O lado bom da vida

Silver-Linings-Playbook-27Ago2012_06Diversão, sensibilidade e um monte de personagens complexos fazem de “O lado bom da vida” (Silver Linings Playbook) uma boa opção no cinema. O filme, que está em cartaz, é inteligente e foge dos clichês típicos de Hollywood. A temática dos transtornos mentais permeia a narrativa e é característica marcante na personalidade de Pat Solatano, de seu pai, representado por Robert DeNiro e de Tiffany, entre outros.

A beleza de “O lado bom da vida” está nas relações que são construídas ou recuperadas ao longo do filme, apesar das dificuldades de cada um. A trama articula um bipolar; um viciado em jogos, chamada Ludopatia, com uma espécie de Transtorno Obsessivo Compulsivo para questões supersticiosas; um neurótico a beira de um ataque de nervos, endividado, sufocado, mas que faz questão de manter as aparências; um irmão perverso; um psiquiatra confuso; vizinhos intrometidos e uma ninfomaníaca insistente. Diversão garantida.

Um filme de sutilezas

Silver-Linings-Playbook-06Nov2012_05O filme é concreto e expõe questões complexas de maneira simples, através de cenas que podem passar como corriqueiras ou, até mesmo, triviais. O preconceito e o estigma em relação à loucura, por exemplo, são questões tensas e emocionalmente confusas para Pat e Tiffany. Se por um lado, eles se identificam quando o assunto são as drogas psiquiátricas, por outro lado não sustentam a comparação do grau de suas loucuras. Refletem para si mesmos um tipo de olhar piedoso para com o outro, o mais louquinho. Um olhar que não ajuda em nada, nem para eles, nem para nós, que trabalhamos com inclusão. Como vemos no filme, o resultado deste tipo de atitude não pode ser bom.

Aos olhos do louco o normal era insano, é o que se pode dizer do diálogo de Pat com seu melhor amigo (aparentemente uma pessoa ajustada). Neurótico, como a maioria de nós, queixava-se com Pat da “pressão”, da família, do trabalho, das sucessivas reformas na casa recém-reformada, daquilo tudo da vida cotidiana que o fazia sentir sufocar. Eis que o louco mais estigmatizado do filme lhe responde: “Isso não é bom para você”, o que, precisamos concordar, deve ter sido uma das frases mais sensatas de todo o filme!

O vício do jogo, a vergonha dos remédios, um surto violento, a lei, a mania, o louco que foge do hospício, os medicamentos e um profundo conhecimento dos motivos que as pessoas têm para não querer tomá-los. Todos os elementos da narrativa convergem para o ápice do filme, um momento de superação e engajamento, quando todos os personagens se reúnem para torcer por uma nota mediana. A nota cinco conquistada (como era de se esperar de um filme) e comemorada a ponto de causar estranhamento na plateia e no apresentador do concurso de dança, (com voz de espanto, “Tudo isso O lado bom da vidapor um 5?”) representa muito mais do que um happy end típico de hollywood. Representa, antes de tudo, a conquista de toda a autonomia possível e o reconhecimento das próprias limitações e de novas possibilidades.

É interessante observar como a vida segue e prospera, a despeito de todas as dificuldades. Algumas pessoas podem até esperar que, em algum momento do filme, coisas melhorem e as pessoas voltem ao estado “normal” de saúde mental. Mas, sobre essas questões, não é tão simples, nem na vida real, nem na arte.

Assita o trailer em: <http://www.youtube.com/watch?v=FM3S4GBlwYA>

Crônicas do Jequitinhonha: Marcinho

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraTenho escrito, nesta série de textos, as palavras louco ou loucura por diversas vezes entre aspas, o que é um dispositivo um tanto precário, pois as aspas deixam tudo vago, a se explicar. Assim, vou tentar falar do porque do artifício.

Cada um de nós sabe mais ou menos onde estão suas próprias fronteiras entre “sanidade” e “loucura” e apesar de todos os avanços da psicologia, da psiquiatria e da medicina, o diagnóstico de cada paciente, a partir de certos padrões definidos cientificamente, pode ser difícil para os profissionais destas áreas, maioria entre os presentes à palestra do CAPS e, creio, entre os que estão acompanhando este ciclo de publicações que desenvolve os temas ali propostos.Não sou um “profissional da saúde”, lá vão de novo as aspas, mas me parece claro o fato de que alguns casos clínicos são muito complicados. Apenas quem, no Brasil, mergulha dia a dia nesse universo de problemas e potenciais da alma humana está apto a dizer como a atividade entre nós está longe de ser glamurosa: baixa remuneração, estrutura deficitária, avaliações complicadas, tratamentos longos e penosos num ambiente de convivência potencialmente explosivo, em suma, um trabalho duro e arriscado.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Relendo os textos anteriormente publicados, temi que o estilo da crônica pudesse estar pintando um quadro muito romanceado da realidade do louco-artista no contexto das comunidades camponesas do Jequitinhonha.

Marcinho esculpe em 2011.

Marcinho esculpe em 2011.

O sertão, a rotina roceira, de trabalho manual pesado, de sol a sol, de escassos recursos monetários, de dinheiro contado para tudo, com níveis de rusticidade que podem roçar a grosseria, de gente acostumada à dureza e que se tornou, em alguma medida, irascível, impenetrável, tudo isto pode tornar a vida camponesa bastante árdua, quem não sente na pele pode muito bem imaginar.E a vida humana jamais será, em lugar nenhum do tempo e do espaço, uma vida fácil, por mais que o ambiente falso abundante da modernidade possa às vezes iludir certas pessoas a esse respeito.

O caso de Marcinho talvez traga uma luz sobre essa sobrevivência rude e laborativa e o quanto um quadro difícil pode manter-se relativamente estabilizado pelo exercício do inteiro processo artesanal, com seus temperos de vigor físico, referencial simbólico e potência estética.Ao longo de dez anos, devo ter visitado Marcinho pelo menos sete vezes, e em geral fui bem recebido.O que escuto nas casas de outros artesãos da cidade, que o conhecem desde menino, é, contudo, a lenda de que Marcinho passa meses a fio trabalhando, concentrado, praticamente sustentando sozinho uma família numerosa e problemática, e de repente afunda numa espiral decadente que pode durar semanas.Na foto, vemos um dos irmãos de Marcinho. O quanto sofre? Pergunto-me, olhando para ele. O quanto contribuiu e contribui para o sofrimento de Marcinho? Ajuda um pouco aqui, com suas limitações? Exige muito acolá? Às vezes surge à soleira da porta e estaca, duro como um Frankenstein. E fica ali, nos observando, enquanto conversamos, com esse seu carão de silêncio de chumbo, pesado de sombras.Irmão de Marcinho em 2005Alguns relatos, que precisaria confirmar estando presente à cena, contam que muitos consideram Marcinho um feiticeiro, possuído por maus espíritos ou coisa que o valha, tamanha é a capacidade que teria, durante os surtos passageiros, de tomar garrafas inteiras de cachaça pelo gargalo e depois manter-se ainda em pé e barbarizando.

