O lado bom da vida

Silver-Linings-Playbook-27Ago2012_06Diversão, sensibilidade e um monte de personagens complexos fazem de “O lado bom da vida” (Silver Linings Playbook) uma boa opção no cinema. O filme, que está em cartaz, é inteligente e foge dos clichês típicos de Hollywood. A temática dos transtornos mentais permeia a narrativa e é característica marcante na personalidade de Pat Solatano, de seu pai, representado por Robert DeNiro e de Tiffany, entre outros.

A beleza de “O lado bom da vida” está nas relações que são construídas ou recuperadas ao longo do filme, apesar das dificuldades de cada um. A trama articula um bipolar; um viciado em jogos, chamada Ludopatia, com uma espécie de Transtorno Obsessivo Compulsivo para questões supersticiosas; um neurótico a beira de um ataque de nervos, endividado, sufocado, mas que faz questão de manter as aparências; um irmão perverso; um psiquiatra confuso; vizinhos intrometidos e uma ninfomaníaca insistente. Diversão garantida.

Um filme de sutilezas

Silver-Linings-Playbook-06Nov2012_05O filme é concreto e expõe questões complexas de maneira simples, através de cenas que podem passar como corriqueiras ou, até mesmo, triviais. O preconceito e o estigma em relação à loucura, por exemplo, são questões tensas e emocionalmente confusas para Pat e Tiffany. Se por um lado, eles se identificam quando o assunto são as drogas psiquiátricas, por outro lado não sustentam a comparação do grau de suas loucuras. Refletem para si mesmos um tipo de olhar piedoso para com o outro, o mais louquinho. Um olhar que não ajuda em nada, nem para eles, nem para nós, que trabalhamos com inclusão. Como vemos no filme, o resultado deste tipo de atitude não pode ser bom.

Aos olhos do louco o normal era insano, é o que se pode dizer do diálogo de Pat com seu melhor amigo (aparentemente uma pessoa ajustada). Neurótico, como a maioria de nós, queixava-se com Pat da “pressão”, da família, do trabalho, das sucessivas reformas na casa recém-reformada, daquilo tudo da vida cotidiana que o fazia sentir sufocar. Eis que o louco mais estigmatizado do filme lhe responde: “Isso não é bom para você”, o que, precisamos concordar, deve ter sido uma das frases mais sensatas de todo o filme!

O vício do jogo, a vergonha dos remédios, um surto violento, a lei, a mania, o louco que foge do hospício, os medicamentos e um profundo conhecimento dos motivos que as pessoas têm para não querer tomá-los. Todos os elementos da narrativa convergem para o ápice do filme, um momento de superação e engajamento, quando todos os personagens se reúnem para torcer por uma nota mediana. A nota cinco conquistada (como era de se esperar de um filme) e comemorada a ponto de causar estranhamento na plateia e no apresentador do concurso de dança, (com voz de espanto, “Tudo isso O lado bom da vidapor um 5?”) representa muito mais do que um happy end típico de hollywood. Representa, antes de tudo, a conquista de toda a autonomia possível e o reconhecimento das próprias limitações e de novas possibilidades.

É interessante observar como a vida segue e prospera, a despeito de todas as dificuldades. Algumas pessoas podem até esperar que, em algum momento do filme, coisas melhorem e as pessoas voltem ao estado “normal” de saúde mental. Mas, sobre essas questões, não é tão simples, nem na vida real, nem na arte.

Assita o trailer em: <http://www.youtube.com/watch?v=FM3S4GBlwYA>

Crônicas do Jequitinhonha: Dona Elsa Có

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraDiz com orgulho que o Có herdou do pai, que não é nome de família não, que é um apelido que só grudava nos homens, mas que sua personalidade atraiu para si.

Não se produz uma criatura como Dona Elsa Có a não ser no sertão, mantida desde muito menina na labuta insana, no suor da lavoura, no vai e vem em torno do fogão a lenha, na manufatura forte de potes e panelas, nas andanças no mato, nos banhos de rio, nas danças da Folia e do tambor do Boi Janeiro da cidade de Jequitinhonha.

Dona Elsa com seu cofre estrelaSeu vigor físico, sua miragem cósmica, seu arsenal simbólico e sua potência estética são cozidos, tudo ao mesmo tempo, no caudal desta mistura.

Por outro lado, seu discurso hemorrágico e a diversidade louca de atividades em que parece envolvida, nos levam a pensar que Dona Elsa padece do mal do século, do mal das grandes cidades, apressadas, estressadas, emparedadas para dentro de si: o mal da ansiedade.

Quase não observo ansiedade nos anciãos sertanejos, ou seja, naqueles que só muito tarde na vida vieram, se vieram, a desfrutar dos confortos da modernidade: direito a ir à escola, ou seja, meio dia roubado ao cabo da enxada, oferta geral de produtos industrializados, prontinhos e empacotados, estradas de verdade, para veículos motorizados e, sobretudo, casa eletrificada, banho quente a jato, ferro na tomada e geladeira, artifícios que só vêm sendo implantados, em ritmo acelerado, de dez anos para cá, nos povoados e roças desses fins de mundo.

Cristo de Dona ElsaEm setembro, no CAPS, propus aos profissionais da medicina, enfermagem, psicologia e psiquiatria, maioria dos presentes à palestra, que pensássemos juntos a questão da ansiedade comparando o contexto rural sertanejo e o contexto urbano, sobretudo o das grandes cidades.

Não manipulo com segurança os conceitos científicos referentes ao caso e corro o risco de ser banal, mas costumo caracterizar a ansiedade, até porque não raro a sinto corroendo minhas próprias entranhas, como um esforço ineficaz para driblar o tempo: estamos diante do semáforo, com o pé no acelerador, os olhos pregados na bola de luz vermelha, esperando que se apague, hipnotizados, alheios a tudo e a todos, batendo a perna em repetição nervosa que implica em gasto inútil de energia, sendo que, ali do lado de fora, alheio a meu olhar petrificado, a marcha do mundo vai seguir, inexorável: um minuto de sinal “pare” vai levar exatamente sessenta segundos para cambiar “siga” e ponto final.

Presépio sendo preparado em 2009.

Presépio sendo preparado em 2009.

Diante deste quadro, a proposta de pensamento que coloquei aos ouvintes foi a seguinte: esse tempo interno entrópico, enervado, ativo-improdutivo, talvez seja gerado na medida em que a vivência do tempo real, o tempo do corpo imerso nos elementos naturais e no espírito da comunidade, em luta cooperativa com a matéria-prima, pelo trabalho braçal, vai sendo devorado pelo isolamento físico, pela especialização de função e pelo automatismo típico da civilização mecânica.Na vida moderna, se alguém precisa conversar com um amigo, toma do computador, manda uma mensagem, pega o celular ou, na melhor das hipóteses, vai à casa do dito cujo usando automóvel próprio ou coletivo, de todo modo, transportado em bolhas de aço que mantêm os finos sentidos humanos a uma distância segura de cada pequeno detalhe do mundo natural e da vida humana que fervilha lá fora, atrás das vidraças, detalhe que não escaparia ao caboclo que caminha ao encontro de um “cumpadi” da comunidade vizinha e vai afeito às marcas do caminho: uma casa, uma fruta madura, um formigueiro, um cão de passagem. No paraíso artificial da metrópole, se alguém quer comer carne, não precisa dominar complexos saberes empíricos sobre o meio ambiente e o cosmos, e não tem porque fazer uso da força e da argúcia necessárias à guerra de paciência e brutalidade que envolve a  caça e a pesca; simplesmente, vai ao açougue e compra um quilo de peito de frango já picado para o strogonof. Se no alto dos arranha-céus alguém necessita de cem litros d’água pura para beber, tomar banho e lavar a louça, basta girar o botão da torneira e o líquido incolor, insípido e inodoro vai jorrar lá em cima, a que parece, por magia.

