Crônicas do Jequitinhonha: Dona Elsa Có

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraDiz com orgulho que o Có herdou do pai, que não é nome de família não, que é um apelido que só grudava nos homens, mas que sua personalidade atraiu para si.

Não se produz uma criatura como Dona Elsa Có a não ser no sertão, mantida desde muito menina na labuta insana, no suor da lavoura, no vai e vem em torno do fogão a lenha, na manufatura forte de potes e panelas, nas andanças no mato, nos banhos de rio, nas danças da Folia e do tambor do Boi Janeiro da cidade de Jequitinhonha.

Dona Elsa com seu cofre estrelaSeu vigor físico, sua miragem cósmica, seu arsenal simbólico e sua potência estética são cozidos, tudo ao mesmo tempo, no caudal desta mistura.

Por outro lado, seu discurso hemorrágico e a diversidade louca de atividades em que parece envolvida, nos levam a pensar que Dona Elsa padece do mal do século, do mal das grandes cidades, apressadas, estressadas, emparedadas para dentro de si: o mal da ansiedade.

Quase não observo ansiedade nos anciãos sertanejos, ou seja, naqueles que só muito tarde na vida vieram, se vieram, a desfrutar dos confortos da modernidade: direito a ir à escola, ou seja, meio dia roubado ao cabo da enxada, oferta geral de produtos industrializados, prontinhos e empacotados, estradas de verdade, para veículos motorizados e, sobretudo, casa eletrificada, banho quente a jato, ferro na tomada e geladeira, artifícios que só vêm sendo implantados, em ritmo acelerado, de dez anos para cá, nos povoados e roças desses fins de mundo.

Cristo de Dona ElsaEm setembro, no CAPS, propus aos profissionais da medicina, enfermagem, psicologia e psiquiatria, maioria dos presentes à palestra, que pensássemos juntos a questão da ansiedade comparando o contexto rural sertanejo e o contexto urbano, sobretudo o das grandes cidades.

Não manipulo com segurança os conceitos científicos referentes ao caso e corro o risco de ser banal, mas costumo caracterizar a ansiedade, até porque não raro a sinto corroendo minhas próprias entranhas, como um esforço ineficaz para driblar o tempo: estamos diante do semáforo, com o pé no acelerador, os olhos pregados na bola de luz vermelha, esperando que se apague, hipnotizados, alheios a tudo e a todos, batendo a perna em repetição nervosa que implica em gasto inútil de energia, sendo que, ali do lado de fora, alheio a meu olhar petrificado, a marcha do mundo vai seguir, inexorável: um minuto de sinal “pare” vai levar exatamente sessenta segundos para cambiar “siga” e ponto final.

Presépio sendo preparado em 2009.

Presépio sendo preparado em 2009.

Diante deste quadro, a proposta de pensamento que coloquei aos ouvintes foi a seguinte: esse tempo interno entrópico, enervado, ativo-improdutivo, talvez seja gerado na medida em que a vivência do tempo real, o tempo do corpo imerso nos elementos naturais e no espírito da comunidade, em luta cooperativa com a matéria-prima, pelo trabalho braçal, vai sendo devorado pelo isolamento físico, pela especialização de função e pelo automatismo típico da civilização mecânica.Na vida moderna, se alguém precisa conversar com um amigo, toma do computador, manda uma mensagem, pega o celular ou, na melhor das hipóteses, vai à casa do dito cujo usando automóvel próprio ou coletivo, de todo modo, transportado em bolhas de aço que mantêm os finos sentidos humanos a uma distância segura de cada pequeno detalhe do mundo natural e da vida humana que fervilha lá fora, atrás das vidraças, detalhe que não escaparia ao caboclo que caminha ao encontro de um “cumpadi” da comunidade vizinha e vai afeito às marcas do caminho: uma casa, uma fruta madura, um formigueiro, um cão de passagem. No paraíso artificial da metrópole, se alguém quer comer carne, não precisa dominar complexos saberes empíricos sobre o meio ambiente e o cosmos, e não tem porque fazer uso da força e da argúcia necessárias à guerra de paciência e brutalidade que envolve a  caça e a pesca; simplesmente, vai ao açougue e compra um quilo de peito de frango já picado para o strogonof. Se no alto dos arranha-céus alguém necessita de cem litros d’água pura para beber, tomar banho e lavar a louça, basta girar o botão da torneira e o líquido incolor, insípido e inodoro vai jorrar lá em cima, a que parece, por magia.

Presépio pronto em 2011.

Presépio pronto em 2011.

E assim, a cada gesto sensível, a cada ação inteligente que deixamos de efetuar porque uma máquina os executou por nós ou os incorporou em certo produto pronto a ser apanhado, na prateleira do supermercado, implica, em alguma medida, na perda do vigor físico, dos poderes plásticos e das dinâmicas simbólicas que modulam a existência sertaneja de que tenho falado, a dos artistas, em especial, apesar dos recursos materiais e culturais limitados de que dispõem na construção de uma vida de trabalho.Nesse ambiente, percebo que o tempo, sobretudo o dos camponeses mais velhos e arraigados, é esse tempo ditado pela matéria: pesos, cheiros, toques, contatos, minutos lentos de cada pequeno encontro.Mas esse compasso está se transformando nos sertões.Perfis como o de Dona Elsa Có, nessas ilhas culturais em rápido processo de mudança, já são raros entre os jovens, mas tenderão a desaparecer, em poucos anos, a maioria tendo mergulhado até o pescoço na esfera urbana, gozando do paraíso entre quatro paredes: televisão, isolamento individualista, perda de raízes, correria sem propósito e sem resultado, lixo cultural, “fast junky food” gerando obesidade aliada à má nutrição, etc., etc.Sendo assim, imagino que, em futuro não muito distante e infelizmente, parte dessas pessoas talvez esteja constituindo a clientela de centros de tratamento médico e psiquiátrico que, em face da eterna penúria governamental, dificilmente poderão prestar um atendimento de qualidade.

E é assim que as melhores condições espontâneas possíveis de promoção da saúde física e mental poderão vir a ser desperdiçadas, na medida em que a base sólida e o caldo substancioso da vida antiga vêm sendo pulverizados pela baixa modernidade, nesses e em milhares de outros lugares.

Nascida e criada no sertão, contudo, as potentes baterias anímicas de Dona Elsa Có se mantêm perpetuamente abastecidas, possibilitando a criação de coisas e relações de pessoas e coisas. O que poderia, na confusão da selva de pedra, ser um problema humano a mais, um dique que causa um tique, um hábito mecânico, um choque perigoso ou, então, uma dispersão, um desgaste inútil de energia, na periferia da pequena cidade de cultura cabocla, na casa de Dona Elsa, é um fluxo desbaratado de produção material e experimento estético que acaba beneficiando, e muito, estratos diversos da sociedade local.

As vezes é difícil perceber quantas vezes nossas deficiências e nossas potencialidades se encontram emaranhadas, dependendo, para sua evolução, num ou noutro sentido, do contexto econômico, cultural e interpessoal em que nos encontramos inseridos.

Panelas feitas com a comadre necessitadaDona Elsa é, como Noemisa e Lira, herdeira da tradição paneleira e também a recriou a seu modo. Não costuma mais fazer “vasia di barru”, exceto uma ou outra, “pru gastu”, ou por encomenda de algum vizinho ou compadre que preza e preserva o gosto roceiro. Mas em minha última visita tinha feito uma queima de panelas monstruosa, como comprova a foto ao lado, com a ajuda de Leonardo, filho adotivo, com quem pode encontrar, à disposição para suas maluquices, barro, lenha, oficina e fornos para a cerâmica. Essa fornada em particular ela concebeu para ajudar uma comadre sua muito idosa e que estava passando por dificuldades adicionais, precisando urgente fazer algum “dinhirin”. A senhora foi paneleira durante décadas mas há muito tempo não labutava mais com os bolões de argila, a lenha grossa e o fogo medonho que caracterizam a atividade. Como veio pedir socorro, então, Dona Elsa, pau-pra-toda-obra, teve de imediato a idéia própria de gente muito ativa, generosa e espertalhona: Leonardo forneceria o espaço de trabalho, toda a matéria prima necessária e ajudaria com o serviço duro do cozimento, as duas iam dividir a modelagem do vasilhame e os lucros reverteriam apenas para a necessitada, claro.

Claro como cristal, para os envolvidos no negócio, mas trata-se do tipo de raciocínio que os novos tempos quase não mais comportam e constitui a prova de uma bem diversa psicologia da troca existente entre esses nativos atados à terra.

Há um século Marcel Mauss escreveu um dos clássicos da antropologia moderna, entitulado “O Dom” ou “A Dádiva”. O livro demonstra, e depois dele muitos outros, como o comércio entre indígenas e camponeses implica um intrincado sistema de câmbios materiais e simbólicos que pode estranhar ao sujeito acostumado, nas cidades de hoje em dia, a valorizar bens de uso e consumo a partir de sua expressão monetária.