É complicado fiar-se em boatos e peço desculpas de antemão por estar repassando eventuais exageros, comuns nesses casos, mas se o fato não é verdadeiro em relação a esse artista em particular, temos aí um relato verossímil, na medida em que um número grande de pessoas vive sua vida balançando assim, perigosamente, entre ciclos de mergulhos pavorosos e, em seguida, de fertilidade, resgate produtivo.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Eu, por mim, ao longo dos anos, sempre encontrei o artista relativamente calmo, bem falante, e labutando forte, pois não se combate o jacarandá com pulso fraco e mãos macias.Sei que faz uso de medicamentos psiquiátricos porque ele mesmo conta que precisa de seus “remédios de controle”.No começo o visitava na casinha que alugou para si e para a família em ponto central de Araçuaí, ao lado do cemitério. Ali ele se contentava com um “puxadinho” sujo e abafado para trabalhar e, aos poucos, foi preenchendo as paredes caiadas de branco do quarto com traços de lápis grafite, rabiscos de detalhes, recortes sobrepostos, planos vagos, incompletos, idéias que estaria fecundando e instala fluidamente no muro, espécie de caderno mais a mão, antes de transpor tudo para pinturas em tela ou para esculturas em argila e madeira, sonho às vezes concretizado, no mais das vezes não, traços mais ou menos acabados, fantasmas, em abundância, ensaios de estranhezas.

Alguns desses esboços, por algum motivo, ganham mais força em seu imaginário e ele se põe a materializá-los, também sem a certeza de que vai acabá-los, embora possua técnica refinada, sobretudo na escultura em madeira, em que está sempre a experimentar, com fúria, erros e acertos, colagens, apliques, reformas, recolagens, pronto a mudar de ideia, mesmo na reta final.

Esboços de obras na parede em 2005Marcinho e um ajudante especialmente sagaz que encontrou e com quem andava trabalhando, em janeiro de 2011, estavam havia meses empenhados na elaboração de uma espécie de forca enorme, toda entalhada de relevos barrocos, um grande investimento de tempo e um grande risco comercial, pois quanto maior, mais desengonçada e maluca uma peça, mais dificuldade terá de ser vendida nos altos preços que Marcinho precisa impor, considerando sua arte lenta e refinada

E não seria possível embarcar a forca em avião a partir de Araçuaí, não caberia em carro pequeno, não preencheria todo o frete de um caminhão. O lugar é distante de grandes centros, o comprador ideal pode levar meses ou anos para passar por aqui interessado numa peça como essa.

MDetalhe da forca de 2011as Marcinho queria terminá-la, era uma necessidade maior, interior. Ou o era, pelo menos, no momento daquela visita. Nesse dia, diziam que estavam pensando em produzir, o mais rápido possível, uma pequena fornada de cerâmica, para cumprir com o serviço miúdo e mais rentável que lhes garante o pão de cada dia.

Um ano mais tarde, pergunto ao artista qual foi afinal o destino da grande obra, relacionada à mitologia que o católico mineiro tece em torno da figura do mártir Tiradentes. Disse-me que, depois de minha passagem, precisou desmembrá-la, olha a coincidência, como fizeram com o corpo do líder inconfidente, e vender os pedaços mais em conta, artifício a que se obriga com freqüência, quando o bolso vai ficando vazio e faz-se necessário abrir mão da integridade da arte em favor da mais imediata subsistência.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Em janeiro de 2012, Marcinho estava atacando na peça que está na foto ao lado, e tinha chegado ao ponto em que o esboço deveria assumir algum aspecto de acabado. Era um problema, pois na base de diversos tipos de madeira, pedaços de porta, caixotes, tocos secos, ele estava realizando uma série de testes, como se pode ver, recheios que envolviam telas de arame de refugo de construção cimentadas de gesso, um fundente barato se fizer massa com serragem e lascas de madeira que resultam mesmo da atividade. Quem observa a peça assim nas entranhas vai ter dificuldade em ver mas a mente de Marcinho a enxerga prontinha e está trabalhando sobre todas as etapas futuras, até quando sua idéia inicial vai estar completa, perfeitamente concretizada, entalhada em detalhes, lixada, pintada, envernizada e tal, do caos às harmonias celestes.Não é comum encontrar na estatuária rústica em argila do Jequitinhonha o tema religioso, ao contrário de certos locais do Nordeste do país, onde ele predomina, mas Marcinho toma muito emprestado, conforme planos de imaginação muito próprios e inusitados, do simbolismo católico.O mercado impõe aqueles modelos que tiveram sucesso, no início da carreira do artista, embora não possa exigir o modo específico que ele produz cada obra e por isso, por vários anos, encontrei Marcinho entalhando um Arcanjo Gabriel diferente, sempre em madeira dura, bela, de lei. Uma estátua deste tamanho e quilate, com tantos níveis de detalhe, nunca, de fato, repetida, exige meses de dedicação e não pode ser vendida por menos de cinco mil reais. Em geral é feita por encomenda, o que não é garantia de que seja em breve adquirida por alguém pois não é raro acontecer de quem fez o pedido nunca mais dar as caras nessas longitudes.

Outra prova bastante da influência religiosa e da habilidade do mestre está na cópia barroco-sertaneja que estava fazendo em 2009 da Santa Ceia de Da Vinci, como vemos na foto em destaque.

A Santa Ceia em 2009

A Santa Ceia em 2009

Um mendigo se descompôs sobre um prato (servo servido como comida?) e ficou ali, todo retorcido, estendendo a mão e olhando sofrido, pedinte, desde baixo, como cão. Poderia ter feito parte do conjunto de um presépio e ter sido testemunha do nascimento do Deus Menino, mas seu criador se resignou a vendê-lo para mim cru de cores, em separado, assim como está, sozinho e ressignificado, coitado!

São Francisco Buda barroco de 2002

São Francisco Buda barroco de 2002

A marca de Aleijadinho, a força do ideário cristão, alguns traços orientais e eis que surge, em cerâmica, o São Francisco Buda deitado na telha que comprei, em 2002, por oitenta reais e podemos admirar na foto.

Como seus esboços a lápis na parede branca, como seus arranjos improvisados no coração da madeira, o sistema comercial de Marcinho, como se vê, está igualmente semi imerso no caos. De todo modo, ao final, ele segue sobrevivendo. Aprendeu a escultura de Dona Zefa, célebre e generosa artesã, que conhece desde a infância, e dos tantos outros escultores locais. Mais tarde, esteve em Belo Horizonte por uns tempos e na capital aprendeu, em atelier profissional, a reproduzir em madeira o santuário barroco, em troca de trabalhar para os proprietários. Afirma que seu ofício acabou tão perfeito que passava por falsificação. Nesse período, diz ter sido muito explorado em sua arte, o que o levou a voltar para Araçuaí onde os ventos mesmo de sua alma o conduziram a redimensionar, a seu bel prazer, o universo plástico e a técnica fina que foi levado a absorver em BH, senão por satisfação, por necessidade.