Presépio pronto em 2011.

Presépio pronto em 2011.

E assim, a cada gesto sensível, a cada ação inteligente que deixamos de efetuar porque uma máquina os executou por nós ou os incorporou em certo produto pronto a ser apanhado, na prateleira do supermercado, implica, em alguma medida, na perda do vigor físico, dos poderes plásticos e das dinâmicas simbólicas que modulam a existência sertaneja de que tenho falado, a dos artistas, em especial, apesar dos recursos materiais e culturais limitados de que dispõem na construção de uma vida de trabalho.Nesse ambiente, percebo que o tempo, sobretudo o dos camponeses mais velhos e arraigados, é esse tempo ditado pela matéria: pesos, cheiros, toques, contatos, minutos lentos de cada pequeno encontro.Mas esse compasso está se transformando nos sertões.Perfis como o de Dona Elsa Có, nessas ilhas culturais em rápido processo de mudança, já são raros entre os jovens, mas tenderão a desaparecer, em poucos anos, a maioria tendo mergulhado até o pescoço na esfera urbana, gozando do paraíso entre quatro paredes: televisão, isolamento individualista, perda de raízes, correria sem propósito e sem resultado, lixo cultural, “fast junky food” gerando obesidade aliada à má nutrição, etc., etc.Sendo assim, imagino que, em futuro não muito distante e infelizmente, parte dessas pessoas talvez esteja constituindo a clientela de centros de tratamento médico e psiquiátrico que, em face da eterna penúria governamental, dificilmente poderão prestar um atendimento de qualidade.

E é assim que as melhores condições espontâneas possíveis de promoção da saúde física e mental poderão vir a ser desperdiçadas, na medida em que a base sólida e o caldo substancioso da vida antiga vêm sendo pulverizados pela baixa modernidade, nesses e em milhares de outros lugares.

Nascida e criada no sertão, contudo, as potentes baterias anímicas de Dona Elsa Có se mantêm perpetuamente abastecidas, possibilitando a criação de coisas e relações de pessoas e coisas. O que poderia, na confusão da selva de pedra, ser um problema humano a mais, um dique que causa um tique, um hábito mecânico, um choque perigoso ou, então, uma dispersão, um desgaste inútil de energia, na periferia da pequena cidade de cultura cabocla, na casa de Dona Elsa, é um fluxo desbaratado de produção material e experimento estético que acaba beneficiando, e muito, estratos diversos da sociedade local.

As vezes é difícil perceber quantas vezes nossas deficiências e nossas potencialidades se encontram emaranhadas, dependendo, para sua evolução, num ou noutro sentido, do contexto econômico, cultural e interpessoal em que nos encontramos inseridos.

Panelas feitas com a comadre necessitadaDona Elsa é, como Noemisa e Lira, herdeira da tradição paneleira e também a recriou a seu modo. Não costuma mais fazer “vasia di barru”, exceto uma ou outra, “pru gastu”, ou por encomenda de algum vizinho ou compadre que preza e preserva o gosto roceiro. Mas em minha última visita tinha feito uma queima de panelas monstruosa, como comprova a foto ao lado, com a ajuda de Leonardo, filho adotivo, com quem pode encontrar, à disposição para suas maluquices, barro, lenha, oficina e fornos para a cerâmica. Essa fornada em particular ela concebeu para ajudar uma comadre sua muito idosa e que estava passando por dificuldades adicionais, precisando urgente fazer algum “dinhirin”. A senhora foi paneleira durante décadas mas há muito tempo não labutava mais com os bolões de argila, a lenha grossa e o fogo medonho que caracterizam a atividade. Como veio pedir socorro, então, Dona Elsa, pau-pra-toda-obra, teve de imediato a idéia própria de gente muito ativa, generosa e espertalhona: Leonardo forneceria o espaço de trabalho, toda a matéria prima necessária e ajudaria com o serviço duro do cozimento, as duas iam dividir a modelagem do vasilhame e os lucros reverteriam apenas para a necessitada, claro.

Claro como cristal, para os envolvidos no negócio, mas trata-se do tipo de raciocínio que os novos tempos quase não mais comportam e constitui a prova de uma bem diversa psicologia da troca existente entre esses nativos atados à terra.

Há um século Marcel Mauss escreveu um dos clássicos da antropologia moderna, entitulado “O Dom” ou “A Dádiva”. O livro demonstra, e depois dele muitos outros, como o comércio entre indígenas e camponeses implica um intrincado sistema de câmbios materiais e simbólicos que pode estranhar ao sujeito acostumado, nas cidades de hoje em dia, a valorizar bens de uso e consumo a partir de sua expressão monetária.

Certa vez me deparei, numa de minhas primeiras viagens ao vale, com um certo caboclo que tinha andado duas léguas ou doze quilômetros de mula, da “grota” onde morava até a feira de sábado mais próxima, no caso, a da cidade de Chapada do Norte, capital de país quilombola, onde pretendia “niguciá” um único porco, sim, um único porquinho, da espécie miúda e rústica que esses sertões criaram, sem a menor preocupação com produtividade, sendo que alguns ainda guardam marcas selvagens, como focinhos compridos de Caititu. O homem estava paradão no canto da feira, ao lado do animal, que tinha retirado da cangalha da mula e deitado no chão, mas mantido imóvel como veio, só com a cabeça de fora da bruaca, uma bolsa de couro rudimentar há séculos usada pelos tropeiros brasileiros para todo gênero de carga. Fiz no ato um slide da cena impactante e o escaneei para postá-lo abaixo.

Porco comerciado na feira de Chapada do Norte

Perguntei se o leitão já tinha sido vendido, ao que o caboclo disse que sim, que o comprador estava por ali, feira afora, mas que já voltava. Santíssima tranqüilidade! Inexperiente e etnocentrado, foi então que arrisquei a questão estapafúrdia: “e qual foi o preço que vocês acertaram?” O tipo demorou alguns segundos para abrir a boca, num “flash” de desconfiança, mas afinal respondeu, mineira, matreiramente, com aquela calma, aquela naturalidade que possuem e de repente nos deixam desarmados: “Aaah, sô! Iss’aí nóis num cumbinem’ ainda não”.

Que tremendo tapa na cara! Vender, já vendeu, mas isso aí, o preço, seu moço, isso que parece tão obviamente importante, ainda não foi tratado, um sinal muito simples mas muito claro de que essa negociação entre pretos pobres da feira de sábado de Chapada do Norte, naquele inverno de 1998, possuía uma abrangência e uma organicidade inexistentes na mera troca entre um bem material despersonalizado e a moeda geral que tudo nivela, achatando.

Pois bem, enquanto o mundo mergulha a sua volta no buraco negro das especulações financeiras, Dona Elsa ainda se rege por tais leis comunais muito antigas, na verdade, constitutivas de nossa humanidade.

Para começar, sustentou com os próprios braços os filhos naturais, já numerosos, em conjunto com mais de cinquenta outros que alega ter adotado e criado, ao longo da vida, até o ponto em que necessitou passar os cuidados desse verdadeiro orfanato à Santa Igreja Católica.

Além de atuar em várias frentes na oficina do barro de Leonardo, possui na própria casa um espaçoso, embora pouco sofisticado, ateliê de costura, onde produz peças para vender, para remendar na base da camaradagem, para reformar e doar a quem precisa, para paramentar os bonecões que acompanham a festa do Boi Janeiro ou ornamentar o presépio, todo fim de ano, em honra a Baby Jesus.

