11-03-1924 / 19-08-1980) foi um importante psiquiatra italiano, que contribuiu para a melhoria dos cuidados em Saúde Mental. A partir de seu trabalho em Gorizia e Trieste, dois grandes hospitais psiquiátricos da Itália, redigiu alguns dos textos mais consagrados da psiquiatria contemporânea, tais como “O Que é Psiquiatria?” (1967), “A Instituição Negada” (1968) e “Crimes de Paz” (1975).

Basaglia utilizou o pensamento fenomenológico-existencial para questionar a ciência psiquiátrica, partindo do entendimento de que o homem é sujeito-objeto de um sofrimento social. Desta forma, no lugar de uma enfermidade mental, Basaglia enxergou na loucura uma existência-sofrimento em relação ao corpo social. Esta nova leitura sobre a loucura evidenciou alguns aspectos indesejáveis da psiquiatria tradicional, relacionados tanto ao conhecimento científico da psiquiatria, quanto às instituições (dispositivos) de tratamento até então utilizados. Como resultado, Basaglia identificou o que chamou de “duplo” da doença, ou seja, um conjunto de características negativas que não são provocadas pela enfermidade em si, mas pelo próprio conjunto dos dispositivos de tratamento. Aspectos como a negação das subjetividades, a supressão das identidades e o embotamento emocional dos sujeitos eram consequências da institucionalização das pessoas com transtornos mentais.

O cenário que configurava a instituição psiquiátrica tradicional era, portanto, mais nocivo do que terapêutico. Basaglia dizia que a psiquiatria era institucionalizante, o que, segundo ele, era um “…complexo de ‘danos’ derivados de uma longa permanência coagida no hospital psiquiátrico, quando o instituto se baseia sobre princípios de autoritarismo e coerção. Tais princípios, donde surgem as regras sob as quais o doente deve submeter-se incondicionalmente, são expressão, e determinam nele uma progressiva perda de interesse que, através de um processo de regressão e de restrição do Eu, o induz a um vazio emocional” (1981).

Basaglia operou uma transformação institucional e científica da psiquiatria, reformando-a e levando a profundas modificações no estatuto científico e nos aparatos tecnológicos da loucura, assim como em seus sentidos ideológicos e culturais. Seu trabalho foi um marco a partir do qual é possível distinguir a Psiquiatria tradicional, caracterizada pela multiplicação dos dispositivos de alienação, da Psiquiatria reformada, norteada pelo processo de desinstitucionalização e pela criação de novos dispositivos em Saúde Mental.

As três premissas que nortearam seu trabalho foram: (a) a luta contra a institucionalização, ou seja, a desconstrução dos hospitais psiquiátricos; (b) a luta contra a tecnificação, quer dizer, não permitir que a loucura fosse apropriada por outros saberes científicos que justificassem novas formas de intervenção sobre a doença, passando, desta forma, a cultivar a preocupação pelo doente e; (c) a construção de uma relação de contrato social com o doente, substituindo as antigas formas tutelares de interposição, típicas das instituições asilares.

O pensamento de Franco Basaglia é de grande importância para o trabalho que a Agrega desenvolve nos dias de hoje. Profissionais da saúde de todo o mundo estão descobrindo novas possibilidades de cuidado e entendimento sobre o transtorno mental. Em outras palavras, significa que Basaglia não apenas iniciou a ressignificação epistemológica da loucura como também preparou o terreno para reconstruirmos os aparatos técnicos dos cuidados em Saúde Mental. Sabemos, hoje, que a loucura não é sinônimo de improdutividade, pois através do support employment, por exemplo, temos acesso a histórias de pessoas que conseguiram trabalhar, produzir e superar expectativas.

Franco Basaglia merece as nossas homenagens por seu trabalho e suas reflexões. De fato, foi ele quem iniciou a desconstrução daquela psiquiatria tutelar, substituindo-a pela psiquiatria reformada que busca, através do cuidado dedicado ao doente, restaurar a sua liberdade. Sem essa busca de liberdade, hoje não seria possível lutarmos pela empregabilidade das pessoas com transtornos mentais; mesmo com o support employment, o nosso esforço seria inútil. Se, em pleno século XXI, ainda é difícil vencer certas barreiras culturais para realizarmos este processo de inclusão social, certamente o nosso trabalho seria impossível não fosse pela obra e pelas ideias de homens como Franco Basaglia.

Para saber mais a respeito de Franco Basaglia, sugerimos o texto de Paulo Amarante: “Uma aventura no manicômio: a trajetória de Franco Baságlia”. Hiperlink para o texto completo disponível em: <https://redeagrega.wordpress.com/artigos/>

Os gatos de Loius Wain

Prezados amigos,

Defendemos abertamente a ideia de que a inclusão da diferença é um trabalho fundamental e necessário para construirmos uma sociedade mais saudável e equilibrada. Hoje nos lembramos de Louis Willian Wain para demonstrar isso.

Wain nasceu e morreu em Londres (15 de agosto de 1860 a 4 de julho de 1939) e ficou conhecido por suas pinturas de gatos. No início da carreira suas pinturas eram bastante realísticas (como na ilustração ao lado). Aos 26 anos Wain começa a pintar gatos cada vez mais antropomorfizados, chegando a desenhá-los com roupas, de pé, ou com expressões faciais humanas. A partir daí seu trabalho ganhou popularidade e Wain chegou a ilustrar cerca de cem livros infantis. Seu trabalho aparecia com frequência em revistas, cartões postais e hoje suas pinturas são bastante disputadas.

Wain sofreu de uma esquizofrenia tardia, que teve início por volta dos 57 anos. Acredita-se que fora vítima da toxoplasmose transmitida pelos gatos, doença que pode comprometer o sistema nervoso. Porém, a partir daí suas pinturas ganharam contornos inusitados e seu trabalho progrediu em termos criativos (como no desenho ao lado). Existem teorias de que os trabalhos desta fase refletem sua condição mental, pois retratam aspectos da esquizofrenia.
Louis Wain passou os últimos quinze anos de sua vida em paz e cercado por gatos, internado em instituições psiquiátricas.

A beleza dos trabalhos da última fase de sua vida é emblemática e serve para nos lembrar que pessoas com transtornos mentais podem contribuir positivamente em nossas vidas com seu trabalho e sua criatividade.

Em homenagem a Louis Wain, inauguramos, hoje, uma nova imagem de cabeçalho em nosso blog, que traz algumas de suas gravuras de gatos.