Arcanjo quase pronto.

Arcanjo quase pronto.

Na certa, primeiro, de Lira Marques, depois, de outros, Marcinho assimilou também a técnica rústica e a arte da cerâmica dita “decorativa”. Embora poucos artistas da região se igualem a ele no poder de modelagem (talvez João Alves de Taiobeiras e Leonardo de Jequitinhonha), Marcinho não se preocupa em esmerar o acabamento com as tinturas de terra e polimentos que tanto prezam às bonequeiras do vale. Também não parece ter estômago para ficar repetindo indefinidamente seus sucessos de venda, como tendem outros cronistas do barro. Tudo indica que está mais interessado em produzir uma peça expressiva, de tamanho pequeno a médio, dadas as limitações de transporte (diverso do padrão grande e pesado das esculturas de madeira), e partir logo para a seguinte, considerando que, para vender barato, precisa produzir quantidade embora tentando, pois não consegue ser repetitivo e previsível, um mínimo de perda de autoria, no que talvez tenha que descuidar um pouco do acabamento.Eis o que é Marcinho, um artista completo, demasiadamente humano, lutando de forma brava e hábil, entre as tempestades da alma e as corrupções do mercado.

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Para ler o quinto post, Lira Marques, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/12/13/cronicas-do-jequitinhonha-lira-marques-2/>

Crônicas do Jequitinhonha: Lira Marques

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraQuando o pesquisador de campo em antropologia está amparado, como eu estou, de conhecimentos limitados em matéria de psicologia e psiquiatria e mesmo que, somados os encontros de mais de uma década que tive com os artistas e artesãos de que tenho tratado nestas páginas, eu tenha tido um acesso, não superficial, mas ainda restrito, aos recantos mais íntimos da vida familiar e pessoal dessa gente, não pode arriscar, por risco de imprecisão, um diagnóstico a respeito de como a dança da doença e da saúde age sobre o corpo e a alma de cada um dos sujeitos que visita, em especial os assim denominados “loucos”.

Foto: Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Diante disso, minha maior preocupação na palestra de fins de setembro para que fui convidado, no CAPS Itapeva, basicamente, foi demonstrar o interesse, para a psicologia e para a psiquiatra modernas, da análise antropológica.

Que utilidade haveria para essas ciências da alma (dirigi o questionamento à platéia) estar pensando as importantes diferenças ambientais, laborais e sócio-culturais existentes entre o contexto da civilização artesanal indígena e campesina sertaneja e o contexto da civilização mecânica, urbana e eletrodoméstica em que a maioria, acredito, dos leitores desse texto está mergulhada? O estudo dessas diferenças poderia ser um estímulo para tentarmos entender juntos o fenômeno da inserção social e produtiva do “louco” com foco no aspecto da saúde?

Claro, não estamos operando aqui com a apologia do estilo de vida de índios e camponeses, coletores, caçadores, mineradores primários, artesãos e lavradores, com tudo o que ele implica em termos de rudeza, enfrentamento pesado dos elementos e limitações impostas pela ausência de certos refinamentos que dependem da educação formal, embora procure demonstrar, com os exemplos que estou trazendo, as sutilezas particulares que esse estilo possui.

Quem, por exemplo, uma vez as tendo adquirido, poderia se privar das luzes da indústria cinematográfica ou do instrumento do piano, de lenta evolução tecnológica e, tantas vezes, de produção artística esmerada? E porque, para apreciar tais finesses, temos que abrir mão da transcendência simbólica, da conexão cósmica, do potencial estético, da compreensão ativa da matéria e da fortaleza física em que está implicado o trabalho artesanal de base?

EFoto: Coleção de tinturas de terra mais, estamos observando, nesta sequência de postagens que visam aprofundar os temas da palestra, a seguinte evidência: o acesso universal, no ambiente comunitário sertanejo, a recursos primários de técnica e linguagem artísticas pode levar certos sujeitos a níveis surpreendentemente elevados de expressão pessoal e trabalho criativo, a provar que o solo é, via de regra, fértil o bastante, sendo necessário apenas, claro, primeiro, cultivá-lo e, depois, minimamente, prover a sede e a fome com produção continuada e um máximo possível de retorno econômico.

Nada mais ilustrativo nesse sentido do que o caso de Lira Marques.

Assim como Noemisa, de que falei na semana passada, Lira é herdeira da velha tradição, de origem camponesa européia, ameríndia e africana, das paneleiras do sertão brasileiro, um misto que resultou, de todo modo, numa técnica rústica bem padronizada, disseminada em vasto território, com idênticos métodos, implementos, instrumentos e tipos de utilitários produzidos.

No link do fim do texto podemos ter uma idéia de como uma dessas artesãs de tradição centenária trabalha, assentada no chão de terra batida de sua casa de pau-a-pique.

Porém, diferentemente de Noemisa, de Ulisses e dos Juaquis da Fulia, de quem tratei nas últimas postagens, Lira foi criada, predominantemente, no ambiente urbanizado de Araçuaí.

Certo, esta como as demais cidades que conheço nesses sertões, como a boa parte das pessoas que vivem nelas, ainda estão muito ancoradas em ambiente rural, embora se vejam, a cada ano, mais desarraigadas, em virtude dos ventos da modernidade que avançam, inexoravelmente e sobretudo em seus aspectos mais deletérios, sobre um meio especialmente vulnerável à urbanização desordenada e à cultura individualista, consumista e massificadora que constitui a espinha dorsal do novo sistema.

Em tempos assim tumultuosos e desencantados, figuras da estatura de Lira Marques são verdadeiros botes salva-vidas para os que estão a seu redor e ao nível da comunidade.

Em minha última visita, três anos atrás, estava especialmente empenhada em pôr para funcionar um museu de artefatos antigos da cultura do vale e de obras de artistas regionais diversos.

Foto: Máscara de inspiração africanaIncontáveis são os cursos que já deu, espontâneos ou remunerados, de cerâmica e pintura, para os “seus” e para os “de fora”, conforme a arte econômica do sertanejo pobre de utilizar dos recursos baratos que estão à mão, para lhes agregar valor, com habilidade, se beneficiando do tino comercial desenvolvido no ambiente urbano.

Além disso, Lira, vez por outra, veste a personagem de roupas de chita e trancinhas juvenis com que atua no coral Trovadores do Vale, de que foi uma das fundadoras, faz quase quarenta anos.