Certa vez me deparei, numa de minhas primeiras viagens ao vale, com um certo caboclo que tinha andado duas léguas ou doze quilômetros de mula, da “grota” onde morava até a feira de sábado mais próxima, no caso, a da cidade de Chapada do Norte, capital de país quilombola, onde pretendia “niguciá” um único porco, sim, um único porquinho, da espécie miúda e rústica que esses sertões criaram, sem a menor preocupação com produtividade, sendo que alguns ainda guardam marcas selvagens, como focinhos compridos de Caititu. O homem estava paradão no canto da feira, ao lado do animal, que tinha retirado da cangalha da mula e deitado no chão, mas mantido imóvel como veio, só com a cabeça de fora da bruaca, uma bolsa de couro rudimentar há séculos usada pelos tropeiros brasileiros para todo gênero de carga. Fiz no ato um slide da cena impactante e o escaneei para postá-lo abaixo.

Porco comerciado na feira de Chapada do Norte

Perguntei se o leitão já tinha sido vendido, ao que o caboclo disse que sim, que o comprador estava por ali, feira afora, mas que já voltava. Santíssima tranqüilidade! Inexperiente e etnocentrado, foi então que arrisquei a questão estapafúrdia: “e qual foi o preço que vocês acertaram?” O tipo demorou alguns segundos para abrir a boca, num “flash” de desconfiança, mas afinal respondeu, mineira, matreiramente, com aquela calma, aquela naturalidade que possuem e de repente nos deixam desarmados: “Aaah, sô! Iss’aí nóis num cumbinem’ ainda não”.

Que tremendo tapa na cara! Vender, já vendeu, mas isso aí, o preço, seu moço, isso que parece tão obviamente importante, ainda não foi tratado, um sinal muito simples mas muito claro de que essa negociação entre pretos pobres da feira de sábado de Chapada do Norte, naquele inverno de 1998, possuía uma abrangência e uma organicidade inexistentes na mera troca entre um bem material despersonalizado e a moeda geral que tudo nivela, achatando.

Pois bem, enquanto o mundo mergulha a sua volta no buraco negro das especulações financeiras, Dona Elsa ainda se rege por tais leis comunais muito antigas, na verdade, constitutivas de nossa humanidade.

Para começar, sustentou com os próprios braços os filhos naturais, já numerosos, em conjunto com mais de cinquenta outros que alega ter adotado e criado, ao longo da vida, até o ponto em que necessitou passar os cuidados desse verdadeiro orfanato à Santa Igreja Católica.

Além de atuar em várias frentes na oficina do barro de Leonardo, possui na própria casa um espaçoso, embora pouco sofisticado, ateliê de costura, onde produz peças para vender, para remendar na base da camaradagem, para reformar e doar a quem precisa, para paramentar os bonecões que acompanham a festa do Boi Janeiro ou ornamentar o presépio, todo fim de ano, em honra a Baby Jesus.

Na sala da frente existe uma pequena exposição de obras suas, de amigos ou de associações de artesãos que ela procura ajudar por ajudar, sem recompensas, sendo sabido que sua figura, muito conhecida, centraliza e atrai compradores.

São ofertas de grande variedade, como vemos nas fotos: barquinhos de palito de picolé montados pelos detentos da cadeia pública, oncinhas que o amigo Dema esculpe na madeira e ela acredita valorizar ao recobri-las de estampas tigradas, estrelas multidimensionais feitas de placas de papelão, primeiro forradas de retalhos de tecido e depois costuradas, onde deixa uma fenda, difícil de notar, para inserir moedas como num cofre, brechinha que me desafia a encontrar mas, antes que eu tente, mostra ela mesma, orgulhosa, elétrica como uma menina.

Instrumentos novos para o Boi JaneiroTudo indica que Dona Elsa é também um dos principais suportes do Boi Janeiro, pois guarda e reforma os principais implementos do grupo que desfila pela cidade nos primeiros dias do ano. Estava exultante em minha visita de fins de dezembro de 2010 ao exibir os instrumentos que tinha acabado de conseguir para animar a festa, dias depois: violas, pandeiros, atabaques e caixas de guerra, bordas de aço reluzindo de novo, tudo comprado com dinheiro gordo que obteve junto a um dos raros empresários locais, de quem precisou infernizar a vida para arrancar o bem comum imaterial.

Além disso, quando acha necessário, forma um grupo diminuto com integrantes da batucada e partem para visitar o hospital da cidade onde colaboram na cura dos enfermos com vigor de dança e injeções de poesia.

Naquele dezembro encontrei-a na primeira manhã já costurando, mas abandonou de imediato o trabalho para atender o estranho, pois já não se lembrava que a tinha visitado no ano anterior, pela primeira vez. Mas não demora e dispara a falar e pouco se importa que eu a filme e fotografe, assim mesmo do jeito como está, o que faria horror ao comum das mulheres, com uma lâmina de pêlos emplastrados postos de pé, no topo da cabeça, e uma capa de plástico negro protegendo a blusa dos produtos químicos que alguém tinha acabado de aplicar em seus cabelos brasileiros, meio pixains, para alisá-los, pois se preparava para uma festa de casamento.

Assim a vemos na foto, espécie de personagem dos quadrinhos de Angeli, a cabocla punk. Enquanto andava, matraqueando, gesticulando, mostrando objetos, abrindo caixas, eu a filmava, a capa esvoaçando, naturalíssima.

Dona Elsa Có

Em seguida fomos juntos a Leonardo pois ansiava para me mostrar o presépio, quase pronto, que montam todos os anos na sala da frente da oficina, local onde vendem parte de suas peças e também algumas de amigos.

Detalhes da obra aparecem nas fotos que selecionei.

Os reis magos, Maria, José e outros presentes, grandes peças de cerâmica de cerca de um metro de altura, ela mesma fez, ao longo dos anos, ou refez, quando se quebraram, pintando o barro queimado com tintas oleosas que as artificializam pois não percebemos mais a matéria rústica de que são compostas.

Anões no presépioObviamente, não se trata de um presépio qualquer mas do presépio de Elsa Có onde é permitida a presença de personagens de toda matéria, gênero e tamanho, incluindo aí alguns dos sete anões em pessoa, embora pareça que Branca de Neve não tenha sido convidada.

No galpão dos fundos Leonardo tinha colocado de pernas para o ar e trabalhava nas canelas de um dos animais que deveriam estar lá na frente acolhendo o Deus Menino. Observei, mas não estava capacitado para notar a imperfeição, foi preciso explicar: “num tá venu não? Mãe é doida, sô! Ela colocô nu burru ess’ calu aqui qui só boi tem atrás, pra cima do calcanhá, viu só?”

Dona Elsa Có queria por na cena natalina um muar com perna bovina: disparate da imaginação ou mutação divina?

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Para ler o quinto post, Lira Marques, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/12/13/cronicas-do-jequitinhonha-lira-marques-2/>

Para ler o sexto post, Marcinho, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2013/01/31/cronicas-do-jequitinhonha-marcinho/>

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Crônicas do Jequitinhonha: Marcinho

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraTenho escrito, nesta série de textos, as palavras louco ou loucura por diversas vezes entre aspas, o que é um dispositivo um tanto precário, pois as aspas deixam tudo vago, a se explicar. Assim, vou tentar falar do porque do artifício.

Cada um de nós sabe mais ou menos onde estão suas próprias fronteiras entre “sanidade” e “loucura” e apesar de todos os avanços da psicologia, da psiquiatria e da medicina, o diagnóstico de cada paciente, a partir de certos padrões definidos cientificamente, pode ser difícil para os profissionais destas áreas, maioria entre os presentes à palestra do CAPS e, creio, entre os que estão acompanhando este ciclo de publicações que desenvolve os temas ali propostos.Não sou um “profissional da saúde”, lá vão de novo as aspas, mas me parece claro o fato de que alguns casos clínicos são muito complicados. Apenas quem, no Brasil, mergulha dia a dia nesse universo de problemas e potenciais da alma humana está apto a dizer como a atividade entre nós está longe de ser glamurosa: baixa remuneração, estrutura deficitária, avaliações complicadas, tratamentos longos e penosos num ambiente de convivência potencialmente explosivo, em suma, um trabalho duro e arriscado.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Marcinho explica o significado da máscara, em 2003.

Relendo os textos anteriormente publicados, temi que o estilo da crônica pudesse estar pintando um quadro muito romanceado da realidade do louco-artista no contexto das comunidades camponesas do Jequitinhonha.

Marcinho esculpe em 2011.

Marcinho esculpe em 2011.

O sertão, a rotina roceira, de trabalho manual pesado, de sol a sol, de escassos recursos monetários, de dinheiro contado para tudo, com níveis de rusticidade que podem roçar a grosseria, de gente acostumada à dureza e que se tornou, em alguma medida, irascível, impenetrável, tudo isto pode tornar a vida camponesa bastante árdua, quem não sente na pele pode muito bem imaginar.E a vida humana jamais será, em lugar nenhum do tempo e do espaço, uma vida fácil, por mais que o ambiente falso abundante da modernidade possa às vezes iludir certas pessoas a esse respeito.