Na sala da frente existe uma pequena exposição de obras suas, de amigos ou de associações de artesãos que ela procura ajudar por ajudar, sem recompensas, sendo sabido que sua figura, muito conhecida, centraliza e atrai compradores.

São ofertas de grande variedade, como vemos nas fotos: barquinhos de palito de picolé montados pelos detentos da cadeia pública, oncinhas que o amigo Dema esculpe na madeira e ela acredita valorizar ao recobri-las de estampas tigradas, estrelas multidimensionais feitas de placas de papelão, primeiro forradas de retalhos de tecido e depois costuradas, onde deixa uma fenda, difícil de notar, para inserir moedas como num cofre, brechinha que me desafia a encontrar mas, antes que eu tente, mostra ela mesma, orgulhosa, elétrica como uma menina.

Instrumentos novos para o Boi JaneiroTudo indica que Dona Elsa é também um dos principais suportes do Boi Janeiro, pois guarda e reforma os principais implementos do grupo que desfila pela cidade nos primeiros dias do ano. Estava exultante em minha visita de fins de dezembro de 2010 ao exibir os instrumentos que tinha acabado de conseguir para animar a festa, dias depois: violas, pandeiros, atabaques e caixas de guerra, bordas de aço reluzindo de novo, tudo comprado com dinheiro gordo que obteve junto a um dos raros empresários locais, de quem precisou infernizar a vida para arrancar o bem comum imaterial.

Além disso, quando acha necessário, forma um grupo diminuto com integrantes da batucada e partem para visitar o hospital da cidade onde colaboram na cura dos enfermos com vigor de dança e injeções de poesia.

Naquele dezembro encontrei-a na primeira manhã já costurando, mas abandonou de imediato o trabalho para atender o estranho, pois já não se lembrava que a tinha visitado no ano anterior, pela primeira vez. Mas não demora e dispara a falar e pouco se importa que eu a filme e fotografe, assim mesmo do jeito como está, o que faria horror ao comum das mulheres, com uma lâmina de pêlos emplastrados postos de pé, no topo da cabeça, e uma capa de plástico negro protegendo a blusa dos produtos químicos que alguém tinha acabado de aplicar em seus cabelos brasileiros, meio pixains, para alisá-los, pois se preparava para uma festa de casamento.

Assim a vemos na foto, espécie de personagem dos quadrinhos de Angeli, a cabocla punk. Enquanto andava, matraqueando, gesticulando, mostrando objetos, abrindo caixas, eu a filmava, a capa esvoaçando, naturalíssima.

Dona Elsa Có

Em seguida fomos juntos a Leonardo pois ansiava para me mostrar o presépio, quase pronto, que montam todos os anos na sala da frente da oficina, local onde vendem parte de suas peças e também algumas de amigos.

Detalhes da obra aparecem nas fotos que selecionei.

Os reis magos, Maria, José e outros presentes, grandes peças de cerâmica de cerca de um metro de altura, ela mesma fez, ao longo dos anos, ou refez, quando se quebraram, pintando o barro queimado com tintas oleosas que as artificializam pois não percebemos mais a matéria rústica de que são compostas.

Anões no presépioObviamente, não se trata de um presépio qualquer mas do presépio de Elsa Có onde é permitida a presença de personagens de toda matéria, gênero e tamanho, incluindo aí alguns dos sete anões em pessoa, embora pareça que Branca de Neve não tenha sido convidada.

No galpão dos fundos Leonardo tinha colocado de pernas para o ar e trabalhava nas canelas de um dos animais que deveriam estar lá na frente acolhendo o Deus Menino. Observei, mas não estava capacitado para notar a imperfeição, foi preciso explicar: “num tá venu não? Mãe é doida, sô! Ela colocô nu burru ess’ calu aqui qui só boi tem atrás, pra cima do calcanhá, viu só?”

Dona Elsa Có queria por na cena natalina um muar com perna bovina: disparate da imaginação ou mutação divina?

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Para ler o quinto post, Lira Marques, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/12/13/cronicas-do-jequitinhonha-lira-marques-2/>

Para ler o sexto post, Marcinho, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2013/01/31/cronicas-do-jequitinhonha-marcinho/>

Crônicas do Jequitinhonha: Lira Marques

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraQuando o pesquisador de campo em antropologia está amparado, como eu estou, de conhecimentos limitados em matéria de psicologia e psiquiatria e mesmo que, somados os encontros de mais de uma década que tive com os artistas e artesãos de que tenho tratado nestas páginas, eu tenha tido um acesso, não superficial, mas ainda restrito, aos recantos mais íntimos da vida familiar e pessoal dessa gente, não pode arriscar, por risco de imprecisão, um diagnóstico a respeito de como a dança da doença e da saúde age sobre o corpo e a alma de cada um dos sujeitos que visita, em especial os assim denominados “loucos”.

Foto: Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Diante disso, minha maior preocupação na palestra de fins de setembro para que fui convidado, no CAPS Itapeva, basicamente, foi demonstrar o interesse, para a psicologia e para a psiquiatra modernas, da análise antropológica.

Que utilidade haveria para essas ciências da alma (dirigi o questionamento à platéia) estar pensando as importantes diferenças ambientais, laborais e sócio-culturais existentes entre o contexto da civilização artesanal indígena e campesina sertaneja e o contexto da civilização mecânica, urbana e eletrodoméstica em que a maioria, acredito, dos leitores desse texto está mergulhada? O estudo dessas diferenças poderia ser um estímulo para tentarmos entender juntos o fenômeno da inserção social e produtiva do “louco” com foco no aspecto da saúde?

Claro, não estamos operando aqui com a apologia do estilo de vida de índios e camponeses, coletores, caçadores, mineradores primários, artesãos e lavradores, com tudo o que ele implica em termos de rudeza, enfrentamento pesado dos elementos e limitações impostas pela ausência de certos refinamentos que dependem da educação formal, embora procure demonstrar, com os exemplos que estou trazendo, as sutilezas particulares que esse estilo possui.

Quem, por exemplo, uma vez as tendo adquirido, poderia se privar das luzes da indústria cinematográfica ou do instrumento do piano, de lenta evolução tecnológica e, tantas vezes, de produção artística esmerada? E porque, para apreciar tais finesses, temos que abrir mão da transcendência simbólica, da conexão cósmica, do potencial estético, da compreensão ativa da matéria e da fortaleza física em que está implicado o trabalho artesanal de base?

EFoto: Coleção de tinturas de terra mais, estamos observando, nesta sequência de postagens que visam aprofundar os temas da palestra, a seguinte evidência: o acesso universal, no ambiente comunitário sertanejo, a recursos primários de técnica e linguagem artísticas pode levar certos sujeitos a níveis surpreendentemente elevados de expressão pessoal e trabalho criativo, a provar que o solo é, via de regra, fértil o bastante, sendo necessário apenas, claro, primeiro, cultivá-lo e, depois, minimamente, prover a sede e a fome com produção continuada e um máximo possível de retorno econômico.

Nada mais ilustrativo nesse sentido do que o caso de Lira Marques.

Assim como Noemisa, de que falei na semana passada, Lira é herdeira da velha tradição, de origem camponesa européia, ameríndia e africana, das paneleiras do sertão brasileiro, um misto que resultou, de todo modo, numa técnica rústica bem padronizada, disseminada em vasto território, com idênticos métodos, implementos, instrumentos e tipos de utilitários produzidos.

No link do fim do texto podemos ter uma idéia de como uma dessas artesãs de tradição centenária trabalha, assentada no chão de terra batida de sua casa de pau-a-pique.

