Crônicas do Vale do Jequitinhonha: “folie” e estética

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraConforme prometido, passarei a desenvolver aqui, postando um texto por semana, o exposto na palestra que realizei no último dia vinte e nove de setembro no CAPS Itapeva, intitulada “Saúde Mental e Contexto Social: alguns Exemplos do Jequitinhonha”.

O filósofo e historiador francês Michel Foucault escreveu dois importantes livros cujos temas eu gostaria de aproximar, antes de mais nada, sem contudo me aprofundar nas sutilezas teóricas que os caracterizam: História da Loucura e Vigiar e Punir.

Certas práticas sociais tornam-se tão arraigadas que muitas vezes aparecem a nossos olhos como leis da natureza. Assim, parece muito óbvio à grande maioria de nossos contemporâneos o fato de que os ditos loucos, foras da lei e todo indivíduo que manifeste comportamento anti-social deverá ser excluído do convívio em sociedade através do confinamento, do isolamento, da prisão.

Ora, nem sempre foi assim. Nos dois livros que menciono acima, Foucault realiza uma exaustiva e profunda pesquisa histórica, fartamente documentada, com o intuito de desnaturalizar a idéia do internamento do “louco” e da prisão do “marginal”, demonstrando que trata-se não de uma lei natural e imutável mas de uma construção histórica, lentamente fermentada e pouco a pouco implementada na prática na Europa Ocidental desde a Idade Média, através da era clássica e nos primórdios da modernidade.

Foto do Vale do JequitinhonnhaPode parecer um pouco forçado comparar as regiões rurais da França do século XVI com os sertões brasileiros do século XXI, mas gostaria de me arriscar no aprofundamento da investigação histórica de Foucault e para tanto vou descrever uma cena com que me deparei numa de minhas primeiras viagens ao Jequitinhonha.

Estava andando pelas vielas dos subúrbios de uma daquelas típicas cidades sertanejas do vale, entre moradias de adobe caiadas de barro branco ou Tabatinga, de onde exala a fumaça de fogões a lenha e os dejetos das cozinhas, cheirando a sabão de cinza, correm pelos cantos das ruas, no mesmo lugar em que ciscam as galinhas e chafurdam porquinhos rústicos, em ambiente ainda marcadamente rural, quando me deparo, num terreno amplo, entre duas casas, com um matadouro a céu aberto.

Era uma cena impressionante. Atrás de um muro baixo, onde havia uma entrada aberta, sem portão, debaixo de uma varanda improvisada, num calor infernal, bem pouco propício à higiene, estavam dependuradas as duas metades de um boi que tinham acabado de matar. No chão de cimento grosseiro estavam espalhadas as entranhas do animal e para as bordas escorria um riacho de sangue que tingia todo o solo de vermelho vivo, brilhando ao sol.

Mapa do Vale do JequitinhonhaPara mim, ainda pouco acostumado aos modos caboclos, tudo isto era bastante chocante, mas logo percebi que, para os presentes, tratava-se de uma atividade das mais naturais, pois era possível ver a presença festiva, admirada, das crianças das redondezas que acorreram para apreciar o espetáculo e também por ali rondavam cães sarnentos a espera de um deslize de açougueiros e clientes que se apresentavam no momento propício para disputar os pedaços menos nobres e mais baratos, estando os melhores cortes reservados ao mercado pouco mais refinado do centro da cidade.

Esta imagem demonstra como, no ambiente sertanejo, tudo se encontra muito misturado, sendo ainda incipiente a compartimentação, o exclusivismo, as especialidades e as regras de higienização que caracterizam a vida urbana moderna.

E é nesse ambiente social e produtivo indiferenciado que a figura do “louco” se insere. Não podemos propriamente dizer que, nesse contexto, a loucura seja mais aceita ou melhor assimilada. Acontece que, nesse campo de indiferenciação, tudo acontece diante de todos e cada um encontra muito naturalmente o seu lugar, de tal modo que, em diversos casos, a loucura mesma torna-se um fator importante de produção de riqueza material e de potencialização estética que reverte ao conjunto da sociedade, como veremos pelos exemplos concretos de que estarei tratando, nas próximas semanas.

