As imagens da capa

A pintura retrata o psiquiatra francês Philippe Pinel (1745-1826) libertando das correntes os doentes mentais internados no Hospital de Salpêtrière, em Paris, no ano de 1795.
Esta pintura faz referência ao surgimento da psiquiatria moderna que, não obstante, nasceu como reforma psiquiátrica.

Obra de domínio público: “Philippe Pinel à la Salpêtrière“. Autor: Tony Robert-Fleury (1838-1912).

A imagem retrata o transporte de prostitutas para o Hospital de Salpêtrière, em Paris, no ano de 1745. Como se sabe, tais locais, antes do advento da psiquiatria moderna, serviam de depósito e prisão para pobres, mendigos, desocupados, marginais diversos, doentes mentais, epiléticos e prostitutas… pessoas que pudessem perturbar a ordem da cidade. Durante a Revolução Francesa a multidão libertou as prostitutas; mas só as prostitutas!

Obra de domínio público: “Conduite des filles de joie à la Salpêtrière“. Autor: Étienne Jeaurat (1699-1789).

O “Autorretrato com a Orelha Cortada” foi pintado após a fuga de Van Gogh do hospital, em 6 de janeiro de 1889. O pintor teria cortado o lóbulo da própria orelha esquerda depois de um infeliz episódio com seu amigo Gaugin, na véspera de Natal, em 1888. Depois de extirpada, a parte da orelha foi levada como presente a Rachel, uma prostituta amiga, supostamente envolto em um lenço com os dizeres: “Guarde com cuidado”. Feito isso, Van Gogh teria ido para casa para dormir como se nada tivesse acontecido. Na mesma noite, foi encontrado ensanguentado e desacordado pela polícia.

“Os Girassóis” é o nome que da série de sete quadros pintados Van Gogh sobre o tema. A imagem ao lado equivale ao quadro “Vaso com Doze Girassóis”, de janeiro de 1889. É considerada a série das melhores obras do pintor pós-impressionista holandês, justamente a fase em que ele se lança ao estudo do sentido da cor e da luz na arte. Ao longo de sua vida, Van Gogh sofreu com diversas crises devido a algum tipo de transtorno mental. O diagnóstico é uma controvérsia, mas acredita-se que seu quadro tenha sido agravado pelo uso do absinto.

A segunda versão de “O Quarto em Arles” foi pintada enquanto Van Gogh estava internado no hospício de Saint-Rémy-de-Provence, em setembro de 1889. Além deste, o pintor também esteve internado em Saint-Paul-de-Mausol. Durante suas passagens pelos hospitais psiquiátricos, o artista foi avaliado por mais de 150 psiquiatras, que chegaram a 30 diagnósticos diferentes! Van Gogh é uma dos muitos que provam que pessoas com transtornos mentais podem trabalhar, produzir e contribuir de maneira positiva e bela para as nossas vidas.

Todas as obras de Van Gogh (1853 – 1890) são de domínio público.

Este quadro foi pintado por Hieronymus Bosch (acredita-se que por volta do ano 1494), e é conhecido como “Removendo as Pedras da Cabeça” ou “A cura da Loucura” (Removing the Rocks from the Head, ou The Cure of Folly).
A tradução da inscrição diz “Mestre, extrai-me a pedra, meu nome é Lubber Das”.
Existem várias interpretações para o fato de que o que está sendo retirado da cabeça do satírico Lubber Das não é uma pedra, mas uma flor. De qualquer modo a obra é uma crítica manifesta e, seja pela flor, pelo punhal na bolsa de dinheiro do médico, pelo funil em sua cabeça, pelo cântaro de vinho na mão do frade ou pelo livro na cabeça da freira, o quadro aponta para um certo charlatanismo que existe na pretensão de curar a loucura. Preferimos pensar que, por detrás de todo o sofrimento existente na loucura, a flor indique uma beleza sutil, capaz de ser encontrada nos museus do inconsciente.

Em “A Nau dos Loucos” (1503-1504) Bosch critica a loucura da condição humana, sob vários aspectos. Mas sua crítica não recai sobre o sofrimento mental e sim sobre a condução miserável que a sociedade faz de seu destino. Embora possa parecer pessimista, nos serve mais como alerta. A Nau dos Loucos não fala apenas do diferente, não é uma crítica aos loucos, ele fala de nós mesmos.

A nau também é a embarcação que deporta para longe de nós as pessoas indesejadas, da mesma forma como a Europa exilou em caravelas seus mendigos e delinquentes para o novo continente. Bosch coloca em evidência esta loucura que há em repetir sempre os mesmos erros, os mesmos preconceitos, os mesmos medos, as mesmas soluções desesperadas para questões com as quais não se sabe lidar.

A escolha dessa obra para compor a capa do blog vem de encontro a velha máxima de um compositor brasileiro que diz “de perto ninguém é normal”. A pintura é um convite a deixarmos nossa arrogância de lado em nome da inclusão da diferença. Acreditamos que, desta forma, seremos capazes de obter um convívio mais harmônico com a loucura alheia e com a nossa própria loucura, a fim de melhor escolhermos os rumos que a nossa nau vai tomar.

Todas as obras de Hieronymus Bosch são de domínio público.

“A ronda dos prisioneiros”, de 1890, inaugura mais uma série de imagens do Van Gogh no cabeçalho de nosso blog.
Muito embora essa bela pintura não dialogue diretamente com a questão da loucura, ainda assim, na medida em que denuncia facetas das instituições totais, o quadro flerta com ela. Flerta pela justaposição de dois modos de vida, um relacionado a existência dentro de uma instituição total e outro que diz respeito aos mantenedores deste tipo de instituição. O primeiro, que está relacionado aos homens que andam em roda, reflete a relutância da marcha na vida, o círculo vicioso, a melancolia; tal como se via nos manicômios. O segundo diz respeitos aos homens de cartola e uniforme, são os visitantes, os controladores, os burocratas, aqueles que vão e vêm. O quadro reflete uma relação que se reproduz e se mantém.
Afinal de contas, entre o hospício e a prisão não existe qualquer distinção que escape a uma análise mais profunda.

the-asylum-garden-at-arles-vincent-van-gogh“Os jardins do Asilo de Arles” é a primeira pintura que compõe a segunda montagem das imagens da capa com obras de Van Gogh.

O artista pintou muitos quadros que retratam os hospitais psiquiátricos pelos quais passou em sua vida. Os Jardins do Asilo de Arles foi pintado em junho de 1889 e teve o tamanho do chafariz aumentado, pois Van Gogh procurava “uma melhor composição”.
Em breve, mais histórias sobre as novas imagens da capa. Fique atento!

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Uma resposta em “As imagens da capa

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