O caso de Marcinho talvez traga uma luz sobre essa sobrevivência rude e laborativa e o quanto um quadro difícil pode manter-se relativamente estabilizado pelo exercício do inteiro processo artesanal, com seus temperos de vigor físico, referencial simbólico e potência estética.Ao longo de dez anos, devo ter visitado Marcinho pelo menos sete vezes, e em geral fui bem recebido.O que escuto nas casas de outros artesãos da cidade, que o conhecem desde menino, é, contudo, a lenda de que Marcinho passa meses a fio trabalhando, concentrado, praticamente sustentando sozinho uma família numerosa e problemática, e de repente afunda numa espiral decadente que pode durar semanas.Na foto, vemos um dos irmãos de Marcinho. O quanto sofre? Pergunto-me, olhando para ele. O quanto contribuiu e contribui para o sofrimento de Marcinho? Ajuda um pouco aqui, com suas limitações? Exige muito acolá? Às vezes surge à soleira da porta e estaca, duro como um Frankenstein. E fica ali, nos observando, enquanto conversamos, com esse seu carão de silêncio de chumbo, pesado de sombras.Irmão de Marcinho em 2005Alguns relatos, que precisaria confirmar estando presente à cena, contam que muitos consideram Marcinho um feiticeiro, possuído por maus espíritos ou coisa que o valha, tamanha é a capacidade que teria, durante os surtos passageiros, de tomar garrafas inteiras de cachaça pelo gargalo e depois manter-se ainda em pé e barbarizando.

É complicado fiar-se em boatos e peço desculpas de antemão por estar repassando eventuais exageros, comuns nesses casos, mas se o fato não é verdadeiro em relação a esse artista em particular, temos aí um relato verossímil, na medida em que um número grande de pessoas vive sua vida balançando assim, perigosamente, entre ciclos de mergulhos pavorosos e, em seguida, de fertilidade, resgate produtivo.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Arcanjo Gabriel semi-acabado em 2009.

Eu, por mim, ao longo dos anos, sempre encontrei o artista relativamente calmo, bem falante, e labutando forte, pois não se combate o jacarandá com pulso fraco e mãos macias.Sei que faz uso de medicamentos psiquiátricos porque ele mesmo conta que precisa de seus “remédios de controle”.No começo o visitava na casinha que alugou para si e para a família em ponto central de Araçuaí, ao lado do cemitério. Ali ele se contentava com um “puxadinho” sujo e abafado para trabalhar e, aos poucos, foi preenchendo as paredes caiadas de branco do quarto com traços de lápis grafite, rabiscos de detalhes, recortes sobrepostos, planos vagos, incompletos, idéias que estaria fecundando e instala fluidamente no muro, espécie de caderno mais a mão, antes de transpor tudo para pinturas em tela ou para esculturas em argila e madeira, sonho às vezes concretizado, no mais das vezes não, traços mais ou menos acabados, fantasmas, em abundância, ensaios de estranhezas.

Alguns desses esboços, por algum motivo, ganham mais força em seu imaginário e ele se põe a materializá-los, também sem a certeza de que vai acabá-los, embora possua técnica refinada, sobretudo na escultura em madeira, em que está sempre a experimentar, com fúria, erros e acertos, colagens, apliques, reformas, recolagens, pronto a mudar de ideia, mesmo na reta final.

Esboços de obras na parede em 2005Marcinho e um ajudante especialmente sagaz que encontrou e com quem andava trabalhando, em janeiro de 2011, estavam havia meses empenhados na elaboração de uma espécie de forca enorme, toda entalhada de relevos barrocos, um grande investimento de tempo e um grande risco comercial, pois quanto maior, mais desengonçada e maluca uma peça, mais dificuldade terá de ser vendida nos altos preços que Marcinho precisa impor, considerando sua arte lenta e refinada

E não seria possível embarcar a forca em avião a partir de Araçuaí, não caberia em carro pequeno, não preencheria todo o frete de um caminhão. O lugar é distante de grandes centros, o comprador ideal pode levar meses ou anos para passar por aqui interessado numa peça como essa.

MDetalhe da forca de 2011as Marcinho queria terminá-la, era uma necessidade maior, interior. Ou o era, pelo menos, no momento daquela visita. Nesse dia, diziam que estavam pensando em produzir, o mais rápido possível, uma pequena fornada de cerâmica, para cumprir com o serviço miúdo e mais rentável que lhes garante o pão de cada dia.

Um ano mais tarde, pergunto ao artista qual foi afinal o destino da grande obra, relacionada à mitologia que o católico mineiro tece em torno da figura do mártir Tiradentes. Disse-me que, depois de minha passagem, precisou desmembrá-la, olha a coincidência, como fizeram com o corpo do líder inconfidente, e vender os pedaços mais em conta, artifício a que se obriga com freqüência, quando o bolso vai ficando vazio e faz-se necessário abrir mão da integridade da arte em favor da mais imediata subsistência.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Materiais sobrepostos no início de uma obra.

Em janeiro de 2012, Marcinho estava atacando na peça que está na foto ao lado, e tinha chegado ao ponto em que o esboço deveria assumir algum aspecto de acabado. Era um problema, pois na base de diversos tipos de madeira, pedaços de porta, caixotes, tocos secos, ele estava realizando uma série de testes, como se pode ver, recheios que envolviam telas de arame de refugo de construção cimentadas de gesso, um fundente barato se fizer massa com serragem e lascas de madeira que resultam mesmo da atividade. Quem observa a peça assim nas entranhas vai ter dificuldade em ver mas a mente de Marcinho a enxerga prontinha e está trabalhando sobre todas as etapas futuras, até quando sua idéia inicial vai estar completa, perfeitamente concretizada, entalhada em detalhes, lixada, pintada, envernizada e tal, do caos às harmonias celestes.Não é comum encontrar na estatuária rústica em argila do Jequitinhonha o tema religioso, ao contrário de certos locais do Nordeste do país, onde ele predomina, mas Marcinho toma muito emprestado, conforme planos de imaginação muito próprios e inusitados, do simbolismo católico.O mercado impõe aqueles modelos que tiveram sucesso, no início da carreira do artista, embora não possa exigir o modo específico que ele produz cada obra e por isso, por vários anos, encontrei Marcinho entalhando um Arcanjo Gabriel diferente, sempre em madeira dura, bela, de lei. Uma estátua deste tamanho e quilate, com tantos níveis de detalhe, nunca, de fato, repetida, exige meses de dedicação e não pode ser vendida por menos de cinco mil reais. Em geral é feita por encomenda, o que não é garantia de que seja em breve adquirida por alguém pois não é raro acontecer de quem fez o pedido nunca mais dar as caras nessas longitudes.

Outra prova bastante da influência religiosa e da habilidade do mestre está na cópia barroco-sertaneja que estava fazendo em 2009 da Santa Ceia de Da Vinci, como vemos na foto em destaque.

A Santa Ceia em 2009

A Santa Ceia em 2009

Um mendigo se descompôs sobre um prato (servo servido como comida?) e ficou ali, todo retorcido, estendendo a mão e olhando sofrido, pedinte, desde baixo, como cão. Poderia ter feito parte do conjunto de um presépio e ter sido testemunha do nascimento do Deus Menino, mas seu criador se resignou a vendê-lo para mim cru de cores, em separado, assim como está, sozinho e ressignificado, coitado!

São Francisco Buda barroco de 2002

São Francisco Buda barroco de 2002

A marca de Aleijadinho, a força do ideário cristão, alguns traços orientais e eis que surge, em cerâmica, o São Francisco Buda deitado na telha que comprei, em 2002, por oitenta reais e podemos admirar na foto.

Como seus esboços a lápis na parede branca, como seus arranjos improvisados no coração da madeira, o sistema comercial de Marcinho, como se vê, está igualmente semi imerso no caos. De todo modo, ao final, ele segue sobrevivendo. Aprendeu a escultura de Dona Zefa, célebre e generosa artesã, que conhece desde a infância, e dos tantos outros escultores locais. Mais tarde, esteve em Belo Horizonte por uns tempos e na capital aprendeu, em atelier profissional, a reproduzir em madeira o santuário barroco, em troca de trabalhar para os proprietários. Afirma que seu ofício acabou tão perfeito que passava por falsificação. Nesse período, diz ter sido muito explorado em sua arte, o que o levou a voltar para Araçuaí onde os ventos mesmo de sua alma o conduziram a redimensionar, a seu bel prazer, o universo plástico e a técnica fina que foi levado a absorver em BH, senão por satisfação, por necessidade.

Arcanjo quase pronto.

Arcanjo quase pronto.

Na certa, primeiro, de Lira Marques, depois, de outros, Marcinho assimilou também a técnica rústica e a arte da cerâmica dita “decorativa”. Embora poucos artistas da região se igualem a ele no poder de modelagem (talvez João Alves de Taiobeiras e Leonardo de Jequitinhonha), Marcinho não se preocupa em esmerar o acabamento com as tinturas de terra e polimentos que tanto prezam às bonequeiras do vale. Também não parece ter estômago para ficar repetindo indefinidamente seus sucessos de venda, como tendem outros cronistas do barro. Tudo indica que está mais interessado em produzir uma peça expressiva, de tamanho pequeno a médio, dadas as limitações de transporte (diverso do padrão grande e pesado das esculturas de madeira), e partir logo para a seguinte, considerando que, para vender barato, precisa produzir quantidade embora tentando, pois não consegue ser repetitivo e previsível, um mínimo de perda de autoria, no que talvez tenha que descuidar um pouco do acabamento.Eis o que é Marcinho, um artista completo, demasiadamente humano, lutando de forma brava e hábil, entre as tempestades da alma e as corrupções do mercado.