Foto da queimadinha
– A cachaça queimada com ervas e uma colher de açúcar produzem a
“queimadinha”, é fogo na certa. –

Caso alguém se interesse em aprender a cultivar a terra, degolar uma galinha, beneficiar farinha de mandioca, construir um pote de cerâmica, confeccionar e tocar uma caixa de guerra, cantar, basta observar o que, no dia a dia, está fazendo sua mãe, seu pai, seu vizinho ou outro membro qualquer da comunidade. Claro, num nível de produção muito básico, sem grandes requintes, o mais importante é que os meios de criação estão à disposição de todos.

Histoire de la Folie é o título original do livro de Foucault. A palavra folie, ou seja, loucura, folia, transe coletivo, nos remete à festa da Folia, a respeito de que devo tecer algumas considerações para introduzir a figura magnífica de Joaquim da Miçanga, o tema do post da semana que vem.

Esquematicamente, a Folia é promovida pelo grupo dos foliões: o festeiro, que promove o “giro” da bandeira, seja a dos Reis, do Divino ou de São Sebastião, o procurador, responsável pela guarda do dinheiro e dos bens que vão a leilão e se destinam ao custeio da festa, e o núcleo de cantadores responsáveis pelo louvor ao santo e pelos cantos leigos que animam cada casa. O cortejo vai de casa em casa, pelas roças e pelos povoados, rezando, cantando, comendo, bebendo, até o dia da apoteose, a grande festa final.

Imagem da FoliaAssim, a folia contribui, espalhando, dinamizando o fluxo de sentimentos, para a saúde pública, dependente, vez por outra, de um certo grau de insanidade que, embora permitindo que as regras componham arranjos orgânicos na trilha da pinga, da bandalheira e da gritaria, não instaura a anarquia, como a levar a estrutura aos limites em que ela pode nutrir-se de fontes mais profundas da vida afetiva e criativa.

Lá está o grupo dos anciãos que ainda paira disciplinando a razão soberana da festa, de cunho religioso: comida, cachaça, emoção poética, canto, reza, benção, distribuídos por todos entre todos como uma grande e elaborada brincadeira infantil. Materiais simples, bem trabalhados, mas em processo vivo, poesia à vontade, feita por quem se apresentar, palco aberto, versos se esquecem, mais ou menos, outros se inventam, espírito coletivo vivo vivificado por gênios pessoais muito atados à língua local, o que falam e cantam tem profunda acolhida por toda a gente e essa acolhida no mesmo ato retorna ao artista como estímulo e espírito de criação.

O cenário das roças, da folia original, dá à festa uma dinâmica orgânica, enredada ao seio de cada casa e seus quintais, uns aqui, outros ali, uns jogando verso, outros ouvindo, outros não, outros alheios, proseando, pilheriando, homens se exibindo em seus cavalos, zunindo suas motos, gente partindo, gente chegando.

É uma festa espetacular, justamente na medida em que acontece assim, muito despretensiosamente, entre os presentes, dando a liberdade que essas roças dão para todo tipo de arranjo. Canso de um ambiente, passo a outro, vou a campo, respiro, solitário mas, alhures, encontro um “cumpanheru bão”, bom de conversa, converso, bebo, canto, danço quando quiser ou quando precisarem de mim, de meu ânimo próprio, de meu tipo especial de voz.

Foto de Folião
– O “doidinho” cantador da comunidade de Inácio Félix e seu violão roto de
quatro cordas: o quanto basta para o encantamento da festa. –

Mas a Folia tem um rito e tem seus compromissos, de casa em casa, o festeiro, o procurador e os mais severos foliões vão espalhando o boato e de repente é a hora do canto de louvor e, depois, a de “levantar acampamento”: caixa, bandeira, Deus à frente, para a próximo parada.