Ela e Frei Chico, padre holandês já pra lá de brasileiro, mantêm, há décadas, rica e produtiva amizade, e realizaram uma vasta pesquisa da cultura do Jequitinhonha, sobretudo de seus cantos e danças populares. Adaptando para o palco essas tradições de roça e de rua, os dois vão construindo o repertório do grupo coral, com o que as mantêm vivas do modo possível.

Nas viagens que fazem juntos, estão sempre atentos às cores das terras de cada local por onde passam: grotas esbarrancadas, margens de rio, recortes de máquina à borda de rodovias em construção. Recolhem amostras, levam para casa, a mestra de ofício faz seus testes e, se aprovadas, as dilui em água, dentro de garrafas pet de dois litros que ornamentam, disciplinadas, muretas e estantes da oficina caseira onde trabalha, ao invés de boiar por rios e mares. Foto: Seres de sonhoQuando precisa das tinturas, mistura um pouco à cola Tenaz, fixador barato, e aplica sobre pedronas de quartzo que, por milênios, foram arredondadas e polidas pelas torrentes do Araçuaí. Também as utiliza para desenhar sobre papel Kraft e uma variedade de suportes de baixo custo, compondo as imagens de seres de sonho que navegam nos vendavais de Saturno como as reproduzidas na foto ao lado.

Se tomássemos pelo que vemos na casa de Lira, não acreditaríamos que se trata de pessoa tão engajada em atividades de relação construtiva.

A chegada de visitas, clientes, curiosos e pesquisadores é sempre esperada onde se encontre o artesão de fama, mas o clima da casa de Lira, no mais das vezes, é taciturno, janelas e cortinas semicerradas. Alguém bate palmas, uma irmã, um sobrinho demora a dar as caras na varanda e chega de mansinho, com poucas palavras e sorriso nenhum nos lábios, a demonstrar que ali mora gente cuidadosa e desconfiada.

Nas inúmeras moradias que visito em todo o Jequitinhonha, em geral, quanto mais sou conhecido, mais calorosamente costumo ser recebido, entre esses mineiros de efusão quase baiana. Mas é sempre difícil para mim chegar à porta de Lira Marques.

Suspeito que faça uso de medicamentos psiquiátricos, não sei dizer quais deles e, caso os utilize de fato, não tenho como medir seus efeitos, piores ou melhores.

Lira está hoje na casa dos sessenta, não é muito idosa. Mas quase nunca me reconhece à primeira vista, não importa quantas vezes retorne. De todo modo, sempre, me convida e me conduz até a oficina, nos fundos. Atravessamos toda a casa em silêncio, nos instalamos, longe do centro social, que pertence à família, e só então podemos ter nossa conversa, em particular. Porém, nem sempre permite que ative minha câmera de vídeo para filmá-la enquanto fala, embora goste que eu fotografe as peças expostas e aFoto: Pintura de tons de terra sobre pedra do Araçuaís que foram registradas e dispostas, creio, desde os anos 1970, num álbum que possui. Passamos então à entrega do presente de fotos que fiz na visita anterior, jogo na mesa outras referências de praxe, é como um ritual, devagar ela vai se lembrando de quem se trata e, daí em diante, vai-se fazendo, aos poucos, mais falante e acolhedora.

Muito se discute a respeito das diferenças acaso existentes entre o artista e o artesão. Eu particularmente não as considero diferenças de grau, mas de oportunidade. Como o artesão não pode dar-se o luxo de vender suas peças nos preços elevados que o artista “consagrado” obtém nos mais ricos mercados, vê-se obrigado a reproduzir os temas de sua criação que, nos sucessivos testes de aceitação junto ao comprador, acabam se fixando como os produtos mais rentáveis. É, no mais das vezes, uma questão de sobrevivência, não de competência em matéria de criatividade. Mas é também uma armadilha, na medida em que os modelos “de sucesso” precisam ser tão repetidos que podem agir como entrave a novas experimentações, as quais constituem sempre um risco em termos comerciais.

É o que vejo acontecer com diversos “cronistas do barro” que conheço, como Noemisa de Caraí, João Alves de Taiobeiras, Leonardo da cidade de Jequitinhonha ou Paulo, do distrito de Guaranizinho, que devem se prender à reprodução de seus temas mais famosos se querem se manter e exercitam com parcimônia a inventividade.

Lira, contudo, é um caso especial, considerando que partilha, em certa medida, de fontes de alta cultura, de práticas inovadoras e do acesso a um mercado talvez um pouco mais seleto de objetos de arte.

Foto: eça de cerâmica de apelo comercialAssim, para fazer a renda segura, do dia a dia, ela possui seu rol de peças comerciais, de valor atrativo, como as pinturas de terra sobre o kraft, as máscaras de parentesco africano ou as figuras riscadas em placas de cerâmica, magníficas, como as que estão nas fotos que selecionei.

O diferencial de Lira é que ela faz questão de reservar um certo tempo à criação gratuita e pode ser equiparada a qualquer grande artista assim considerado.

Contou-me que possui também algumas peças autorais que reproduz, mas que as refaz apenas em raras oportunidades, e nunca da mesma forma, menos por necessidade financeira e mais por ânsia de expressão de momentos únicos ou de sentimentos pontuais.

Levei à palestra e passei pelas mãos dos presentes um exemplo deste tipo de obra artístico-artesanal, a que a Lira Marques deu o nome de “Me Ajude a Levantar”.

O título se justifica, ela conta, diante do seguinte fato que lhe ocorreu.

Um dia bateu a sua porta uma nativa da região, demonstrando muito interesse em conhecer sua arte.

Certos sertanejos não possuem o menor polimento e podem ser bastante grosseiros e invasivos.

Na certa, esta pessoa estava esperando encontrar algo semelhante à boneca caprichada que aparece na foto abaixo, da grande mestra Isabel de Santana do Araçuaí, tinta de sutis tons terrosos, que é a marca do dito “artesanato do vale”, tornou-se a menina dos olhos de atravessadores, lojistas e decoradores à caça do lucro fácil e donos de pousada no encalço do bibelô padrão exótico ou constitui um prato cheio para o jornalista genérico, rasteiro e mistificador.

Foto: Boneca de Dona Isabel de Santana do Araçuaí

Lira Marques, todavia, possuía algo bem diverso a oferecer à tal mulher: criaturas de planetas fluidos planando em cristais roliços de riacho, grafismos de sentidos íntimos intraduzíveis, impressos em papel grosseiro, cenas de aborto, pesadelo e desastre, fome, morte, seca e enchente moduladas em barro com muito mais zelo pela simples força da expressão do que pelo mero atrativo ornamental.

Uma dessas peças estão representadas, abaixo, em fotos de fotos que fiz do album de Lira.

Foto: AbortoAo se deparar, porém, com esse rol de estranhezas e má-formações, a visita disparou: “Maiz intão é ess’ cu suju c’a sinhora tein pra mi mostrá?”

Cu sujo, uma expressão local muito rude e ofensiva que designa algo mal acabado ou feito de forma porca, relapsa.