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Para ler o quinto post, Lira Marques, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/12/13/cronicas-do-jequitinhonha-lira-marques-2/>

Crônicas do Jequitinhonha: Lira Marques

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraQuando o pesquisador de campo em antropologia está amparado, como eu estou, de conhecimentos limitados em matéria de psicologia e psiquiatria e mesmo que, somados os encontros de mais de uma década que tive com os artistas e artesãos de que tenho tratado nestas páginas, eu tenha tido um acesso, não superficial, mas ainda restrito, aos recantos mais íntimos da vida familiar e pessoal dessa gente, não pode arriscar, por risco de imprecisão, um diagnóstico a respeito de como a dança da doença e da saúde age sobre o corpo e a alma de cada um dos sujeitos que visita, em especial os assim denominados “loucos”.

Foto: Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Os jovens Lira e Frei Chico, na década de 1970

Diante disso, minha maior preocupação na palestra de fins de setembro para que fui convidado, no CAPS Itapeva, basicamente, foi demonstrar o interesse, para a psicologia e para a psiquiatra modernas, da análise antropológica.

Que utilidade haveria para essas ciências da alma (dirigi o questionamento à platéia) estar pensando as importantes diferenças ambientais, laborais e sócio-culturais existentes entre o contexto da civilização artesanal indígena e campesina sertaneja e o contexto da civilização mecânica, urbana e eletrodoméstica em que a maioria, acredito, dos leitores desse texto está mergulhada? O estudo dessas diferenças poderia ser um estímulo para tentarmos entender juntos o fenômeno da inserção social e produtiva do “louco” com foco no aspecto da saúde?

Claro, não estamos operando aqui com a apologia do estilo de vida de índios e camponeses, coletores, caçadores, mineradores primários, artesãos e lavradores, com tudo o que ele implica em termos de rudeza, enfrentamento pesado dos elementos e limitações impostas pela ausência de certos refinamentos que dependem da educação formal, embora procure demonstrar, com os exemplos que estou trazendo, as sutilezas particulares que esse estilo possui.

Quem, por exemplo, uma vez as tendo adquirido, poderia se privar das luzes da indústria cinematográfica ou do instrumento do piano, de lenta evolução tecnológica e, tantas vezes, de produção artística esmerada? E porque, para apreciar tais finesses, temos que abrir mão da transcendência simbólica, da conexão cósmica, do potencial estético, da compreensão ativa da matéria e da fortaleza física em que está implicado o trabalho artesanal de base?

EFoto: Coleção de tinturas de terra mais, estamos observando, nesta sequência de postagens que visam aprofundar os temas da palestra, a seguinte evidência: o acesso universal, no ambiente comunitário sertanejo, a recursos primários de técnica e linguagem artísticas pode levar certos sujeitos a níveis surpreendentemente elevados de expressão pessoal e trabalho criativo, a provar que o solo é, via de regra, fértil o bastante, sendo necessário apenas, claro, primeiro, cultivá-lo e, depois, minimamente, prover a sede e a fome com produção continuada e um máximo possível de retorno econômico.

Nada mais ilustrativo nesse sentido do que o caso de Lira Marques.

Assim como Noemisa, de que falei na semana passada, Lira é herdeira da velha tradição, de origem camponesa européia, ameríndia e africana, das paneleiras do sertão brasileiro, um misto que resultou, de todo modo, numa técnica rústica bem padronizada, disseminada em vasto território, com idênticos métodos, implementos, instrumentos e tipos de utilitários produzidos.

No link do fim do texto podemos ter uma idéia de como uma dessas artesãs de tradição centenária trabalha, assentada no chão de terra batida de sua casa de pau-a-pique.

Porém, diferentemente de Noemisa, de Ulisses e dos Juaquis da Fulia, de quem tratei nas últimas postagens, Lira foi criada, predominantemente, no ambiente urbanizado de Araçuaí.

Certo, esta como as demais cidades que conheço nesses sertões, como a boa parte das pessoas que vivem nelas, ainda estão muito ancoradas em ambiente rural, embora se vejam, a cada ano, mais desarraigadas, em virtude dos ventos da modernidade que avançam, inexoravelmente e sobretudo em seus aspectos mais deletérios, sobre um meio especialmente vulnerável à urbanização desordenada e à cultura individualista, consumista e massificadora que constitui a espinha dorsal do novo sistema.

Em tempos assim tumultuosos e desencantados, figuras da estatura de Lira Marques são verdadeiros botes salva-vidas para os que estão a seu redor e ao nível da comunidade.

Em minha última visita, três anos atrás, estava especialmente empenhada em pôr para funcionar um museu de artefatos antigos da cultura do vale e de obras de artistas regionais diversos.

Foto: Máscara de inspiração africanaIncontáveis são os cursos que já deu, espontâneos ou remunerados, de cerâmica e pintura, para os “seus” e para os “de fora”, conforme a arte econômica do sertanejo pobre de utilizar dos recursos baratos que estão à mão, para lhes agregar valor, com habilidade, se beneficiando do tino comercial desenvolvido no ambiente urbano.

Além disso, Lira, vez por outra, veste a personagem de roupas de chita e trancinhas juvenis com que atua no coral Trovadores do Vale, de que foi uma das fundadoras, faz quase quarenta anos.

Ela e Frei Chico, padre holandês já pra lá de brasileiro, mantêm, há décadas, rica e produtiva amizade, e realizaram uma vasta pesquisa da cultura do Jequitinhonha, sobretudo de seus cantos e danças populares. Adaptando para o palco essas tradições de roça e de rua, os dois vão construindo o repertório do grupo coral, com o que as mantêm vivas do modo possível.

Nas viagens que fazem juntos, estão sempre atentos às cores das terras de cada local por onde passam: grotas esbarrancadas, margens de rio, recortes de máquina à borda de rodovias em construção. Recolhem amostras, levam para casa, a mestra de ofício faz seus testes e, se aprovadas, as dilui em água, dentro de garrafas pet de dois litros que ornamentam, disciplinadas, muretas e estantes da oficina caseira onde trabalha, ao invés de boiar por rios e mares. Foto: Seres de sonhoQuando precisa das tinturas, mistura um pouco à cola Tenaz, fixador barato, e aplica sobre pedronas de quartzo que, por milênios, foram arredondadas e polidas pelas torrentes do Araçuaí. Também as utiliza para desenhar sobre papel Kraft e uma variedade de suportes de baixo custo, compondo as imagens de seres de sonho que navegam nos vendavais de Saturno como as reproduzidas na foto ao lado.

Se tomássemos pelo que vemos na casa de Lira, não acreditaríamos que se trata de pessoa tão engajada em atividades de relação construtiva.

A chegada de visitas, clientes, curiosos e pesquisadores é sempre esperada onde se encontre o artesão de fama, mas o clima da casa de Lira, no mais das vezes, é taciturno, janelas e cortinas semicerradas. Alguém bate palmas, uma irmã, um sobrinho demora a dar as caras na varanda e chega de mansinho, com poucas palavras e sorriso nenhum nos lábios, a demonstrar que ali mora gente cuidadosa e desconfiada.

Nas inúmeras moradias que visito em todo o Jequitinhonha, em geral, quanto mais sou conhecido, mais calorosamente costumo ser recebido, entre esses mineiros de efusão quase baiana. Mas é sempre difícil para mim chegar à porta de Lira Marques.

Suspeito que faça uso de medicamentos psiquiátricos, não sei dizer quais deles e, caso os utilize de fato, não tenho como medir seus efeitos, piores ou melhores.

Lira está hoje na casa dos sessenta, não é muito idosa. Mas quase nunca me reconhece à primeira vista, não importa quantas vezes retorne. De todo modo, sempre, me convida e me conduz até a oficina, nos fundos. Atravessamos toda a casa em silêncio, nos instalamos, longe do centro social, que pertence à família, e só então podemos ter nossa conversa, em particular. Porém, nem sempre permite que ative minha câmera de vídeo para filmá-la enquanto fala, embora goste que eu fotografe as peças expostas e aFoto: Pintura de tons de terra sobre pedra do Araçuaís que foram registradas e dispostas, creio, desde os anos 1970, num álbum que possui. Passamos então à entrega do presente de fotos que fiz na visita anterior, jogo na mesa outras referências de praxe, é como um ritual, devagar ela vai se lembrando de quem se trata e, daí em diante, vai-se fazendo, aos poucos, mais falante e acolhedora.