Porém, diferentemente de Noemisa, de Ulisses e dos Juaquis da Fulia, de quem tratei nas últimas postagens, Lira foi criada, predominantemente, no ambiente urbanizado de Araçuaí.

Certo, esta como as demais cidades que conheço nesses sertões, como a boa parte das pessoas que vivem nelas, ainda estão muito ancoradas em ambiente rural, embora se vejam, a cada ano, mais desarraigadas, em virtude dos ventos da modernidade que avançam, inexoravelmente e sobretudo em seus aspectos mais deletérios, sobre um meio especialmente vulnerável à urbanização desordenada e à cultura individualista, consumista e massificadora que constitui a espinha dorsal do novo sistema.

Em tempos assim tumultuosos e desencantados, figuras da estatura de Lira Marques são verdadeiros botes salva-vidas para os que estão a seu redor e ao nível da comunidade.

Em minha última visita, três anos atrás, estava especialmente empenhada em pôr para funcionar um museu de artefatos antigos da cultura do vale e de obras de artistas regionais diversos.

Foto: Máscara de inspiração africanaIncontáveis são os cursos que já deu, espontâneos ou remunerados, de cerâmica e pintura, para os “seus” e para os “de fora”, conforme a arte econômica do sertanejo pobre de utilizar dos recursos baratos que estão à mão, para lhes agregar valor, com habilidade, se beneficiando do tino comercial desenvolvido no ambiente urbano.

Além disso, Lira, vez por outra, veste a personagem de roupas de chita e trancinhas juvenis com que atua no coral Trovadores do Vale, de que foi uma das fundadoras, faz quase quarenta anos.

Ela e Frei Chico, padre holandês já pra lá de brasileiro, mantêm, há décadas, rica e produtiva amizade, e realizaram uma vasta pesquisa da cultura do Jequitinhonha, sobretudo de seus cantos e danças populares. Adaptando para o palco essas tradições de roça e de rua, os dois vão construindo o repertório do grupo coral, com o que as mantêm vivas do modo possível.

Nas viagens que fazem juntos, estão sempre atentos às cores das terras de cada local por onde passam: grotas esbarrancadas, margens de rio, recortes de máquina à borda de rodovias em construção. Recolhem amostras, levam para casa, a mestra de ofício faz seus testes e, se aprovadas, as dilui em água, dentro de garrafas pet de dois litros que ornamentam, disciplinadas, muretas e estantes da oficina caseira onde trabalha, ao invés de boiar por rios e mares. Foto: Seres de sonhoQuando precisa das tinturas, mistura um pouco à cola Tenaz, fixador barato, e aplica sobre pedronas de quartzo que, por milênios, foram arredondadas e polidas pelas torrentes do Araçuaí. Também as utiliza para desenhar sobre papel Kraft e uma variedade de suportes de baixo custo, compondo as imagens de seres de sonho que navegam nos vendavais de Saturno como as reproduzidas na foto ao lado.

Se tomássemos pelo que vemos na casa de Lira, não acreditaríamos que se trata de pessoa tão engajada em atividades de relação construtiva.

A chegada de visitas, clientes, curiosos e pesquisadores é sempre esperada onde se encontre o artesão de fama, mas o clima da casa de Lira, no mais das vezes, é taciturno, janelas e cortinas semicerradas. Alguém bate palmas, uma irmã, um sobrinho demora a dar as caras na varanda e chega de mansinho, com poucas palavras e sorriso nenhum nos lábios, a demonstrar que ali mora gente cuidadosa e desconfiada.

Nas inúmeras moradias que visito em todo o Jequitinhonha, em geral, quanto mais sou conhecido, mais calorosamente costumo ser recebido, entre esses mineiros de efusão quase baiana. Mas é sempre difícil para mim chegar à porta de Lira Marques.

Suspeito que faça uso de medicamentos psiquiátricos, não sei dizer quais deles e, caso os utilize de fato, não tenho como medir seus efeitos, piores ou melhores.

Lira está hoje na casa dos sessenta, não é muito idosa. Mas quase nunca me reconhece à primeira vista, não importa quantas vezes retorne. De todo modo, sempre, me convida e me conduz até a oficina, nos fundos. Atravessamos toda a casa em silêncio, nos instalamos, longe do centro social, que pertence à família, e só então podemos ter nossa conversa, em particular. Porém, nem sempre permite que ative minha câmera de vídeo para filmá-la enquanto fala, embora goste que eu fotografe as peças expostas e aFoto: Pintura de tons de terra sobre pedra do Araçuaís que foram registradas e dispostas, creio, desde os anos 1970, num álbum que possui. Passamos então à entrega do presente de fotos que fiz na visita anterior, jogo na mesa outras referências de praxe, é como um ritual, devagar ela vai se lembrando de quem se trata e, daí em diante, vai-se fazendo, aos poucos, mais falante e acolhedora.

Muito se discute a respeito das diferenças acaso existentes entre o artista e o artesão. Eu particularmente não as considero diferenças de grau, mas de oportunidade. Como o artesão não pode dar-se o luxo de vender suas peças nos preços elevados que o artista “consagrado” obtém nos mais ricos mercados, vê-se obrigado a reproduzir os temas de sua criação que, nos sucessivos testes de aceitação junto ao comprador, acabam se fixando como os produtos mais rentáveis. É, no mais das vezes, uma questão de sobrevivência, não de competência em matéria de criatividade. Mas é também uma armadilha, na medida em que os modelos “de sucesso” precisam ser tão repetidos que podem agir como entrave a novas experimentações, as quais constituem sempre um risco em termos comerciais.

É o que vejo acontecer com diversos “cronistas do barro” que conheço, como Noemisa de Caraí, João Alves de Taiobeiras, Leonardo da cidade de Jequitinhonha ou Paulo, do distrito de Guaranizinho, que devem se prender à reprodução de seus temas mais famosos se querem se manter e exercitam com parcimônia a inventividade.

Lira, contudo, é um caso especial, considerando que partilha, em certa medida, de fontes de alta cultura, de práticas inovadoras e do acesso a um mercado talvez um pouco mais seleto de objetos de arte.

Foto: eça de cerâmica de apelo comercialAssim, para fazer a renda segura, do dia a dia, ela possui seu rol de peças comerciais, de valor atrativo, como as pinturas de terra sobre o kraft, as máscaras de parentesco africano ou as figuras riscadas em placas de cerâmica, magníficas, como as que estão nas fotos que selecionei.

O diferencial de Lira é que ela faz questão de reservar um certo tempo à criação gratuita e pode ser equiparada a qualquer grande artista assim considerado.

Contou-me que possui também algumas peças autorais que reproduz, mas que as refaz apenas em raras oportunidades, e nunca da mesma forma, menos por necessidade financeira e mais por ânsia de expressão de momentos únicos ou de sentimentos pontuais.

Levei à palestra e passei pelas mãos dos presentes um exemplo deste tipo de obra artístico-artesanal, a que a Lira Marques deu o nome de “Me Ajude a Levantar”.

O título se justifica, ela conta, diante do seguinte fato que lhe ocorreu.

Um dia bateu a sua porta uma nativa da região, demonstrando muito interesse em conhecer sua arte.

Certos sertanejos não possuem o menor polimento e podem ser bastante grosseiros e invasivos.

Na certa, esta pessoa estava esperando encontrar algo semelhante à boneca caprichada que aparece na foto abaixo, da grande mestra Isabel de Santana do Araçuaí, tinta de sutis tons terrosos, que é a marca do dito “artesanato do vale”, tornou-se a menina dos olhos de atravessadores, lojistas e decoradores à caça do lucro fácil e donos de pousada no encalço do bibelô padrão exótico ou constitui um prato cheio para o jornalista genérico, rasteiro e mistificador.