A ofensa foi tão súbita e despropositada e pareceu tão brutal ao coração de Lira que a fez mergulhar num processo depressivo de que levou muito tempo para se recuperar. Ao final, certo dia, uma idéia a iluminou. Não se fez de rogada, tratou de pô-la em execução: buscou o barro na mina, empedrado, trouxe pra casa onde o bateu, forte, no pilão, peneirou, temperou o pó com água, compôs o bolo, daí modelou, poliu e queimou seu primeiro “Me Ajude a Levantar”.

Foto: Um dos primeiros Me Ajude a LevantarO tema retrata, a princípio, uma figura humana deitada de barriga para cima, com os braços junto ao tronco, no momento em que começa a subir a própria cabeça antes de poder aprumar o corpo, ou seja, no começo de seu soerguimento. Lira conta que foi assim, no ato desta criação, que teria começado a superar a depressão.

Alega também que, quando sente a necessidade, retorna ao modelo, mas em tamanho e disposição diversas. Nas fotos, um dos mais antigos, em preto e branco, está posto ao lado de outro, mais recente, que Lira me deu.

Foto: Me Ajude a Levantar que ganhei de presenteSim porque, na terceira ou quarta visita a sua casa, encontrei dentro de um pote uma estatueta pequena que, à primeira vista, me chamou fortemente a atenção. Quando a retirei dentre outras peças, fiquei tão sinceramente admirado, pelo que parece, que Lira me presenteou com a obra, um de seus poucos e assombrosos “Me Ajude a Levantar”.

O ato só fez aumentar meu espanto, já que, sentindo os hábitos reservados daquela artista fabulosa, não podia imaginar que pudesse tão repentinamente responder a minha surpresa e admiração, num movimento típico de quem se deixa levar por forças psíquicas mais essenciais e vitalizantes do que as que governam os interesses materiais de superfície.

Coiz’ di lôcu.

Foto: Lira1
Para acessar o vídeo, clique no endereço: <http://youtu.be/uHJnGF8xRS0>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Agregando notícias #6

Exposição apresenta obras de irmãos precursores do modernismo brasileiro

Os Dois Irmãos Pré-Modernistas Brasileiros é o nome da exposição que está em cartaz no Museu Afro Brasil, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. João e Arthur Timótheo da Costa foram dois artistas negros, cariocas, que rodaram a Europa e uniram tendências estéticas que culminariam no modernismo dos anos 1920.

O trabalho dos irmãos teve grande reconhecimento. Em 1911 foram selecionados pelo Foto: Arthur Timótheo da Costagoverno para ornamentar o Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Turim, na Itália. Em 1919, Arthur ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Belas Artes na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, os irmãos trabalharam na decoração do Salão Nobre do Fluminense Football Club.

Segundo consta, antes de alcançar o ápice de sua carreira, João Timótheo foi acometido pela insanidade e, assim como o seu irmão, passou os últimos anos de sua vida internado no Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro.

A exposição funciona de terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada grátis.

Messias, psicólogo e escritor conta como voltou a andar depois de ter ficado tetraplégico

Messias Fernandes tinha 14 anos quando fraturou quatro vértebras ao mergulhar em um rio. Ficou tetraplégico, superou as dificuldades e voltou a andar. Hoje é psicólogo e, no último dia 3 lançou o livro Renascendo de um Mergulho, no qual o autor trata das dificuldades na reabilitação e na superação das dificuldades e das sequelas deixadas pelo acidente.

Na matéria de Clarissa Thomé, do Estado de S. Paulo, Messias afirma que, “como psicólogo, tenta mostrar para os médicos que eles não trabalham no terreno da certeza. O discurso precisa ser técnico, mas muitas vezes o paciente não está preparado para ouvir. Alguns médicos, diante da própria impotência, usam esse discurso de que não há mais saída. Ninguém tem o direito de tirar a esperança do outro.”

Vale a pena ler a matéria na íntegra, com mais detalhes sobre a incrível história de Messias: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,messias-o-tetraplegico-que-voltou-a-andar-conta-sua-saga-em-livro–,964842,0.htm>

Marcelo Yuka no Caminho das Setas

Foto: Marcelo YukaMarcelo Yuka no Caminho das Setas é o nome do documentário de Daniela Broitman, lançado recentemente, que conta a vida do ex-baterista da banda O Rappa. Yuka foi atingido por três tiros em novembro do ano 2000 e ficou paraplégico, tema que é profundamente discutido no filme que, além disso, fala de trabalho, preconceito e superação.

Para ver o trailer oficial: <http://www.youtube.com/watch?v=uQcvRESAFeI>

Prevenção ainda é a melhor maneira de combater o mal de Alzheimer

Uma caminhada de cerca de 8 kilômetros por dia ajuda a combater o mal de Alzheimer e outros tipos de comprometimento cognitivo, segundo o Dr. Cyrus Raji, pesquisador do Departamento de Radiologia da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

Segundo o Dr. Raji, uma estilo de vida ativo estimula o crescimento do cérebro, “O volume é um sinal vital para o cérebro, quando diminui, significa que as células do cérebro estão morrendo”. A pesquisa demonstrou, ainda, que pessoas ativas mantém uma boa memória por mais tempo.

Leia mais sobre esse assunto em: <http://oglobo.globo.com/saude/um-estilo-de-vida-ativo-pode-desacelerar-mal-de-alzheimer-6811027#ixzz2ECgZqeM9> e em: <http://www2.rsna.org/timssnet/media/pressreleases/pr_target.cfm?ID=508> (inglês).

O mal de Alzheimer atinge mais de 35 milhões de pessoas ao redor do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Dilma é vaiada e, em seguida, aplaudida

Brazil's President Dilma Rousseff gestures during a news conference after a meeting with Venezuela's President Hugo Chavez at Planalto Palace in Brasilia June 6, 2011. REUTERS/Ueslei MarcelinoA presidente Dilma Rousseff foi vaiada ontem em Brasília, na 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (que começou no dia 3 e vai até o dia 6 de dezembro), por usar a expressão “portador de deficiência” durante o seu discurso.

Logo em seguida, Dilma pediu desculpas: “Portador não é muito humano, pessoa é, né?”, afirmou. Após a correção, ela foi aplaudida pela platéia.

Antônio Ferreira, secretário nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, minimizou o ocorrido: “A reação foi por um desejo de correção, foi pedagógica”, disse, completando que “se portasse uma deficiência, a deixaria em casa”.

Fonte: Folha de São Paulo, 5 de dezembro de 2012, Cotidiano C4. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/81993-dilma-e-vaiada-ao-usar-a-expressao-portador-de-deficiencia-em-discurso.shtml> Acesso em 5 dez. 2012.