Muito se discute a respeito das diferenças acaso existentes entre o artista e o artesão. Eu particularmente não as considero diferenças de grau, mas de oportunidade. Como o artesão não pode dar-se o luxo de vender suas peças nos preços elevados que o artista “consagrado” obtém nos mais ricos mercados, vê-se obrigado a reproduzir os temas de sua criação que, nos sucessivos testes de aceitação junto ao comprador, acabam se fixando como os produtos mais rentáveis. É, no mais das vezes, uma questão de sobrevivência, não de competência em matéria de criatividade. Mas é também uma armadilha, na medida em que os modelos “de sucesso” precisam ser tão repetidos que podem agir como entrave a novas experimentações, as quais constituem sempre um risco em termos comerciais.

É o que vejo acontecer com diversos “cronistas do barro” que conheço, como Noemisa de Caraí, João Alves de Taiobeiras, Leonardo da cidade de Jequitinhonha ou Paulo, do distrito de Guaranizinho, que devem se prender à reprodução de seus temas mais famosos se querem se manter e exercitam com parcimônia a inventividade.

Lira, contudo, é um caso especial, considerando que partilha, em certa medida, de fontes de alta cultura, de práticas inovadoras e do acesso a um mercado talvez um pouco mais seleto de objetos de arte.

Foto: eça de cerâmica de apelo comercialAssim, para fazer a renda segura, do dia a dia, ela possui seu rol de peças comerciais, de valor atrativo, como as pinturas de terra sobre o kraft, as máscaras de parentesco africano ou as figuras riscadas em placas de cerâmica, magníficas, como as que estão nas fotos que selecionei.

O diferencial de Lira é que ela faz questão de reservar um certo tempo à criação gratuita e pode ser equiparada a qualquer grande artista assim considerado.

Contou-me que possui também algumas peças autorais que reproduz, mas que as refaz apenas em raras oportunidades, e nunca da mesma forma, menos por necessidade financeira e mais por ânsia de expressão de momentos únicos ou de sentimentos pontuais.

Levei à palestra e passei pelas mãos dos presentes um exemplo deste tipo de obra artístico-artesanal, a que a Lira Marques deu o nome de “Me Ajude a Levantar”.

O título se justifica, ela conta, diante do seguinte fato que lhe ocorreu.

Um dia bateu a sua porta uma nativa da região, demonstrando muito interesse em conhecer sua arte.

Certos sertanejos não possuem o menor polimento e podem ser bastante grosseiros e invasivos.

Na certa, esta pessoa estava esperando encontrar algo semelhante à boneca caprichada que aparece na foto abaixo, da grande mestra Isabel de Santana do Araçuaí, tinta de sutis tons terrosos, que é a marca do dito “artesanato do vale”, tornou-se a menina dos olhos de atravessadores, lojistas e decoradores à caça do lucro fácil e donos de pousada no encalço do bibelô padrão exótico ou constitui um prato cheio para o jornalista genérico, rasteiro e mistificador.

Foto: Boneca de Dona Isabel de Santana do Araçuaí

Lira Marques, todavia, possuía algo bem diverso a oferecer à tal mulher: criaturas de planetas fluidos planando em cristais roliços de riacho, grafismos de sentidos íntimos intraduzíveis, impressos em papel grosseiro, cenas de aborto, pesadelo e desastre, fome, morte, seca e enchente moduladas em barro com muito mais zelo pela simples força da expressão do que pelo mero atrativo ornamental.

Uma dessas peças estão representadas, abaixo, em fotos de fotos que fiz do album de Lira.

Foto: AbortoAo se deparar, porém, com esse rol de estranhezas e má-formações, a visita disparou: “Maiz intão é ess’ cu suju c’a sinhora tein pra mi mostrá?”

Cu sujo, uma expressão local muito rude e ofensiva que designa algo mal acabado ou feito de forma porca, relapsa.

A ofensa foi tão súbita e despropositada e pareceu tão brutal ao coração de Lira que a fez mergulhar num processo depressivo de que levou muito tempo para se recuperar. Ao final, certo dia, uma idéia a iluminou. Não se fez de rogada, tratou de pô-la em execução: buscou o barro na mina, empedrado, trouxe pra casa onde o bateu, forte, no pilão, peneirou, temperou o pó com água, compôs o bolo, daí modelou, poliu e queimou seu primeiro “Me Ajude a Levantar”.

Foto: Um dos primeiros Me Ajude a LevantarO tema retrata, a princípio, uma figura humana deitada de barriga para cima, com os braços junto ao tronco, no momento em que começa a subir a própria cabeça antes de poder aprumar o corpo, ou seja, no começo de seu soerguimento. Lira conta que foi assim, no ato desta criação, que teria começado a superar a depressão.

Alega também que, quando sente a necessidade, retorna ao modelo, mas em tamanho e disposição diversas. Nas fotos, um dos mais antigos, em preto e branco, está posto ao lado de outro, mais recente, que Lira me deu.

Foto: Me Ajude a Levantar que ganhei de presenteSim porque, na terceira ou quarta visita a sua casa, encontrei dentro de um pote uma estatueta pequena que, à primeira vista, me chamou fortemente a atenção. Quando a retirei dentre outras peças, fiquei tão sinceramente admirado, pelo que parece, que Lira me presenteou com a obra, um de seus poucos e assombrosos “Me Ajude a Levantar”.

O ato só fez aumentar meu espanto, já que, sentindo os hábitos reservados daquela artista fabulosa, não podia imaginar que pudesse tão repentinamente responder a minha surpresa e admiração, num movimento típico de quem se deixa levar por forças psíquicas mais essenciais e vitalizantes do que as que governam os interesses materiais de superfície.

Coiz’ di lôcu.

Foto: Lira1
Para acessar o vídeo, clique no endereço: <http://youtu.be/uHJnGF8xRS0>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Para ler o quarto post, Ulisses e Noemisa, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/29/cronicas-do-jeqiutinhonha-ulisses-e-noemisa/>

Crônicas do Jequitinhonha: Ulisses e Noemisa

*Por: Naldo Moreira

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo o desenvolvimento dos temas da palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de alguns exemplos de “loucos” artistas do barro do Jequitinhonha, a começar por Ulisses e Noemiza.

Num dia de julho de 1997 eu e Matheus Cotta, um grande amigo, com quem então viajava, conhecemos Ulisses de Caraí e lhe demos uma carona até o fundão do vale do Ribeirão Santo Antônio, onde mora, uns vinte quilômetros subindo e descendo as cristas das altas montanhas das nascentes do Médio Jequitinhonha. Matheus dirigia.

Esse sertanejão de metro e noventa, cabeça enorme, muito hirto e impositivo, quando nos viu, nos encarou de frente, pesado, analisando, detrás de óculos grandes e fundos, e o conjunto, para os jovens tenros de sertão, metia medo.

Precipícios sim, precipícios não, pontes, mataburros, suadeira, muita poeira, mas está muito melhor do que navegar pelas estradas de janeiro, ensebadas de lama, com que não teríamos chegado e muito menos regressado da grota medonha que o homem e sua família habitavam.

Não gosta que ninguém seqüestre em aparelhos eletrônicos o trovão de sua voz, muito menos sua imagem, já de cara, na cidade, nos avisaram. Tudo bem, tudo bem, não tinha necessidade não, o importante era a conversa, a aventura.

Acontece que, ao longo da viagem, da boca do sujeito jorrava uma filosofia da natureza de sabor tão peculiar (veneração de lajedo de pedra, conjuro de espírito de plantas, conversa de águas de riacho, etc.) que, assentado a sua frente, no banco do passageiro, não resisti e, cuidadosamente, saquei da bolsa o gravador, pensando que, no fluxo egocentrado do discurso, o velho caboclo não fosse perceber o “clic” do botão de “record”.

Foto: Peça antropomorfa de Ulisses - 1998Mas o gigante de óculos fundo de garrafa escutava muito bem sim senhor e estava perfeitamente atento por detrás da língua solta, pois mal a maquininha dos infernos deu o sinal, ele estacou, parou, abrupto, de falar. Ai, ai, ai, tremi por dentro… O silêncio insistia… Para quebrar o gelo, tolo, arrisquei uma perguntinha sem graça… Por trás de minhas costas, o vazio sufocava… Por alguns segundos torturantes, esperei…E era o nada… Por fim, de súbito, Ulisses decretou: “ô seu moçu, u negóc’ é u siguinti, ôce faz favô di disligá iss’aí purque iss’aí é u passadu, iss’ aí é a morti!” E ponto.

Da única outra vez que vi Ulisses, eu vim sozinho. Porém, em certo ponto da estrada, o peso de meu automóvel fez ruir um velho mataburro e ali ficamos, empacados. Tentei de tudo, sem solução. Então, resolvi andar até a casa do artista, mesmo temendo que me reconhecesse como o idiota traidor do microfone. Reconhecer, reconheceu. Mas como foi, afinal, que me acolheu? Adivinhem…

Ao contar o ocorrido, Ulisses e um genro seu, que estava por ali, pois o caboclo é dono de suas horas, voltaram prontamente comigo ao local do acidente e passaram a manhã iFoto: Visões de Ulisses de Caraínteira lutando com a cabeça e com os braços para tirar da vala meu trambolho de aço. Não se renderam enquanto não venceram o desafio, uma batalha, sob um sol de fritar os miolos. E depois, de quebra, me ofereceram um almoço de levantar defunto de que não me esquecerei enquanto vivo for.