Foto: Boneca de Dona Isabel de Santana do Araçuaí

Lira Marques, todavia, possuía algo bem diverso a oferecer à tal mulher: criaturas de planetas fluidos planando em cristais roliços de riacho, grafismos de sentidos íntimos intraduzíveis, impressos em papel grosseiro, cenas de aborto, pesadelo e desastre, fome, morte, seca e enchente moduladas em barro com muito mais zelo pela simples força da expressão do que pelo mero atrativo ornamental.

Uma dessas peças estão representadas, abaixo, em fotos de fotos que fiz do album de Lira.

Foto: AbortoAo se deparar, porém, com esse rol de estranhezas e má-formações, a visita disparou: “Maiz intão é ess’ cu suju c’a sinhora tein pra mi mostrá?”

Cu sujo, uma expressão local muito rude e ofensiva que designa algo mal acabado ou feito de forma porca, relapsa.

A ofensa foi tão súbita e despropositada e pareceu tão brutal ao coração de Lira que a fez mergulhar num processo depressivo de que levou muito tempo para se recuperar. Ao final, certo dia, uma idéia a iluminou. Não se fez de rogada, tratou de pô-la em execução: buscou o barro na mina, empedrado, trouxe pra casa onde o bateu, forte, no pilão, peneirou, temperou o pó com água, compôs o bolo, daí modelou, poliu e queimou seu primeiro “Me Ajude a Levantar”.

Foto: Um dos primeiros Me Ajude a LevantarO tema retrata, a princípio, uma figura humana deitada de barriga para cima, com os braços junto ao tronco, no momento em que começa a subir a própria cabeça antes de poder aprumar o corpo, ou seja, no começo de seu soerguimento. Lira conta que foi assim, no ato desta criação, que teria começado a superar a depressão.

Alega também que, quando sente a necessidade, retorna ao modelo, mas em tamanho e disposição diversas. Nas fotos, um dos mais antigos, em preto e branco, está posto ao lado de outro, mais recente, que Lira me deu.

Foto: Me Ajude a Levantar que ganhei de presenteSim porque, na terceira ou quarta visita a sua casa, encontrei dentro de um pote uma estatueta pequena que, à primeira vista, me chamou fortemente a atenção. Quando a retirei dentre outras peças, fiquei tão sinceramente admirado, pelo que parece, que Lira me presenteou com a obra, um de seus poucos e assombrosos “Me Ajude a Levantar”.

O ato só fez aumentar meu espanto, já que, sentindo os hábitos reservados daquela artista fabulosa, não podia imaginar que pudesse tão repentinamente responder a minha surpresa e admiração, num movimento típico de quem se deixa levar por forças psíquicas mais essenciais e vitalizantes do que as que governam os interesses materiais de superfície.

Coiz’ di lôcu.

Foto: Lira1
Para acessar o vídeo, clique no endereço: <http://youtu.be/uHJnGF8xRS0>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Agregando notícias #6

Exposição apresenta obras de irmãos precursores do modernismo brasileiro

Os Dois Irmãos Pré-Modernistas Brasileiros é o nome da exposição que está em cartaz no Museu Afro Brasil, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. João e Arthur Timótheo da Costa foram dois artistas negros, cariocas, que rodaram a Europa e uniram tendências estéticas que culminariam no modernismo dos anos 1920.

O trabalho dos irmãos teve grande reconhecimento. Em 1911 foram selecionados pelo Foto: Arthur Timótheo da Costagoverno para ornamentar o Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Turim, na Itália. Em 1919, Arthur ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Belas Artes na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, os irmãos trabalharam na decoração do Salão Nobre do Fluminense Football Club.

Segundo consta, antes de alcançar o ápice de sua carreira, João Timótheo foi acometido pela insanidade e, assim como o seu irmão, passou os últimos anos de sua vida internado no Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro.

A exposição funciona de terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada grátis.

Messias, psicólogo e escritor conta como voltou a andar depois de ter ficado tetraplégico

Messias Fernandes tinha 14 anos quando fraturou quatro vértebras ao mergulhar em um rio. Ficou tetraplégico, superou as dificuldades e voltou a andar. Hoje é psicólogo e, no último dia 3 lançou o livro Renascendo de um Mergulho, no qual o autor trata das dificuldades na reabilitação e na superação das dificuldades e das sequelas deixadas pelo acidente.

Na matéria de Clarissa Thomé, do Estado de S. Paulo, Messias afirma que, “como psicólogo, tenta mostrar para os médicos que eles não trabalham no terreno da certeza. O discurso precisa ser técnico, mas muitas vezes o paciente não está preparado para ouvir. Alguns médicos, diante da própria impotência, usam esse discurso de que não há mais saída. Ninguém tem o direito de tirar a esperança do outro.”

Vale a pena ler a matéria na íntegra, com mais detalhes sobre a incrível história de Messias: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,messias-o-tetraplegico-que-voltou-a-andar-conta-sua-saga-em-livro–,964842,0.htm>

Marcelo Yuka no Caminho das Setas

Foto: Marcelo YukaMarcelo Yuka no Caminho das Setas é o nome do documentário de Daniela Broitman, lançado recentemente, que conta a vida do ex-baterista da banda O Rappa. Yuka foi atingido por três tiros em novembro do ano 2000 e ficou paraplégico, tema que é profundamente discutido no filme que, além disso, fala de trabalho, preconceito e superação.

Para ver o trailer oficial: <http://www.youtube.com/watch?v=uQcvRESAFeI>

Prevenção ainda é a melhor maneira de combater o mal de Alzheimer

Uma caminhada de cerca de 8 kilômetros por dia ajuda a combater o mal de Alzheimer e outros tipos de comprometimento cognitivo, segundo o Dr. Cyrus Raji, pesquisador do Departamento de Radiologia da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

Segundo o Dr. Raji, uma estilo de vida ativo estimula o crescimento do cérebro, “O volume é um sinal vital para o cérebro, quando diminui, significa que as células do cérebro estão morrendo”. A pesquisa demonstrou, ainda, que pessoas ativas mantém uma boa memória por mais tempo.

Leia mais sobre esse assunto em: <http://oglobo.globo.com/saude/um-estilo-de-vida-ativo-pode-desacelerar-mal-de-alzheimer-6811027#ixzz2ECgZqeM9> e em: <http://www2.rsna.org/timssnet/media/pressreleases/pr_target.cfm?ID=508> (inglês).

O mal de Alzheimer atinge mais de 35 milhões de pessoas ao redor do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Dilma é vaiada e, em seguida, aplaudida

Brazil's President Dilma Rousseff gestures during a news conference after a meeting with Venezuela's President Hugo Chavez at Planalto Palace in Brasilia June 6, 2011. REUTERS/Ueslei MarcelinoA presidente Dilma Rousseff foi vaiada ontem em Brasília, na 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (que começou no dia 3 e vai até o dia 6 de dezembro), por usar a expressão “portador de deficiência” durante o seu discurso.

Logo em seguida, Dilma pediu desculpas: “Portador não é muito humano, pessoa é, né?”, afirmou. Após a correção, ela foi aplaudida pela platéia.

Antônio Ferreira, secretário nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, minimizou o ocorrido: “A reação foi por um desejo de correção, foi pedagógica”, disse, completando que “se portasse uma deficiência, a deixaria em casa”.

Fonte: Folha de São Paulo, 5 de dezembro de 2012, Cotidiano C4. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/81993-dilma-e-vaiada-ao-usar-a-expressao-portador-de-deficiencia-em-discurso.shtml> Acesso em 5 dez. 2012.