Para saber mais sobre a 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, acesse: <http://www.onu.org.br/3a-conferencia-nacional-dos-direitos-da-pessoa-com-deficiencia-em-brasilia-comeca-hoje-3-em-brasilia/>

Crônicas do Vale do Jequitinhonha: “folie” e estética

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraConforme prometido, passarei a desenvolver aqui, postando um texto por semana, o exposto na palestra que realizei no último dia vinte e nove de setembro no CAPS Itapeva, intitulada “Saúde Mental e Contexto Social: alguns Exemplos do Jequitinhonha”.

O filósofo e historiador francês Michel Foucault escreveu dois importantes livros cujos temas eu gostaria de aproximar, antes de mais nada, sem contudo me aprofundar nas sutilezas teóricas que os caracterizam: História da Loucura e Vigiar e Punir.

Certas práticas sociais tornam-se tão arraigadas que muitas vezes aparecem a nossos olhos como leis da natureza. Assim, parece muito óbvio à grande maioria de nossos contemporâneos o fato de que os ditos loucos, foras da lei e todo indivíduo que manifeste comportamento anti-social deverá ser excluído do convívio em sociedade através do confinamento, do isolamento, da prisão.

Ora, nem sempre foi assim. Nos dois livros que menciono acima, Foucault realiza uma exaustiva e profunda pesquisa histórica, fartamente documentada, com o intuito de desnaturalizar a idéia do internamento do “louco” e da prisão do “marginal”, demonstrando que trata-se não de uma lei natural e imutável mas de uma construção histórica, lentamente fermentada e pouco a pouco implementada na prática na Europa Ocidental desde a Idade Média, através da era clássica e nos primórdios da modernidade.

Foto do Vale do JequitinhonnhaPode parecer um pouco forçado comparar as regiões rurais da França do século XVI com os sertões brasileiros do século XXI, mas gostaria de me arriscar no aprofundamento da investigação histórica de Foucault e para tanto vou descrever uma cena com que me deparei numa de minhas primeiras viagens ao Jequitinhonha.

Estava andando pelas vielas dos subúrbios de uma daquelas típicas cidades sertanejas do vale, entre moradias de adobe caiadas de barro branco ou Tabatinga, de onde exala a fumaça de fogões a lenha e os dejetos das cozinhas, cheirando a sabão de cinza, correm pelos cantos das ruas, no mesmo lugar em que ciscam as galinhas e chafurdam porquinhos rústicos, em ambiente ainda marcadamente rural, quando me deparo, num terreno amplo, entre duas casas, com um matadouro a céu aberto.

Era uma cena impressionante. Atrás de um muro baixo, onde havia uma entrada aberta, sem portão, debaixo de uma varanda improvisada, num calor infernal, bem pouco propício à higiene, estavam dependuradas as duas metades de um boi que tinham acabado de matar. No chão de cimento grosseiro estavam espalhadas as entranhas do animal e para as bordas escorria um riacho de sangue que tingia todo o solo de vermelho vivo, brilhando ao sol.

Mapa do Vale do JequitinhonhaPara mim, ainda pouco acostumado aos modos caboclos, tudo isto era bastante chocante, mas logo percebi que, para os presentes, tratava-se de uma atividade das mais naturais, pois era possível ver a presença festiva, admirada, das crianças das redondezas que acorreram para apreciar o espetáculo e também por ali rondavam cães sarnentos a espera de um deslize de açougueiros e clientes que se apresentavam no momento propício para disputar os pedaços menos nobres e mais baratos, estando os melhores cortes reservados ao mercado pouco mais refinado do centro da cidade.

Esta imagem demonstra como, no ambiente sertanejo, tudo se encontra muito misturado, sendo ainda incipiente a compartimentação, o exclusivismo, as especialidades e as regras de higienização que caracterizam a vida urbana moderna.

E é nesse ambiente social e produtivo indiferenciado que a figura do “louco” se insere. Não podemos propriamente dizer que, nesse contexto, a loucura seja mais aceita ou melhor assimilada. Acontece que, nesse campo de indiferenciação, tudo acontece diante de todos e cada um encontra muito naturalmente o seu lugar, de tal modo que, em diversos casos, a loucura mesma torna-se um fator importante de produção de riqueza material e de potencialização estética que reverte ao conjunto da sociedade, como veremos pelos exemplos concretos de que estarei tratando, nas próximas semanas.

Foto da queimadinha
– A cachaça queimada com ervas e uma colher de açúcar produzem a
“queimadinha”, é fogo na certa. –

Caso alguém se interesse em aprender a cultivar a terra, degolar uma galinha, beneficiar farinha de mandioca, construir um pote de cerâmica, confeccionar e tocar uma caixa de guerra, cantar, basta observar o que, no dia a dia, está fazendo sua mãe, seu pai, seu vizinho ou outro membro qualquer da comunidade. Claro, num nível de produção muito básico, sem grandes requintes, o mais importante é que os meios de criação estão à disposição de todos.

Histoire de la Folie é o título original do livro de Foucault. A palavra folie, ou seja, loucura, folia, transe coletivo, nos remete à festa da Folia, a respeito de que devo tecer algumas considerações para introduzir a figura magnífica de Joaquim da Miçanga, o tema do post da semana que vem.

Esquematicamente, a Folia é promovida pelo grupo dos foliões: o festeiro, que promove o “giro” da bandeira, seja a dos Reis, do Divino ou de São Sebastião, o procurador, responsável pela guarda do dinheiro e dos bens que vão a leilão e se destinam ao custeio da festa, e o núcleo de cantadores responsáveis pelo louvor ao santo e pelos cantos leigos que animam cada casa. O cortejo vai de casa em casa, pelas roças e pelos povoados, rezando, cantando, comendo, bebendo, até o dia da apoteose, a grande festa final.

Imagem da FoliaAssim, a folia contribui, espalhando, dinamizando o fluxo de sentimentos, para a saúde pública, dependente, vez por outra, de um certo grau de insanidade que, embora permitindo que as regras componham arranjos orgânicos na trilha da pinga, da bandalheira e da gritaria, não instaura a anarquia, como a levar a estrutura aos limites em que ela pode nutrir-se de fontes mais profundas da vida afetiva e criativa.

Lá está o grupo dos anciãos que ainda paira disciplinando a razão soberana da festa, de cunho religioso: comida, cachaça, emoção poética, canto, reza, benção, distribuídos por todos entre todos como uma grande e elaborada brincadeira infantil. Materiais simples, bem trabalhados, mas em processo vivo, poesia à vontade, feita por quem se apresentar, palco aberto, versos se esquecem, mais ou menos, outros se inventam, espírito coletivo vivo vivificado por gênios pessoais muito atados à língua local, o que falam e cantam tem profunda acolhida por toda a gente e essa acolhida no mesmo ato retorna ao artista como estímulo e espírito de criação.

O cenário das roças, da folia original, dá à festa uma dinâmica orgânica, enredada ao seio de cada casa e seus quintais, uns aqui, outros ali, uns jogando verso, outros ouvindo, outros não, outros alheios, proseando, pilheriando, homens se exibindo em seus cavalos, zunindo suas motos, gente partindo, gente chegando.