Ulisses, ele mesmo, faleceu, faz poucos anos, e foi parar nos céus de Dali e Miró, mas por décadas sua mente ardente e suas mãos poderosas materializaram, em pesadas esculturas de argila, as imagens míticas que povoavam sua fala, como vemos no exemplo da foto.

Alguns quilômetros riacho abaixo, onde só era possível chegar a pé, até pouco tempo atrás, por uma trilha saborosa, em meio à mata, com direito ao luxo de sinfonias de passaredo e aromas insólitos, profundos de surpresa, ainda vive a prima de Ulisses de quem hoje quero falar com mais detalhes: Noemisa Batista Santos.

Clima quente, pés criados no chão, roupa pouca de chita pobre, essa coisinha mirrada deve estar na faixa dos quarenta quilos, o porte de uma criança magra, não mais. Possui gestos elétricos, mas firmes, pois é roceira, toda concretude e trabalho duro.

E não é como Ulisses, não viaja nas idéias não. Contudo seus olhos nunca batem com os nossos, estão sempre divagando, para baixo, para cima, para os lados, e suas frases rápidas, que saem como flechas, arremessadas no ar, a esmo, sem alvo, embora só tratem das estreitezas cotidianas, são coisa de outro mundo, pois falam uma língua roseana que, meio sem querer, acaba que se faz entender.

Observemos como procede Noemisa, no vídeo disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be>, observemos como o enigma de sua fala e a dança miúda de seus gestos habituais pode ser capaz de produzir o realismo fantástico mais puro.

Foto: Interior da casa, o fundo agora é verde água - 2010

Noemisa “ficô pra tia”, como se diz. Por que? Por imposição da mãe e das irmãs mais “sãs”? Porque talvez, na falta de uns parafusos, jamais tenha sido desejada como mulher, pleiteada como esposa? Difícil saber.

O fato é que ficou para ela, a caçula, a tarefa de uma vida de cuidar da irmã doente. Embora visite essas duas há mais de quinze anos, jamais vi a cara da outra, a “louca” propriamente dita. É sempre mantida presa, quando estranhos se aproximam, oculta no quartinho dela, especial, pois tem porta e corrente com cadeado, no mais, inúteis onde não há o que cobiçar.

As casas da roça por aqui não têm forro e os construtores não parecem ver motivos para subir as paredes internas, de adobe, até o nível do telhado, e enquanto converso, na sala ou na cozinha, ao lado, com a dona da casa, voam lá de dentro da clausura, Foto: A casa feita em 2001 registrada em 2003como que vindos do limbo do purgatório, sentenças secas, exigências ríspidas, palavrões e impropérios de toda estirpe, quando não, em meio ao caudal raivoso, de repente, surge uma modinha sertã das boas, das de sabor antigo, e muito bem cantada, tocante, carregada do espírito das velhas folias, e olha que por aqui esses folguedos já não passam há muito, muito tempo.

Esse canto sem face, de fogo louco, encantado mas agressivo, que soa, ao mesmo tempo, mecânico e sentido, é o pano de fundo dos encontros anuais que tenho com Noemisa, e produz no ambiente da casa uma estranheza que poderia muito bem se achar num livro de Gabriel Garcia Marques mas, juro, está na realidade mesma, nua e crua.

Em janeiro de 2011 visitei Noemisa pela última vez, poucos dias antes do Natal, e a encontrei, como na foto ao lado, mirando o quintal da janela da cozinha, tão pequenina, enquanto lá fora o sol estourava. Observem, o gnomo traz na cabeça uma boina vermelha de Papai Noel. Só Deus sabe onde a conseguiu, em que outra dimensão. Só para Deus ele está trajando o emblema, nessas solidões onde o calor impera mas o tempo está congelado. A cena parece patética, mas é mais complexa, é espantosa: intrigante e perturbadora.

Noemisa deveria, por tradição, ter herdado da linhagem materna a arte da paneleira e fazer grandes potes, bules, buiões e cuscuzeiras. Mas, sendo a mais nova, franzina e “abestaiada”, na crença da mãe e irmãs, ficou restrita às tarefas práticas de catar lenha miúda, preparar bolos de argila ou fazer a comida enquanto as outras subiam as “vasias”. O produto valia uma ninharia mas era o que tinham para obter alguns trocados, um escambo pouco vantajoso na feira de sábado ou nas mãos dos tropeiros acaso de passagem pelos rincões esquecidos onde moravam.

Foto: Crônica do sertão, o pássaro na boca da cobra coral - 2002Como aconteceu com outras chamadas “bonequeiras do Jequitinhonha”, a maioria filhas ou netas de paneleiras, a família permitia que Noemisa, desde criança, colocasse no forno, entre os utensílios, uma ou outra boneca para brincar ou vaquinhas e burricos para montar um presépio rústico, improvisado.


Os anos se passaram, as vasilhas de barro perderam a concorrência para as de ferro e alumínio, cada vez mais baratas, leves e quase indestrutíveis, a manufatura de potes e panelas foi à falência nestas e em outras paragens, e a arte teria desaparecido com o antigo comércio não fosse a loucura de Ulisses, Noemisa e outros que transformaram brincadeira de infância em atividade séria e remunerada, voltada para um público distante, mas que aos poucos passou a influenciar os sertões, na esteira da modernidade.

Desde então, desde meados da década de 1970, e pouco a pouco, os dois mudaram, com muita paciência, esforço e inventividade, o destino do Ribeirão Santo Antônio. As próprias irmãs de Noemisa, Maria e Santa, entre outras, da comunidade, passaram a copiar, sem o mesmo encanto, as doidices que a menina impunha ao barro.

De mera assistente de ofício ela se tornou, assim, o centro de atenções inusitadas: compradores abastados, os mais ousados, que se arriscam nessas lonjuras, brasileiros e alguns estrangeiros, lojistas, jornalistas, pesquisadores. E foi assim que tornou-se o arrimo financeiro da família, com o que vem ajudando a criar as sobrinhas e um filho que uma delas, muito cedo, jogou no mundo, esse mesmo que aparece na filmagem e na foto abaixo.

Apesar da “fama”, Noemisa jamais conseguiu se ver livre dos mesquinhos atravessadores locais, que rondam à procura de uma oportunidade de lucro fácil. E quando a clientela some, por meses a fio, e é preciso remendar uma cerca ou dar capina na “rucinha” de milho e mandioca, pode se ver obrigada a trocar uma de suas peças por um dia de trabalho de algum rapagão da vizinhança que tem mais liberdade para ir negociá-la, da melhor forma possível, no comércio das cidades mais próximas.

Apesar das dificuldades do dia a dia, sobra tempo e invenção suficiente para deixar a casa bem branquinha com uma espécie de cal natural, a Tabatinga, e depois pintar sobre as paredes de dentro e de fora, com óxido de ferro, corante vermelho com que também tinge suas peças de barro, os magníficos desenhos de arranjos de vasos e flores.

Em geral, Noemisa faz, com suas obras, a crônica da vida sertaneja: o noivo e a noiva vestidos para o casório, a velha fiando algodão, a mula que carrega de cada lado da cangalha um feixe pesado de lenha, o caçador e seus cães que encurralaram uma onça na árvore e estão por abatê-la, a cobra coral que engole um passarinho, o caboclo que está a ponto de enfiar a faca no porco, algumas representadas nas fotos que selecionei.

Foto: Cronica do sertão, sacrificando o porco - 2011Mas em seu repertório existem certos seres, quase identificáveis, como o suposto cão que ganha algo de criatura extraterrestre por um pequeno exagero de feições ou pela pintura geométrica estilizada que cobre seu corpo e existem certos arranjos de um simbolismo muito pessoal cujo significado apenas a autora poderia nos explicar em sua língua de outras eras, se estivesse disposta. Podemos vê-los nas fotos abaixo.

Tudo considerado, penso com meus botões: o que teria sido de Ulisses e Noemisa caso tivessem sido criados como a maioria de nós, que compartilhamos esse texto, habitantes da grande cidade, alheios à rotina laboral camponesa, de grande esforço físico, domínio ambiental, abrangência cósmica e implicações simbólicas? O que lhes teria acontecido se tivessem sido privados da diversidade e da intensidade dos contatos humanos, características das comunidades rurais sertanejas? E se não tivessem nutrido suas almas dos referenciais estéticos da herança católica embaralhada à mística cabocla, Foto: Cão extraterrestre - 2002de traços negros e índios subterrâneos? E se não tivessem sido a platéia atenta dos contadores de “causo” ou se inspirado, na infância, nos poetas cantadores da Folia do Divino que passou por suas casas? Como teriam vivido, então, com um mínimo de dignidade? Como teriam encontrado os recursos para gerir e dinamizar os poderes fantásticos de sua loucura?