Para saber mais sobre a 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, acesse: <http://www.onu.org.br/3a-conferencia-nacional-dos-direitos-da-pessoa-com-deficiencia-em-brasilia-comeca-hoje-3-em-brasilia/>

Crônicas do Jequitinhonha: Ulisses e Noemisa

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo o desenvolvimento dos temas da palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de alguns exemplos de “loucos” artistas do barro do Jequitinhonha, a começar por Ulisses e Noemiza.

Num dia de julho de 1997 eu e Matheus Cotta, um grande amigo, com quem então viajava, conhecemos Ulisses de Caraí e lhe demos uma carona até o fundão do vale do Ribeirão Santo Antônio, onde mora, uns vinte quilômetros subindo e descendo as cristas das altas montanhas das nascentes do Médio Jequitinhonha. Matheus dirigia.

Esse sertanejão de metro e noventa, cabeça enorme, muito hirto e impositivo, quando nos viu, nos encarou de frente, pesado, analisando, detrás de óculos grandes e fundos, e o conjunto, para os jovens tenros de sertão, metia medo.

Precipícios sim, precipícios não, pontes, mataburros, suadeira, muita poeira, mas está muito melhor do que navegar pelas estradas de janeiro, ensebadas de lama, com que não teríamos chegado e muito menos regressado da grota medonha que o homem e sua família habitavam.

Não gosta que ninguém seqüestre em aparelhos eletrônicos o trovão de sua voz, muito menos sua imagem, já de cara, na cidade, nos avisaram. Tudo bem, tudo bem, não tinha necessidade não, o importante era a conversa, a aventura.

Acontece que, ao longo da viagem, da boca do sujeito jorrava uma filosofia da natureza de sabor tão peculiar (veneração de lajedo de pedra, conjuro de espírito de plantas, conversa de águas de riacho, etc.) que, assentado a sua frente, no banco do passageiro, não resisti e, cuidadosamente, saquei da bolsa o gravador, pensando que, no fluxo egocentrado do discurso, o velho caboclo não fosse perceber o “clic” do botão de “record”.

Foto: Peça antropomorfa de Ulisses - 1998Mas o gigante de óculos fundo de garrafa escutava muito bem sim senhor e estava perfeitamente atento por detrás da língua solta, pois mal a maquininha dos infernos deu o sinal, ele estacou, parou, abrupto, de falar. Ai, ai, ai, tremi por dentro… O silêncio insistia… Para quebrar o gelo, tolo, arrisquei uma perguntinha sem graça… Por trás de minhas costas, o vazio sufocava… Por alguns segundos torturantes, esperei…E era o nada… Por fim, de súbito, Ulisses decretou: “ô seu moçu, u negóc’ é u siguinti, ôce faz favô di disligá iss’aí purque iss’aí é u passadu, iss’ aí é a morti!” E ponto.

Da única outra vez que vi Ulisses, eu vim sozinho. Porém, em certo ponto da estrada, o peso de meu automóvel fez ruir um velho mataburro e ali ficamos, empacados. Tentei de tudo, sem solução. Então, resolvi andar até a casa do artista, mesmo temendo que me reconhecesse como o idiota traidor do microfone. Reconhecer, reconheceu. Mas como foi, afinal, que me acolheu? Adivinhem…

Ao contar o ocorrido, Ulisses e um genro seu, que estava por ali, pois o caboclo é dono de suas horas, voltaram prontamente comigo ao local do acidente e passaram a manhã iFoto: Visões de Ulisses de Caraínteira lutando com a cabeça e com os braços para tirar da vala meu trambolho de aço. Não se renderam enquanto não venceram o desafio, uma batalha, sob um sol de fritar os miolos. E depois, de quebra, me ofereceram um almoço de levantar defunto de que não me esquecerei enquanto vivo for.

Ulisses, ele mesmo, faleceu, faz poucos anos, e foi parar nos céus de Dali e Miró, mas por décadas sua mente ardente e suas mãos poderosas materializaram, em pesadas esculturas de argila, as imagens míticas que povoavam sua fala, como vemos no exemplo da foto.

Alguns quilômetros riacho abaixo, onde só era possível chegar a pé, até pouco tempo atrás, por uma trilha saborosa, em meio à mata, com direito ao luxo de sinfonias de passaredo e aromas insólitos, profundos de surpresa, ainda vive a prima de Ulisses de quem hoje quero falar com mais detalhes: Noemisa Batista Santos.

Clima quente, pés criados no chão, roupa pouca de chita pobre, essa coisinha mirrada deve estar na faixa dos quarenta quilos, o porte de uma criança magra, não mais. Possui gestos elétricos, mas firmes, pois é roceira, toda concretude e trabalho duro.

E não é como Ulisses, não viaja nas idéias não. Contudo seus olhos nunca batem com os nossos, estão sempre divagando, para baixo, para cima, para os lados, e suas frases rápidas, que saem como flechas, arremessadas no ar, a esmo, sem alvo, embora só tratem das estreitezas cotidianas, são coisa de outro mundo, pois falam uma língua roseana que, meio sem querer, acaba que se faz entender.

Observemos como procede Noemisa, no vídeo disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be>, observemos como o enigma de sua fala e a dança miúda de seus gestos habituais pode ser capaz de produzir o realismo fantástico mais puro.

Foto: Interior da casa, o fundo agora é verde água - 2010

Noemisa “ficô pra tia”, como se diz. Por que? Por imposição da mãe e das irmãs mais “sãs”? Porque talvez, na falta de uns parafusos, jamais tenha sido desejada como mulher, pleiteada como esposa? Difícil saber.

O fato é que ficou para ela, a caçula, a tarefa de uma vida de cuidar da irmã doente. Embora visite essas duas há mais de quinze anos, jamais vi a cara da outra, a “louca” propriamente dita. É sempre mantida presa, quando estranhos se aproximam, oculta no quartinho dela, especial, pois tem porta e corrente com cadeado, no mais, inúteis onde não há o que cobiçar.

As casas da roça por aqui não têm forro e os construtores não parecem ver motivos para subir as paredes internas, de adobe, até o nível do telhado, e enquanto converso, na sala ou na cozinha, ao lado, com a dona da casa, voam lá de dentro da clausura, Foto: A casa feita em 2001 registrada em 2003como que vindos do limbo do purgatório, sentenças secas, exigências ríspidas, palavrões e impropérios de toda estirpe, quando não, em meio ao caudal raivoso, de repente, surge uma modinha sertã das boas, das de sabor antigo, e muito bem cantada, tocante, carregada do espírito das velhas folias, e olha que por aqui esses folguedos já não passam há muito, muito tempo.

Esse canto sem face, de fogo louco, encantado mas agressivo, que soa, ao mesmo tempo, mecânico e sentido, é o pano de fundo dos encontros anuais que tenho com Noemisa, e produz no ambiente da casa uma estranheza que poderia muito bem se achar num livro de Gabriel Garcia Marques mas, juro, está na realidade mesma, nua e crua.

Em janeiro de 2011 visitei Noemisa pela última vez, poucos dias antes do Natal, e a encontrei, como na foto ao lado, mirando o quintal da janela da cozinha, tão pequenina, enquanto lá fora o sol estourava. Observem, o gnomo traz na cabeça uma boina vermelha de Papai Noel. Só Deus sabe onde a conseguiu, em que outra dimensão. Só para Deus ele está trajando o emblema, nessas solidões onde o calor impera mas o tempo está congelado. A cena parece patética, mas é mais complexa, é espantosa: intrigante e perturbadora.