É uma festa espetacular, justamente na medida em que acontece assim, muito despretensiosamente, entre os presentes, dando a liberdade que essas roças dão para todo tipo de arranjo. Canso de um ambiente, passo a outro, vou a campo, respiro, solitário mas, alhures, encontro um “cumpanheru bão”, bom de conversa, converso, bebo, canto, danço quando quiser ou quando precisarem de mim, de meu ânimo próprio, de meu tipo especial de voz.

Foto de Folião
– O “doidinho” cantador da comunidade de Inácio Félix e seu violão roto de
quatro cordas: o quanto basta para o encantamento da festa. –

Mas a Folia tem um rito e tem seus compromissos, de casa em casa, o festeiro, o procurador e os mais severos foliões vão espalhando o boato e de repente é a hora do canto de louvor e, depois, a de “levantar acampamento”: caixa, bandeira, Deus à frente, para a próximo parada.

A festa navega assim como um barco, de ilha em ilha, a quem “dé pôzu”, um ponto de ordem, instável, no caos dos elementos. Criou-se a ordem, o barco, a folia, a bandeira, a reza, o santo tal. E a ordem sai pelo mundo a instabilizar as casas, as ordens, instabilizando-se ela mesma.

Nada mais maravilhoso que o manifestar do espírito coletivo desses camponeses pobres na Folia. A festa exigiu muita conversa, muito planejamento, andanças para confirmar as casas onde o cortejo vai passar e os pousos onde a bandeira dormirá, onde também o dono da casa dará a janta final da jornada e o almoço da saída do dia seguinte, um mundaréu de comida que as mulheres da casa vão preparar, auxiliadas pelas mais próximas, da família e vizinhança.

E depois começa o “giro”, empresa de muitos dias, que envolve arrecadação de fundos em dinheiro e prendas para leilão e organização da festa final. Esse espírito coletivo na pobreza engendra uma situação democrática agradabilíssima, realidade ordeira, caseira, mas fluida. Cada casa tomada pela turba de foliões dá sombra, frescor, água, vinho, café, farinha com “tuicin”, sofá e, até, cama, a quem se apresentar, seja Servo, pinguço, maltrapilho, sujo, seja Tio Olímpio, o “Ti Limpin”, que quando bebe pára ao pé de cada moça, quer beijar sua mão, puxar um papo. Elas fogem, rindo, ou brincam com ele, afinal se conhecem desde sempre, essas tolices não atrapalham, antes, constituem a Folia.

Foto da FoliaA Folia é naturalmente democrática, a festa é de disciplina espontânea, afinal, não passa pela cabeça de ninguém afastar do “nove”, uma dança ritualizada, crianças pequenas, a não ser que corram risco, tampouco os mais velhos, os mancos, os tolos e os simplórios, sequer os assanhados e os bêbados de toda sorte, a não ser que ofendam alguém, o que não se dá nunca. E se algum se excede, há um alto grau de tolerância, do espírito de “levar na esportiva” ou, de preferência, na galhofa, o importante é, até o limite, não perder o “timing” da alegria que move a folie.

E assim se estabelece uma das máximas da folguedo, sempre repetida, explicitamente, como um slogan, de forma exaltada: “sein purreteru num tein fulia”!!!

Ou seja, sem os loucos, bagunceiros, desviados de toda ordem, não existe o espírito da festa. Claro, sem os “ponta-firmes”, sem os poetas de grande memória, sem os procuradores da ordem e da organização econômica, sem a mulherada da cozinha, forte e “trabaiadera”, ela tampouco ocorreria, mas o fato a ser exaltado é que a Folia não faria nenhum sentido sem os tresloucados, os abobados, os inconvenientes, os excessivos.

Foto do ServoNo link abaixo, vemos Servo, um dos bêbados notórios da Folia, minado por anos a fio de muita pinga, no momento em que arrisca um verso de tremenda organicidade. “Sein purretero, num tein fulia”.

Acesso: <http://www.youtube.com/watch?v=rYNiwF8VlTc&feature=youtu.be>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012. Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>.

O desafio de superar a loucura inventada por Pinel

“Nunca a psicologia conseguirá dizer a verdade sobre a loucura,
porque a loucura é que detém a verdade da psicologia”.
(Michel Foucault)

Foto de Philippe PinelLoucura, doença mental e transtorno mental soam naturalmente como sinônimos aos ouvidos de muita gente hoje em dia. Entretanto, evidenciar este fato é apresentar uma verdade parcial. Podemos considerar que a loucura sempre esteve representada e sempre ocupou um lugar especial na sociedade. Entretanto, o louco, entendido como doente mental, é uma construção recente, uma tese criada por volta do século XIX. O fato é que foi a partir de Phillipe Pinel (20/04/1745 – 25/10/1826) que a loucura passou a ser dotada de um estatuto, uma estrutura e um significado psicológicos. Vejamos brevemente como isso se deu.

Durante toda a Idade Média, o saber sobre a loucura não podia ser considerado um conhecimento objetivo, mas compunha um emaranhado de significações sobrenaturais, ou mágico-religiosas. Já em meados do século XVII, surgem diversas instituições asilares e assistenciais desprovidas de qualquer caráter médico em toda a Europa, como la Salpêtrière e Bicêtre, ou os leprosários adaptados São Lázaro e Charenton. A estes depositários de gente são dirigidos todos os tipos de indivíduos considerados “inválidos”: velhos miseráveis, mendigos, desempregados renitentes, portadores de doenças venéreas, prostitutas, libertinos, excomungados, loucos, etc.

Imagem de louco acorrentadoPorém, no espírito de mudança reinante na França revolucionária, Philippe Pinel inaugura, no final do século XVIII, com a sua Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, a psiquiatria moderna. A partir de então, a loucura, os transtornos da mente e as ciências médico-psicológicas nunca mais caminhariam separadas.

Pinel inicia um importante processo de humanização e ordenamento da loucura, dotando-a de um estatuto científico sobre o qual incidia um olhar disciplinar e taxonômico. Deveria haver um lugar específico para a loucura, o louco não poderia mais estar misturado a outras categorias de gente. Este lugar constituiu-se como o hospital psiquiátrico, onde a loucura poderia ser estudada e classificada, tratada e contida.

Neste sentido, podemos entender que a psiquiatria fundada por Pinel foi, ela mesma, estabelecida sob os ares de um movimento de reforma. Esta reforma aconteceu nos hospitais de Bicêtre e Salpêtrière, onde os loucos foram desacorrentados e separados dos demais internos. O trabalho de Pinel, assim, representa o primeiro esforço de apropriação da loucura para o domínio da ciência médica, isolando-a para o estudo de suas manifestações e terapêuticas. Sua nosografia inaugura os esforços modernos de análise das formas da doença mental, assim como das fases de sua evolução e das técnicas terapêuticas possíveis para o seu tratamento.

