Do tropicalismo à cajuína: uma homenagem a Torquato Neto

“Só quero saber
Do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder”
(estrofe do poema Go back, de Torquato Neto)

Torquato Pereira de Araújo Neto (9/11/1944 – 10/11/1972) foi um poeta, jornalista e compositor, que esteve envolvido com a Tropicália, o Cinema Novo e o movimento concretista.

Foto de Torquato NetoTorquato escreveu o breviário “Tropicalismo para principiantes” onde defendia a ideia de uma música pop genuinamente brasileira. Como letrista, ele compôs em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Nonato Buzar, Edu Lobo, entre outros grandes de nossa música.

Também participou de alguns filmes na década de setenta e produziu o seu próprio filme como diretor e ator, o “Terror da Vermelha”, no qual Edmar Oliveira também trabalhou como ator e Arnaldo Albuquerque fez a câmera. Também como ator, Torquato atuou no filme “Adão e Eva”, uma produção de António Noronha, com direção de Carlos Galvão, roteiro de Edmar Oliveira e, mais uma vez, câmera de Arnaldo Albuquerque. Além disso, Torquato foi assistente do filme “Barravento”, de Glauber Rocha.

No final da década de sessenta, com o exílio dos amigos Caetano e Gil, Torquato foi morar em Londres com a esposa Ana Maria. Voltou ao Brasil no início dos anos setenta, mas se isolou do mundo e das pessoas, sentindo-se perseguido e tolhido pela “patrulha ideológica”. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo e rompeu diversas amizades.

Foto de Torquato NetoEm 1973 Waly Sailormoon organizou um livro com textos e poemas de Torquato, chamado “Torquato Neto, – os últimos dias de paupéria”. Nele, existe um capítulo intitulado “D’Engenho de Dentro” onde estão reunidos textos que Torquato escreveu durante o período em que esteve internado no Centro Psiquiátrico Pedro II (CPPII – atual Instituto Municipal Nise da Silveira), situado naquele bairro. Nestes trechos ele revela um pouco da profundidade e dos matizes de seu sofrimento.

“Dia 07/10 – um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: ‘quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. É difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. É chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo’. O recorte acaba aí. Hoje, agora, estou fazendo tempo enquanto os remédios que tomei fazem efeito e vou dormir. Esse sanatório é diferente dos outros por onde andei – talvez seja o melhor de todos, o único que talvez possa me dar condições de não procurar mais o fim da minha vida”

Dia 7/4/71 – “Foi um caminhão que passou. Bateu na minha cabeça. Aqui. Isso aqui é péssimo, não me lembro de nada. // Eles não deixam ninguém ficar em paz aqui dentro. São bestas. Não deixam a gente cortar a carne com faca mas dão gilete pra se fazer barba. // Pode me dar um cigarro? Eu só tenho um maço, eu tenho que pedir porque senão acaba. Pode me dar as vinte.”

Um dia após seu aniversário de 28 anos, em 1972 na cidade do Rio de Janeiro, Torquato Neto cometeu suicídio. Depois de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás.

Em homenagem ao poeta, Caetano Veloso compôs a música “Cajuína”, como pode ser visto no vídeo que está acessível em <http://www.youtube.com/watch?v=S5NxSwkwx-o>. Na ocasião, Caetano estava em Teresina e foi visitar o pai de Torquato, que lhe serviu uma cajuína e depois lhe presenteou com uma rosa menina do seu jardim.

Hoje , no Rio de Janeiro, está em funcionamento o Centro de Atenção Psicosocial Caps Torquato Neto, situado no Cachambi.

Foto de Torquato, Caetano Capinan
Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinam.

Cogito
(Torquato Neto – 20/10/1970)

Eu sou como eu sou
Pronome
Pessoal intransferível
Do homem que iniciei
Na medida do impossível

Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora

Eu sou como eu sou
Presente
Desferrolhado indecente
Feito um pedaço de mim

Eu sou como eu sou
Vidente
E vivo tranquilamente
Todas as horas do fim

Para saber mais sobre a obra de Torquato Neto, visite a página oficial clicando no endereço: <http://www.torquatoneto.com.br/>

Referências:
Torquato Neto – os últimos dias de paupéria. Organizado por Waly Sailormoon. Rio, 1973. Livraria Eldorado Tijuca.

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