Noemisa deveria, por tradição, ter herdado da linhagem materna a arte da paneleira e fazer grandes potes, bules, buiões e cuscuzeiras. Mas, sendo a mais nova, franzina e “abestaiada”, na crença da mãe e irmãs, ficou restrita às tarefas práticas de catar lenha miúda, preparar bolos de argila ou fazer a comida enquanto as outras subiam as “vasias”. O produto valia uma ninharia mas era o que tinham para obter alguns trocados, um escambo pouco vantajoso na feira de sábado ou nas mãos dos tropeiros acaso de passagem pelos rincões esquecidos onde moravam.

Foto: Crônica do sertão, o pássaro na boca da cobra coral - 2002Como aconteceu com outras chamadas “bonequeiras do Jequitinhonha”, a maioria filhas ou netas de paneleiras, a família permitia que Noemisa, desde criança, colocasse no forno, entre os utensílios, uma ou outra boneca para brincar ou vaquinhas e burricos para montar um presépio rústico, improvisado.


Os anos se passaram, as vasilhas de barro perderam a concorrência para as de ferro e alumínio, cada vez mais baratas, leves e quase indestrutíveis, a manufatura de potes e panelas foi à falência nestas e em outras paragens, e a arte teria desaparecido com o antigo comércio não fosse a loucura de Ulisses, Noemisa e outros que transformaram brincadeira de infância em atividade séria e remunerada, voltada para um público distante, mas que aos poucos passou a influenciar os sertões, na esteira da modernidade.

Desde então, desde meados da década de 1970, e pouco a pouco, os dois mudaram, com muita paciência, esforço e inventividade, o destino do Ribeirão Santo Antônio. As próprias irmãs de Noemisa, Maria e Santa, entre outras, da comunidade, passaram a copiar, sem o mesmo encanto, as doidices que a menina impunha ao barro.

De mera assistente de ofício ela se tornou, assim, o centro de atenções inusitadas: compradores abastados, os mais ousados, que se arriscam nessas lonjuras, brasileiros e alguns estrangeiros, lojistas, jornalistas, pesquisadores. E foi assim que tornou-se o arrimo financeiro da família, com o que vem ajudando a criar as sobrinhas e um filho que uma delas, muito cedo, jogou no mundo, esse mesmo que aparece na filmagem e na foto abaixo.

Apesar da “fama”, Noemisa jamais conseguiu se ver livre dos mesquinhos atravessadores locais, que rondam à procura de uma oportunidade de lucro fácil. E quando a clientela some, por meses a fio, e é preciso remendar uma cerca ou dar capina na “rucinha” de milho e mandioca, pode se ver obrigada a trocar uma de suas peças por um dia de trabalho de algum rapagão da vizinhança que tem mais liberdade para ir negociá-la, da melhor forma possível, no comércio das cidades mais próximas.

Apesar das dificuldades do dia a dia, sobra tempo e invenção suficiente para deixar a casa bem branquinha com uma espécie de cal natural, a Tabatinga, e depois pintar sobre as paredes de dentro e de fora, com óxido de ferro, corante vermelho com que também tinge suas peças de barro, os magníficos desenhos de arranjos de vasos e flores.

Em geral, Noemisa faz, com suas obras, a crônica da vida sertaneja: o noivo e a noiva vestidos para o casório, a velha fiando algodão, a mula que carrega de cada lado da cangalha um feixe pesado de lenha, o caçador e seus cães que encurralaram uma onça na árvore e estão por abatê-la, a cobra coral que engole um passarinho, o caboclo que está a ponto de enfiar a faca no porco, algumas representadas nas fotos que selecionei.

Foto: Cronica do sertão, sacrificando o porco - 2011Mas em seu repertório existem certos seres, quase identificáveis, como o suposto cão que ganha algo de criatura extraterrestre por um pequeno exagero de feições ou pela pintura geométrica estilizada que cobre seu corpo e existem certos arranjos de um simbolismo muito pessoal cujo significado apenas a autora poderia nos explicar em sua língua de outras eras, se estivesse disposta. Podemos vê-los nas fotos abaixo.

Tudo considerado, penso com meus botões: o que teria sido de Ulisses e Noemisa caso tivessem sido criados como a maioria de nós, que compartilhamos esse texto, habitantes da grande cidade, alheios à rotina laboral camponesa, de grande esforço físico, domínio ambiental, abrangência cósmica e implicações simbólicas? O que lhes teria acontecido se tivessem sido privados da diversidade e da intensidade dos contatos humanos, características das comunidades rurais sertanejas? E se não tivessem nutrido suas almas dos referenciais estéticos da herança católica embaralhada à mística cabocla, Foto: Cão extraterrestre - 2002de traços negros e índios subterrâneos? E se não tivessem sido a platéia atenta dos contadores de “causo” ou se inspirado, na infância, nos poetas cantadores da Folia do Divino que passou por suas casas? Como teriam vivido, então, com um mínimo de dignidade? Como teriam encontrado os recursos para gerir e dinamizar os poderes fantásticos de sua loucura?

Num tempo em que a psicologia passa por um processo de psiquiatrização de conseqüências catastróficas e sofre o ataque de uma indústria farmacêutica de alta lucratividade que, por isso mesmo, pretende impor às universidades mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos, uma visão biologista da psiquê humana, o que, no fundo, traduz o velho e cansado moralismo bíblico que assevera que todo o mal reside no indivíduo, exemplos como os que acabo de dar, espero, são suficientes para demonstrar enfaticamente o quanto o ambiente natural, as tradições, o trabalho diversificado, o intenso convívio comunitário e o exercício da arte aparentemente mais trivial podem mudar por completo o destino pessoal de quem, por fatores genéticos tantas vezes insondáveis, é candidato ao sofrimento psíquico. E demonstrar que essas potências mesmas, libertas, podem se tornar o pilar material e estético de uma comunidade.

Foto: Noemisiahttp://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Agregando notícias #5

“Super Normais”, uma tirinha sobre humanidade e acessibilidade


“Super Normais” é uma tirinha que fala sobre questões humanas e está em circulação na internet divulgando temas sobre inclusão, cidadania e respeito aos direitos. Uma vez por mês, um grupo de amigos de Curitiba se reúne para conversar e criar as tirinhas. Segundo o perfil do grupo em uma rede social, as histórias tratam de “Filosofia, inclusão e vicissitudes da vida sob o ponto de vista de três personagens espelhados em pessoas reais, que acham que ter uma deficiência é super normal.”

O desenhista do grupo, Rafael Camargo, que não é deficiente, relata: “O que foi um soco no estômago, na verdade, foi que o que eles estavam mostrando para mim não tinha nada a ver com deficiência. Tinha a ver com respeito, com civilidade, resiliência. Eu falei: nossa isso é muito bom. É muito verdadeiro”.