Foto de Salpêtrière
La Salpêtrière, Paris

Contudo não podemos deixar de lado a observação de que, desde então, pouco foi feito em favor do louco, embora muitos tenham sido os esforços de apropriação do olhar científico sobre a loucura. Ou seja, a loucura tomada como entidade metapsicológica isolou, do olhar médico, a pessoa que sofre de um transtorno mental. O louco, abandonado nos asilos, serviu a uma certa medicina psiquiátrica como laboratório, ou campo de pesquisas, produzindo um conhecimento médico de grande sofisticação técnica sobre um tipo de loucura específica: a loucura asilar.

Quadro de GoyaSe, por um lado, loucura, doença mental e transtorno mental são conceitos que nem sempre estiveram juntos, por outro lado, enfrentamos hoje o desafio de superar os paradigmas da loucura asilar sem jogar fora os avanços técnicos positivos produzidos pela psiquiatria.

Ou ainda, se como disse Foucault é a loucura que detém a verdade da psicologia, então o psicólogo deve ir até o louco para entender a sua verdade, quer dizer, a psicologia deve compreender a loucura na vida, em liberdade, no trabalho. De fato, a verdade do louco não se define pela doença, assim como não se reduz nenhum enfermo à sua enfermidade.

Vivemos um período singular, propício para uma nova mudança, e a Agrega posiciona-se em defesa de um outro olhar e um outro cuidado para com a loucura. É necessária a abertura de um novo campo de convívio para o louco: o emprego formal. Acreditamos que, através da conquista do trabalho e da cidadania seja possível colocarmos uma pá de cal na imagem da loucura improdutiva e tutelada (crença inventada dos manicômios dos séculos passados), abrindo uma nova possibilidade de relação entre a pessoa com transtorno mental e o corpo social, o que favorecerá o surgimento de novos olhares e novas psicologias da loucura e da lucidez humana.

Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

Prezados amigos,

A partir da última semana de outubro o blog da Agrega divulgará uma série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”. Este minicurso foi parte de um conjunto de palestras que são promovidas pelo Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), sempre no último sábado de cada mês, fomentando o debate em torno de temas da Saúde Mental.

Naldo utilizou objetos artesanais, fotografias e imagens em vídeo, na tentativa de compor um quadro complexo e comovente do estilo de vida sertanejo e estudar as implicações psicológicas de um modo de produção artesanal ainda vigoroso, efetuado num campo de intensas relações comunitárias. Em seguida, apresentou alguns casos concretos de artistas que, “em tese, no contexto da civilização mecânica e eletrodoméstica, poderiam padecer de tipos diversos de sofrimento psíquico que os qualificariam como usuários do CAPS, mas que, mergulhados na vida sertaneja, não são propriamente “aceitos” ou “assimilados” pela comunidade, mas antes, transformam muito naturalmente sua loucura em elementos de potencialização estética e produção de riqueza material que revertem ao conjunto da sociedade“.

Agregar e diversificar: o diálogo virtual de um artesão

A ideia central deste blog é reforçar a noção segundo a qual a loucura é historicamente construída e foi criado com o intuito de combater o estigma, sobretudo a ideia de que a loucura é incapacitante. Uma das estratégias adotadas é a prestação serviços de informação, como a divulgação de eventos, de datas importantes relacionados à saúde mental e a inclusão no trabalho, tanto de pessoas com transtornos mentais quanto de pessoas com deficiências ou, ainda, do fomento ao debate acerca da arte produzida por pessoas com transtornos mentais (como pode ser visto na seção “As imagens da capa” em: < https://redeagrega.wordpress.com/creditos-das-imagens-da-capa/>)

Acreditamos que loucura tal qual é conhecida é uma loucura urbana, nascida entre muros, escondida dentro de um dispositivo de controle, tutelada e estigmatizada. Desde Pinel, os conhecimentos científicos que se aproximaram da loucura não produziram nada de muito novo. Pelo menos até muito recentemente…

Com relação a isso, pedimos licença ao prezado leitor para dizer que a psiquiatria e a psicologia pouco conhecem sobre a loucura, pois a loucura ensinada nas academias foi postulada a partir deste contexto que é muito determinado e cujo marco inicial, podemos dizer, encontra-se na Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, lançado em 1798 por Pinel. Ou seja, o estigma, o medo, a tutela e a ideia de que louco é improdutivo são elementos que povoam o imaginário social que dizem muito daquilo que as ciências modernas construíram em torno do transtorno mental.

Mas estes antigos modos de apropriação e controle do sofrimento mental têm sido duramente atacados, sobretudo por conta da falta de humanidade com que se dedicam à pessoa que se encontra neste estado. Este novo olhar que critica a psiquiatria desumana, inaugurado por Basaglia, nos serve de inspiração na busca das formas esquecidas da loucura que tentamos resgatar em nosso blog.

Queremos mostrar que a loucura pode ser produtiva. Queremos mostrar que a construção de uma sociedade mais saudável precisa da inclusão plena da loucura. Queremos mostrar a possibilidade de uma nova loucura urbana, participativa, produtiva e cidadã.

Hoje, temos a honra de apresentar o trabalho de um pesquisador que teve contato com uma loucura que consegue ser participativa, produtiva e cidadã, muito embora não encontre seu lugar de referência nas grandes cidades, mas no contexto de cidades sertanejas em que a influência da vida rural no espaço urbano ainda é muito marcante. A beleza do que vamos conhecer com o trabalho de Naldo Moreira revela um fato embaraçoso: que pouco sabemos sobre as possibilidades criadoras da loucura, capazes não só de gerar riquezas materiais, mas de colaborar com a potencialização estética das comunidades. É chegada a hora das ciências, dos saberes, dos dispositivos de saúde mental e da sociedade resgatarem a loucura em sua potência positiva, produtiva e criativa; o trabalho de Naldo é uma tentativa de mostrar como isso é possível.

Agregar é possível

A partir de meados de outubro, quando retorna de viagem de férias, Naldo pretende postar aqui uma série de textos, fotografias e pequenas edições de vídeo a fim de desenvolver, através de referências teóricas, notas extraídas de seus diários de campo e imagens ilustrativas, o que foi exposto de forma esquemática durante a palestra. A ideia é explorar a história pessoal, a atividade social e a produção artística de pessoas simples, artesãos e cantadores das folias do Vale do Fanado, que por sua loucura mesma são capazes de dar vida à arte e à cultura de comunidades do Vale do Jequitinhonha, nos sertões de Minas Gerais.

A idéia é inserir um post por semana, por três ou quatro semanas. Aguardemos…

Veja um trecho do minicurso em que Naldo contextualiza o lugar do louco (o porreteiro) na Folia de Reis e no contexto da comunidade sertaneja (2min 01seg): <http://www.redeagrega.com/#!videos>