Da Psiquiatria à Psicanálise: o pioneirismo de Henri Ey

O psiquiatra francês Henri Ey Banyuls-dels-Aspres (10/08/1900 a 8/11/1977) dedicou sua vida ao aprimoramento da psiquiatria e ficou conhecido por tirar esta disciplina de sua organização estática. Defendia que a ordem hierárquica das funções psíquicas prevaleciam sobre a organização do cérebro. Foi a partir deste postulado que ele fundou a psiquiatria dinâmica, aproximando as teorias de Freud e Bleuler e incorporando a leitura de Hughlings Jackson para o campo da psiquiatria francesa. A perspectiva de Ey ficou conhecida como a abordagem organo-dinâmica, e formou toda uma geração de novos psiquiatras franceses.

Henri Ey foi redator chefe da revista Évolution Psychiatrique desde 1945 e, em 1961, participou da fundação da Associação Mundial de Psiquiatria, da qual foi secretário geral por muitos anos. Além disso, foi o médico chefe do Hospital Psiquiátrico de Bonneval (Eure-et-Loir) de 1933 à 1970. Ey foi também o mentor dos famosos colóquios de Bonneval, que organizava reunindo psiquiatras, psicanalistas, neurologistas e filósofos de todas as tendências.

Muito fecundo por seus escritos, Ey escreveu um Tratado de Psiquiatria juntamente com Bernard e Brisset, em 1960, que até hoje é referência em cursos de formação de psiquiatras. Dentre sua vasta obra, se destaca ainda o monumental Tratado das Alucinações, de 1973.

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Sigmund Freud

Foto FreudSigismund Schlomo Freud (06/05/1856 – 23/09/1939), como fora batizado, já assinava Sigmund Freud quando se formou em medicina. Embora sonhasse em ser cientista natural, optou pela clínica médica depois que conheceu bela Martha Bernays.

Freud e Martha noivaram dois meses depois do primeiro encontro, fato que se tornaria decisivo na história da descoberta da psicanálise. Isso porque seria a partir da prática clínica que Freud desenvolveria a sua técnica terapêutica. Assim, a escolha pelo atendimento médico se deu em função de seu amor por Martha, pois, para casar-se, precisava obter os rendimentos necessários para o sustento da vida conjugal e, como as pesquisas nas ciências naturais não eram tão rentáveis, decidiu pela clínica médica.

Segundo o próprio Freud, de tudo o que escreveu, o seu livro mais importante foi “A interpretação dos sonhos” (Die Traumdeutung), lançado em Viena, em 4 de novembro de 1899. Sobre o livro, o próprio Freud diz: “contém (…) a mais valiosa de todas as descobertas que tive a felicidade de fazer. Compreensão dessa espécie que só ocorre uma vez na vida”. De fato, o que a obra revela é o “discurso do desejo”, segundo nos conta Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Foto FreudO alcance das ideias de Freud no mundo moderno é extraordinário. A Psicanálise reformulou o conhecimento que o homem tinha sobre si mesmo, libertando-o e, ao mesmo tempo, subvertendo a confiança que depositávamos em nossos saberes conscientes. O que Freud questionou foi a própria verdade do sujeito ao descobrir que, em grande medida, somos determinados por conteúdos que permanecem inconscientes. Por isso, a Psicanálise é considerada a terceira ferida narcísica do homem. Em uma passagem da “Teoria Geral das Neuroses”, de 1916 (Vol. XVI das Obras Completas – grifo nosso), Freud diz:

No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.”

Enquanto conhecimento científico, a Psicanálise é um dos referenciais teóricos mais importantes para a Agrega. Sem dúvida, boa parte dos fundamentos sobre os quais são construídas as nossas práticas em Support Employment repousam sobre o pensamento freudiano. Embora não façamos, com isso, uma clínica psicanalítica, podemos dizer que a moral da psicanálise permanece viva na Agrega, pois o princípio que assumimos entende a necessidade fundamental de estarmos dispostos a ouvir o que o sujeito com transtorno mental tem a dizer, da mesma maneira que Freud se propôs a ouvir o que tinham a dizer as histéricas.

Freud ImageNo fim da vida Freud se vê obrigado a fugir da perseguição nazista e vai morar na Inglaterra, segundo ele, “para morrer em liberdade”. Sofrendo de um câncer no palato, Freud pede auxílio ao seu amigo Max Schur para dar fim à sua vida, em 21 de setembro de 1939. Naquele dia Schur aplica a primeira das três injeções de morfina que levaram Freud a morte. A primeira levou-o a um sono pacífico, a segunda foi dada quando Freud tornou-se inquieto e a terceira no dia seguinte, levando Freud ao coma. Freud morreu dois dias depois da primeira injeção, no dia 23 de setembro. Segundo Peter Gay, “Schur estava à beira das lágrimas, enquanto presenciava Freud encarando a morte com dignidade e sem autopiedade. Ele nunca vira alguém morrer assim”. Freud se foi como queria, em seu posto, conservando o controle sobre a sua vida até o fim, tal como o rei Macbeth.

Referências:
FREUD, S. (1917[1916-17]). Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte III). In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud Volume XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
GAY, P. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
GARCIA-ROZA, L.A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
FREUD além da alma. Direção: John Huston. Produção: Wolfgang Reinhardt. EUA: Bavaria Film / Universal International Pictures, 1962, 140min., son., p&b., 1 DVD.