A festa navega assim como um barco, de ilha em ilha, a quem “dé pôzu”, um ponto de ordem, instável, no caos dos elementos. Criou-se a ordem, o barco, a folia, a bandeira, a reza, o santo tal. E a ordem sai pelo mundo a instabilizar as casas, as ordens, instabilizando-se ela mesma.

Nada mais maravilhoso que o manifestar do espírito coletivo desses camponeses pobres na Folia. A festa exigiu muita conversa, muito planejamento, andanças para confirmar as casas onde o cortejo vai passar e os pousos onde a bandeira dormirá, onde também o dono da casa dará a janta final da jornada e o almoço da saída do dia seguinte, um mundaréu de comida que as mulheres da casa vão preparar, auxiliadas pelas mais próximas, da família e vizinhança.

E depois começa o “giro”, empresa de muitos dias, que envolve arrecadação de fundos em dinheiro e prendas para leilão e organização da festa final. Esse espírito coletivo na pobreza engendra uma situação democrática agradabilíssima, realidade ordeira, caseira, mas fluida. Cada casa tomada pela turba de foliões dá sombra, frescor, água, vinho, café, farinha com “tuicin”, sofá e, até, cama, a quem se apresentar, seja Servo, pinguço, maltrapilho, sujo, seja Tio Olímpio, o “Ti Limpin”, que quando bebe pára ao pé de cada moça, quer beijar sua mão, puxar um papo. Elas fogem, rindo, ou brincam com ele, afinal se conhecem desde sempre, essas tolices não atrapalham, antes, constituem a Folia.

Foto da FoliaA Folia é naturalmente democrática, a festa é de disciplina espontânea, afinal, não passa pela cabeça de ninguém afastar do “nove”, uma dança ritualizada, crianças pequenas, a não ser que corram risco, tampouco os mais velhos, os mancos, os tolos e os simplórios, sequer os assanhados e os bêbados de toda sorte, a não ser que ofendam alguém, o que não se dá nunca. E se algum se excede, há um alto grau de tolerância, do espírito de “levar na esportiva” ou, de preferência, na galhofa, o importante é, até o limite, não perder o “timing” da alegria que move a folie.

E assim se estabelece uma das máximas da folguedo, sempre repetida, explicitamente, como um slogan, de forma exaltada: “sein purreteru num tein fulia”!!!

Ou seja, sem os loucos, bagunceiros, desviados de toda ordem, não existe o espírito da festa. Claro, sem os “ponta-firmes”, sem os poetas de grande memória, sem os procuradores da ordem e da organização econômica, sem a mulherada da cozinha, forte e “trabaiadera”, ela tampouco ocorreria, mas o fato a ser exaltado é que a Folia não faria nenhum sentido sem os tresloucados, os abobados, os inconvenientes, os excessivos.

Foto do ServoNo link abaixo, vemos Servo, um dos bêbados notórios da Folia, minado por anos a fio de muita pinga, no momento em que arrisca um verso de tremenda organicidade. “Sein purretero, num tein fulia”.

Acesso: <http://www.youtube.com/watch?v=rYNiwF8VlTc&feature=youtu.be>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012. Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>.

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Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

Prezados amigos,

A partir da última semana de outubro o blog da Agrega divulgará uma série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”. Este minicurso foi parte de um conjunto de palestras que são promovidas pelo Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), sempre no último sábado de cada mês, fomentando o debate em torno de temas da Saúde Mental.

Naldo utilizou objetos artesanais, fotografias e imagens em vídeo, na tentativa de compor um quadro complexo e comovente do estilo de vida sertanejo e estudar as implicações psicológicas de um modo de produção artesanal ainda vigoroso, efetuado num campo de intensas relações comunitárias. Em seguida, apresentou alguns casos concretos de artistas que, “em tese, no contexto da civilização mecânica e eletrodoméstica, poderiam padecer de tipos diversos de sofrimento psíquico que os qualificariam como usuários do CAPS, mas que, mergulhados na vida sertaneja, não são propriamente “aceitos” ou “assimilados” pela comunidade, mas antes, transformam muito naturalmente sua loucura em elementos de potencialização estética e produção de riqueza material que revertem ao conjunto da sociedade“.