Num tempo em que a psicologia passa por um processo de psiquiatrização de conseqüências catastróficas e sofre o ataque de uma indústria farmacêutica de alta lucratividade que, por isso mesmo, pretende impor às universidades mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos, uma visão biologista da psiquê humana, o que, no fundo, traduz o velho e cansado moralismo bíblico que assevera que todo o mal reside no indivíduo, exemplos como os que acabo de dar, espero, são suficientes para demonstrar enfaticamente o quanto o ambiente natural, as tradições, o trabalho diversificado, o intenso convívio comunitário e o exercício da arte aparentemente mais trivial podem mudar por completo o destino pessoal de quem, por fatores genéticos tantas vezes insondáveis, é candidato ao sofrimento psíquico. E demonstrar que essas potências mesmas, libertas, podem se tornar o pilar material e estético de uma comunidade.

Foto: Noemisiahttp://www.youtube.com/watch?v=w5RreZJ1jEA&feature=youtu.be

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o segundo post, “folie” e estética, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Para ler o terceiro post, Os Juaquis da folia, acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/11/11/os-juaquis-da-fulia/>

Crônicas do Vale do Jequitinhonha: Os Juaquis da Fulia

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraProsseguindo no desenvolvimento dos temas propostos na palestra realizada no CAPS Itapeva, passo a tratar de exemplos da inserção produtiva do “louco” no contexto camponês do sertão.

Num conjunto de comunidades caboclas em que todos se conhecem, num amplo campo de relações (certa vez um jovem me surpreendeu ao afirmar que reconhecia uma pequena sombra que caminhava a uma distância espantosa, na crista de um morro, pelo simples modo como o homem caminhava) e onde existem muitos Pedros, Marias, Adãos, Evas e Joaquins, é preciso diferenciá-los de algum modo.

Se o sujeito vem de uma comunidade vizinha, em geral, toma o sobrenome do lugar, Pedro de Poço d’Água ou Maria do Galego. Mas em sua terra mesmo ele é normalmente associado a algum parente marcante, um dos avós, dos esposos, um pai ou uma mãe de personalidade: Eva de Adão ou Adão de Eva.

Mas o Joaquim de que falamos possui diversos atributos e, assim, diversos apelidos notáveis.

Sua mãe, Dona Virgínia, octogenária, sólida como o granito, olhos azuis dulcíssimos, alma pura sertaneja extremamente bicho-do-mato, quase não sai de sua cozinha, mesmo agora que os foliões inundaram a casa com sua “alegriagi”: gritarias, cumprimentos e cantigas exaltadas, fanfarronices de toda sorte, um Deus-nos-acuda.

Está ao pé do fogãozinho, acuada, quando a vejo, soprando o tição para a brasa não minguar, conferindo o pontoFoto: Dona Virgínia recebe os foliões de bater o angu, despindo um dente de alho, defendendo a rotina de uma vida e a timidez implacável atrás dos gestos cotidianos e de um dos netinhos que veio da vizinhança e a quem se achegou para receber como podia o choque da turba amalucada que se apresentava sob o pretexto elevado do louvor à bandeira do santo. É com o a vemos na foto.

Assim se explica porque nosso Joaquim é tido, antes de mais nada, como Juaqui d’ Virgínia. Está viúva há séculos e esse filho que não se casou e ficou em casa é um simplório, uma eterna criança, feito para cuidar.

Hoje, no alto de seus cinquenta e tantos anos de idade, quando chegou, de outras paragens, conduzido pelo barco da Folia, à própria casa, eu que conheço esse Joaqui há pelo menos uma década, percebi como, a sua revelia, desligou-se nele a chave do folião “ponta-firme”, cantador de compromisso, e ligou-se a do moleque que será até a morte, o meninão bobobediente, de hábitos, espaços e usos muito demarcados, que não saberia viver sem a luz, o carinho e os bons tratos dessa mãe do conto de fadas.

Nesse dia de janeiro de 2010 fiz de Joaqui d’ Virgínia a foto abaixo. Pedi que posasse, o que em geral não faço, mas mesmo assim o menino aparece evidente, em seu quarto, na passagem da Folia. Na câmara minúscula e sem porta de madeira, pendurados nos paus roliços do teto baixo, sobre a cama rude onde dorme, estão os tantos apetrechos, bolsas, sacolas e sacos em que deposita a natureza concreta e também a insólita de seus pobres pertences e, segundos atrás, os tesouros de sonho que ali esconde tinham sido a fonte da especulação zombateira das crianças mais endiabradas e dos adolescentes já meio mareados de cachaça, como sói acontecer.

Foto: Juaqui d' Virgínia entre seus pertences

Nesse dia, contudo, ele mesmo está são, não bebeu não, e aguentou calado a onda de sadismo carinhoso a que já está acostumado, mas de modo sereno sério, a demonstrar com atitude que na casa de sua mãe se encontra bem acima, na órbita do Santo Sebastião, ao posar para o “retratu”.

Mas que ninguém se engane sobre a capacidade produtiva de Joaquim. Como qualquer sertanejo que se preze, ele sabe o bastante de cada ofício que pode garantir sua sobrevivência: planta seu quintal de milho, mandioca, mamão, cana e banana, feijão de corda e andu, cria galinhas, com que vez por outra faz um “negucin” com parentes e “cumpadis”, e possui seus bons aparatos, anzóis e redes, esporas, enxadas e foices afiadas, arreios, estribos e botas calejadas.

Mas sua excelência mesmo está no ramo dos remédios. Conhece todo tipo de folhas, raízes, sementes e cascas de árvores que, socadas, diluídas, fervidas, decantadas, aplacam febre, curam dor de cabeça, depuram sangue, estancam caganeira e amenizam ressaca.

Durante os dias quentes da Folia e em face dos exageros diversos a que estão sujeitos mulher ou homem, moça, rapaz e ancião, seus saberes são sempre postos a prova e, quando exerce a medicina, toma ares corretos, passa em detalhe o aplique, a mistura, a dosagem, e costuma ser respeitado.

E se isto não bastasse, enquanto está embarcado na Folia, Joaquim traz sempre consigo uma bolsa rota de lona e, dentro dela, guarda uma garrafa de vidro colorido, seleto, cheia de sua famosa “miçanga”: pinga embebida em raízes e cascas poderosas, a que Foto: Aparatos de trabalho de Joaquim lavradorempresta tonalidades, sabores e sentidos variados e em torno da qual fermenta, sem ostentação, a lenda dos efeitos milagrosos, na certa duvidosos, mas aceitos por todos, num espectro de reações que vai, na multidão, da admiração fingida à crença mais sincera. A famosa bolsa aparece na foto, pendurada na parede do quartinho onde Joaquim guarda seus aparatos de trabalho.

Embora todos saibam a respeito da reserva especial que o bobo da corte traz na bolsinha, grudada ao corpo, a tiracolo, ele mesmo parece estar sempre a acreditar que se trata de um segredo muito bem guardado, pois a cada vez que algum cristão com “quemação”, “tuntura” ou “piriri-brabo” lhe pede socorro ou que um mestre cantador respeitado quer saborear, após as refeições pesadas, um digestivo forte amargo, é sempre com alta cerimônia, cochichos e táticas de dissimulação que Joaquim convida o privilegiado a dirigir-se com ele para os costados da casa ou o fundão dos bananais onde as aplicações podem-se dar em sigilo absoluto.

E é devido a esta alquimia, a esta mística, que Joaquim é conhecido, especialmente durante o “giru da Fulia”, como Juaqui da Miçanga.

Contudo, não é de tal faculdade que Joaquim tira mais orgulho.

Foto: Menino concentrado segura a bandeira e oferece a esmolaAs Folias do Médio Jequitinhonha são cantadas por dois grupos de quatro vozes, em geral masculinas, postos um diante do outro, nas louvações ao Santo Reis ou ao Divino Espírito Santo, longas ladainhas em que o puxador se compromete a sacar um verso para cada membro da família ou agregados que se apresentam para doar sua “esmola” e receber sua benção ao pegar na bandeira, como faz, concentrado, o molequinho da foto.

O grupo do puxador se esforça para acompanhá-lo, em coral, considerando que as estrofes que inventa são um misto de frases convencionais e inspiradas pelo momento, e a turma da “resposta”, em seguida, deve guardá-las na memória e tentar reproduzi-las com o máximo de fidelidade, se não quer fazer feio.

O coral é composto de três alturas de baixo ou barítono, a que chamam de “contraltos” e uma, muito mais alta, dita “requinta”, posta no fim da fila. Esta é uma voz rara entre os homens da comunidade. Além disso, são muitas as horas que, somadas, dia após dia, os foliões mais fiéis são obrigados a passar entoando, de casa em casa, os mantras religiosos, como a louvação ou o terço cantado, além das cantigas de base das danças leigas, como o “nove” e o “caboclo”, que se utilizam do mesmo arranjo de vozes. Assim, os poucos “riquintêros” são exigidos ao máximo, pois quase não encontram quem possa revezá-los na função.

Joaquim não pensa duas vezes, participa de quase todos os “compromissos” e da maior parte das “brincadeiras”, vem correndo assim que é convocado, enquanto outros enrolam, de corpo mole, valorizando, fazendo cena.

E é nesse momento que nosso herói encarna seu terceiro nome e personagem, o chamado Juaqui da Riquinta, amado por todos por sua bobeira mesma,  prontidão mecânica e dedicação desinteressada. Na foto Joaquim está a postos na louvação à bandeira de São Sebastião.