Para Mirella, uma das integrantes do grupo, “Pessoas com deficiências normalmente são retratadas como super-heróis, pessoas que superaram milhares de desafios, então, são além do normal, ou como coitadinhos, dignos de pena. Então, a gente queria fazer este paralelo (…). Somos pessoas supernormais com histórias, como qualquer outra pessoa”.
Para ver mais tirinhas curta o perfil do grupo no facebook em: <https://www.facebook.com/supernormais>

Cursos do IPUB – UFRJ em especialização em Saúde MentalLogo Ipub

Até 11 de janeiro de 2013 estarão abertas as inscrições para seleção de candidatos para cursos de especialização do IPUB/UFRJ. São sete cursos:

1) Atenção Psicossocial na Infância e Adolescência;
2) Neuropsiquiatria Geriátrica;
3) Assistência a Usuários de Álcool e Drogas;
4) Clínica Psicanalítica;
5) Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes;
6) Psicogeriatria
7) Terapia de Família


Seminário Anual de Saúde Mental
Acontece no Rio de Janeiro, nos dias 13 e 14 de dezembro de 2012, nos auditórios Auditórios 111 e 113 da UERJ. Veja a programação:

Dia 13/12
9h – Mesa de abertura (Auditório)
10h – Conferência “A Cidade no Cuidado ao Usuário de Saúde Mental”
13h30 – Gupos temáticos
Ações Territoriais I: Crise e Matriciamento (Auditório 111)
Ações Territoriais II: Desinstitucionalização (Auditório 113)

Dia 14/12
9h – Mesa: Análise da Gestão de Saúde Mental (2009 – 2012) e perspectivas (Auditório 111)
13h30 – Mesa: Diálogos Intersetoriais – Uso de drogas na Infância e Adolescência (Auditório 111)

Federação Brasileira de Hospitais (FBH) perde causa ao tentar censurar livro e filme que retratam a realidade dos hospitais psiquiátricos no Brasil

Uma vitória da luta antimanicomial, foi como o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou a nota que anuncia a vitória, em primeira instância, sobre o processo no qual a FBH tentava censurar a divulgação do livro “A Instituição Sinistra – Mortes Violentas em Hospitais Psiquiátricos no Brasil” e o vídeo “Tribunal nos Crimes da Paz, o Hospital Psiquiátrico no Banco dos Réus”.
A ação judicial ressalta que “O livro e o vídeo tratam de uma crítica ao atual sistema brasileiro. Ou seja, trata-se de uma crítica construtiva que não visa ofender uma instituição psiquiátrica ou um profissional específico”.
Segundo divulgado na página do CFP, o Presidente do CFP, Humberto Verona, lembrou que a decisão favorável é também uma vitória importante que anima os defensores dos direitos humanos, pois há uma tentativa de alguns setores de criminalizar aqueles que defendem as violações de direitos humanos nesse país.

Debates em torno do DSM-5 no Rio de Janeiro


Imagem

Surfista brasileiro cego ganha telas de cinema

Derek Rabelo, um jovem capixaba de 20 anos já dividiu com Kelly Slater, Gabriel Medina e Mick Fanning e se tornou protagonista do documentário “Além da Visão”, que está sendo filmado por Bruno Lemos e Luiz Werneck.

Em entrevista ao Globo Esporte, Derek contou: “Eu sempre morei perto da praia, minha família toda surfava. Chegou um momento da minha vida que eu quis surfar, quando tinha 17 anos. Eu sabia que a galera estava indo surfar e ficava na vontade. No início, foi meio complicado, estressante. Eu tentava surfar todo dia, o treinador ficava sempre à disposição. A galera me dava muita força, incentivava. E eu consegui!”
Depois de aprender a surfar, Derek quis conhecer o Havaí para tentar surfar a Pipeline, conhecida por ser uma das maiores e mais perigosas ondas do mundo. “Pipeline foi a bênção de Deus na minha vida, fiquei “amarradão” em fazer isso. Foi uma situação muito diferente, água quentinha, altas manobras. O pessoal do Havaí me deu muita força, gostaram da minha história e deram paz para que eu pudesse surfar a Pipeline. Foi um momento muito maneiro também – explica Derek, que precisa da ajuda de outro surfista para orientá-lo, gritar e empurrá-lo na hora exata de entrar na onda.”

O documentário ainda não tem data para estrear, mas você pode conferir outras histórias de Derek lendo a matéria do Globo Esporte na íntegra em: <http://globoesporte.globo.com/radicais/surfe/noticia/2012/09/cego-brasileiro-destroi-limites-surfa-em-pipeline-e-ganha-telas-de-cinema.html>

Evento em São Paulo discute as interfaces entre a Saúde Mental e a Justiça

Cartaz

Do tropicalismo à cajuína: uma homenagem a Torquato Neto

“Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder”
(estrofe do poema Go back, de Torquato Neto)

Torquato Pereira de Araújo Neto (9/11/1944 – 10/11/1972) foi um poeta, jornalista e compositor, que esteve envolvido com a Tropicália, o Cinema Novo e o movimento concretista.

Foto de Torquato NetoTorquato escreveu o breviário “Tropicalismo para principiantes” onde defendia a ideia de uma música pop genuinamente brasileira. Como letrista, ele compôs em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Nonato Buzar, Edu Lobo, entre outros grandes de nossa música.

Também participou de alguns filmes na década de setenta e produziu o seu próprio filme como diretor e ator, o “Terror da Vermelha”, no qual Edmar Oliveira também trabalhou como ator e Arnaldo Albuquerque fez a câmera. Também como ator, Torquato atuou no filme “Adão e Eva”, uma produção de António Noronha, com direção de Carlos Galvão, roteiro de Edmar Oliveira e, mais uma vez, câmera de Arnaldo Albuquerque. Além disso, Torquato foi assistente do filme “Barravento”, de Glauber Rocha.

No final da década de sessenta, com o exílio dos amigos Caetano e Gil, Torquato foi morar em Londres com a esposa Ana Maria. Voltou ao Brasil no início dos anos setenta, mas se isolou do mundo e das pessoas, sentindo-se perseguido e tolhido pela “patrulha ideológica”. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo e rompeu diversas amizades.

Foto de Torquato NetoEm 1973 Waly Sailormoon organizou um livro com textos e poemas de Torquato, chamado “Torquato Neto, – os últimos dias de paupéria”. Nele, existe um capítulo intitulado “D’Engenho de Dentro” onde estão reunidos textos que Torquato escreveu durante o período em que esteve internado no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII – atual Instituto Municipal Nise da Silveira), situado naquele bairro. Nestes trechos ele revela um pouco da profundidade e dos matizes de seu sofrimento.

“Dia 07/10 – um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: ‘quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. É difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. É chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo’. O recorte acaba aí. Hoje, agora, estou fazendo tempo enquanto os remédios que tomei fazem efeito e vou dormir. Esse sanatório é diferente dos outros por onde andei – talvez seja o melhor de todos, o único que talvez possa me dar condições de não procurar mais o fim da minha vida”

Dia 7/4/71 – “Foi um caminhão que passou. Bateu na minha cabeça. Aqui. Isso aqui é péssimo, não me lembro de nada. // Eles não deixam ninguém ficar em paz aqui dentro. São bestas. Não deixam a gente cortar a carne com faca mas dão gilete pra se fazer barba. // Pode me dar um cigarro? Eu só tenho um maço, eu tenho que pedir porque senão acaba. Pode me dar as vinte.”

Um dia após seu aniversário de 28 anos, em 1972 na cidade do Rio de Janeiro, Torquato Neto cometeu suicídio. Depois de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás.

Em homenagem ao poeta, Caetano Veloso compôs a música “Cajuína”, como pode ser visto no vídeo que está acessível em <http://www.youtube.com/watch?v=S5NxSwkwx-o>. Na ocasião, Caetano estava em Teresina e foi visitar o pai de Torquato, que lhe serviu uma cajuína e depois lhe presenteou com uma rosa menina do seu jardim.

Hoje , no Rio de Janeiro, está em funcionamento o Centro de Atenção Psicosocial Caps Torquato Neto, situado no Cachambi.

Foto de Torquato, Caetano Capinan
Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinam.

Cogito
(Torquato Neto – 20/10/1970)

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranquilamente
Todas as horas do fim

Para saber mais sobre a obra de Torquato Neto, visite a página oficial clicando no endereço: <http://www.torquatoneto.com.br/>

Referências:
Torquato Neto – os últimos dias de paupéria. Organizado por Waly Sailormoon. Rio, 1973. Livraria Eldorado Tijuca.