Agregar e diversificar: o diálogo virtual de um artesão

A ideia central deste blog é reforçar a noção segundo a qual a loucura é historicamente construída e foi criado com o intuito de combater o estigma, sobretudo a ideia de que a loucura é incapacitante. Uma das estratégias adotadas é a prestação serviços de informação, como a divulgação de eventos, de datas importantes relacionados à saúde mental e a inclusão no trabalho, tanto de pessoas com transtornos mentais quanto de pessoas com deficiências ou, ainda, do fomento ao debate acerca da arte produzida por pessoas com transtornos mentais (como pode ser visto na seção “As imagens da capa” em: < https://redeagrega.wordpress.com/creditos-das-imagens-da-capa/>)

Acreditamos que loucura tal qual é conhecida é uma loucura urbana, nascida entre muros, escondida dentro de um dispositivo de controle, tutelada e estigmatizada. Desde Pinel, os conhecimentos científicos que se aproximaram da loucura não produziram nada de muito novo. Pelo menos até muito recentemente…

Com relação a isso, pedimos licença ao prezado leitor para dizer que a psiquiatria e a psicologia pouco conhecem sobre a loucura, pois a loucura ensinada nas academias foi postulada a partir deste contexto que é muito determinado e cujo marco inicial, podemos dizer, encontra-se na Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, lançado em 1798 por Pinel. Ou seja, o estigma, o medo, a tutela e a ideia de que louco é improdutivo são elementos que povoam o imaginário social que dizem muito daquilo que as ciências modernas construíram em torno do transtorno mental.

Mas estes antigos modos de apropriação e controle do sofrimento mental têm sido duramente atacados, sobretudo por conta da falta de humanidade com que se dedicam à pessoa que se encontra neste estado. Este novo olhar que critica a psiquiatria desumana, inaugurado por Basaglia, nos serve de inspiração na busca das formas esquecidas da loucura que tentamos resgatar em nosso blog.

Queremos mostrar que a loucura pode ser produtiva. Queremos mostrar que a construção de uma sociedade mais saudável precisa da inclusão plena da loucura. Queremos mostrar a possibilidade de uma nova loucura urbana, participativa, produtiva e cidadã.

Hoje, temos a honra de apresentar o trabalho de um pesquisador que teve contato com uma loucura que consegue ser participativa, produtiva e cidadã, muito embora não encontre seu lugar de referência nas grandes cidades, mas no contexto de cidades sertanejas em que a influência da vida rural no espaço urbano ainda é muito marcante. A beleza do que vamos conhecer com o trabalho de Naldo Moreira revela um fato embaraçoso: que pouco sabemos sobre as possibilidades criadoras da loucura, capazes não só de gerar riquezas materiais, mas de colaborar com a potencialização estética das comunidades. É chegada a hora das ciências, dos saberes, dos dispositivos de saúde mental e da sociedade resgatarem a loucura em sua potência positiva, produtiva e criativa; o trabalho de Naldo é uma tentativa de mostrar como isso é possível.

Agregar é possível

A partir de meados de outubro, quando retorna de viagem de férias, Naldo pretende postar aqui uma série de textos, fotografias e pequenas edições de vídeo a fim de desenvolver, através de referências teóricas, notas extraídas de seus diários de campo e imagens ilustrativas, o que foi exposto de forma esquemática durante a palestra. A ideia é explorar a história pessoal, a atividade social e a produção artística de pessoas simples, artesãos e cantadores das folias do Vale do Fanado, que por sua loucura mesma são capazes de dar vida à arte e à cultura de comunidades do Vale do Jequitinhonha, nos sertões de Minas Gerais.

A idéia é inserir um post por semana, por três ou quatro semanas. Aguardemos…

Veja um trecho do minicurso em que Naldo contextualiza o lugar do louco (o porreteiro) na Folia de Reis e no contexto da comunidade sertaneja (2min 01seg): <http://www.redeagrega.com/#!videos>