Foto: Os dois grupos de cantadores louvam Sâo Sebastião

Com o passar dos dias e o avanço da canseira e dos efeitos danosos da cachaçada, a voz vai sumindo, nada que uma boa miçanga não conserte ou não se possa remediar, mal e mal, com o choque depurativo de limão capeta com sal.

Não que Juaqui da Riquinta não se orgulhe do dom que possui, tão requisitado, tão indispensável que é ao bom andamento da Folia, conforme vaga do crente ao profano. E é especialmente sensível ao juízo que eu possa fazer de sua atuação, já que ninguém vai querer dar vexame diante do “omi da fiumadêra”, não é verdade?

“Sem a mia riquinta essa fulia num andava não, é ou num é, fala a verdadi?”

“Não Juaqui!!!”, respondo invariavelmente e pela centésima vez, simpático enfático, “sem a sua riquinta u diabu dessa fulia já tinha acabado, tô pra ti dizê!!”, e invariavelmente meu amigão só falta estourar de orgulho besta!

No link <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I> vemos Joaquim arriscar um verso que inventou para o “caboclo”. Não tem a coragem de propor aos homens a formação dos grupos para que o ajudem a puxar a cantiga e a dança no palco de uma das casas por onde passa a Folia, pois os cantadores não o levariam a sério, mas contou para mim que na noite passada tinha preparado na cabeça, em casa, uns versos só seus. Exultei, de pronto, e fui logo sugerindo que fizéssemos uma tomada de vídeo enquanto ele “mandava vê”. Estava orgulhoso, mas um tanto intimidado. Porém, com insistência (confia em mim), topou.

É “cabocu doidu”, diriam os entendidos. Eu achei o invento fantástico, estranho, de personalidade: os homens trabalham para implantar a ferrovia mas é o “tomóvi” que vai passar.

Joaquim deve ter cerca de um metro e noventa de puro osso, pés, pernas e braços enormes e essa geringonça adora divertir toda a gente com suas tiradas: é muito flexível e às vezes se exibe, como na foto, em sessões de contorcionismo, e se a Folia está passando ao largo de algum campo de várzea, junta gente para assistir o lance do pernalonga alcançar com o bico do botinão a trave do alto do gol.

Sinto por esse Joaqui de tantos nomes, de tantas almas, esse amor dolorido e purificador que certos palhaços líricos ou certas crianças ingênuas, sedentas e atabalhoadas às vezes acordam na gente. E esse sentimento em mim é tão carregado de espanto, gratidão e respeito que não consigo jamais embarcar no jogo, no entanto, admito, legítimo, dos tantos que se divertem em provocar meu amigo, achincalhá-lo, zombar de suas tolices, às vezes até o ponto em que ele explode de raiva e chora, conforme o prazer que o espírito de rebanho costuma retirar, mais em uns, menos em outros, dessas pequenas maldades.

Alguns dos mais sábios sertanejos que acompanham o cortejo e exalam uma dignidade na simplicidade comovente pra caramba, estão sempre aconselhando Joaquim a “num dá pano pra manga”, principalmente quando fica muito bêbado e irritável. Buscam protegê-lo, mas sempre acabam admitindo que algo no pobre diabo gosta de levar as provocações até o limite, como se de algum modo ele se deixasse levar por uma espécie de fatalidade ao sacrifício, ao sofrimento, que é real, em prol da felicidade geral.

Procuro a cada ano levar para Joaquim algum regalo, um canivete, um chaveiro, um boné e, claro, a cópia impressa da melhor foto, sempre diversa, que tirei na Folia anterior.

Em 2011 fiz dele o registro digno de nota que figura abaixo, e estava certo de que ele ia apreciá-lo além da conta, pois aparecia com a barba traçada, uma camisa nova, de estampa ousada, muito bem passada, e trazia, sobre o peito meio à mostra, um colar de sementes e gordas bolotas de madeira que alguns dos rapazes lhe emprestou, para que entrasse “na moda”, na certa pensando em preparar para o galã, por conta do arranjo, durante a festa, alguma de suas cruéis patacadas.

Foto: Juaqui da Miçanga bem trajado pra Fulia

O impacto da oferta, como previ, foi grande, pois Joaquim emudeceu, não agradeceu, não porque não seja educado, ao contrário, sempre se mostra muito grato, mas porque, acredito, desta vez, ficou meio sem palavras, talvez tenha-se emocionado e, para não demonstrar, deu no pé, escapou de si, de nós.

Porém, qual não foi minha surpresa, dias depois, quando a Folia chegava ao fim, e numa das casas Joaquim me sinalizou de longe, indicando os fundos do quintal e convocando para um daqueles conciliábulos secretos em que manifesta a necessidade de comunicar ou oferecer algo de importância cabal.

Chegando ao esconderijo, ele sacou do bolso da camisa a tal foto, dizendo: “óia, essi anu nóis vai fazê assi, ess’retratu aqui, c’ocê feiz di mi, ocê vai levá de volta pra casa, eu vô ti dá el’ di presenti pr’ocê, tá bão, combinadu?”

Era uma dádiva inestimável, um enorme sacrifício da parte desse “cumpanheru bão”, um presente maluco muito especial, algo muito tocante, se é que o leitor nos entende.

E assim é a vida humana, se provocamos, ela nos retribui com inimagináveis, gratíssimas, intensas surpresas.

Foto: Juaqui Canta
Juaqui da Riquinta canta um verso que inventou para o “caboclo”: <http://youtu.be/_O8Vix7qd6I>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012.

Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>

Para ler o último post, “folie” e estética, acesse:<https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/26/cronicas-do-vale-do-jequitinhonha-folie-e-estetica/>

Crônicas do Vale do Jequitinhonha: “folie” e estética

Por: Naldo Moreira*

Foto de Naldo MoreiraConforme prometido, passarei a desenvolver aqui, postando um texto por semana, o exposto na palestra que realizei no último dia vinte e nove de setembro no CAPS Itapeva, intitulada “Saúde Mental e Contexto Social: alguns Exemplos do Jequitinhonha”.

O filósofo e historiador francês Michel Foucault escreveu dois importantes livros cujos temas eu gostaria de aproximar, antes de mais nada, sem contudo me aprofundar nas sutilezas teóricas que os caracterizam: História da Loucura e Vigiar e Punir.

Certas práticas sociais tornam-se tão arraigadas que muitas vezes aparecem a nossos olhos como leis da natureza. Assim, parece muito óbvio à grande maioria de nossos contemporâneos o fato de que os ditos loucos, foras da lei e todo indivíduo que manifeste comportamento anti-social deverá ser excluído do convívio em sociedade através do confinamento, do isolamento, da prisão.

Ora, nem sempre foi assim. Nos dois livros que menciono acima, Foucault realiza uma exaustiva e profunda pesquisa histórica, fartamente documentada, com o intuito de desnaturalizar a idéia do internamento do “louco” e da prisão do “marginal”, demonstrando que trata-se não de uma lei natural e imutável mas de uma construção histórica, lentamente fermentada e pouco a pouco implementada na prática na Europa Ocidental desde a Idade Média, através da era clássica e nos primórdios da modernidade.

Foto do Vale do JequitinhonnhaPode parecer um pouco forçado comparar as regiões rurais da França do século XVI com os sertões brasileiros do século XXI, mas gostaria de me arriscar no aprofundamento da investigação histórica de Foucault e para tanto vou descrever uma cena com que me deparei numa de minhas primeiras viagens ao Jequitinhonha.

Estava andando pelas vielas dos subúrbios de uma daquelas típicas cidades sertanejas do vale, entre moradias de adobe caiadas de barro branco ou Tabatinga, de onde exala a fumaça de fogões a lenha e os dejetos das cozinhas, cheirando a sabão de cinza, correm pelos cantos das ruas, no mesmo lugar em que ciscam as galinhas e chafurdam porquinhos rústicos, em ambiente ainda marcadamente rural, quando me deparo, num terreno amplo, entre duas casas, com um matadouro a céu aberto.

Era uma cena impressionante. Atrás de um muro baixo, onde havia uma entrada aberta, sem portão, debaixo de uma varanda improvisada, num calor infernal, bem pouco propício à higiene, estavam dependuradas as duas metades de um boi que tinham acabado de matar. No chão de cimento grosseiro estavam espalhadas as entranhas do animal e para as bordas escorria um riacho de sangue que tingia todo o solo de vermelho vivo, brilhando ao sol.

Mapa do Vale do JequitinhonhaPara mim, ainda pouco acostumado aos modos caboclos, tudo isto era bastante chocante, mas logo percebi que, para os presentes, tratava-se de uma atividade das mais naturais, pois era possível ver a presença festiva, admirada, das crianças das redondezas que acorreram para apreciar o espetáculo e também por ali rondavam cães sarnentos a espera de um deslize de açougueiros e clientes que se apresentavam no momento propício para disputar os pedaços menos nobres e mais baratos, estando os melhores cortes reservados ao mercado pouco mais refinado do centro da cidade.

Esta imagem demonstra como, no ambiente sertanejo, tudo se encontra muito misturado, sendo ainda incipiente a compartimentação, o exclusivismo, as especialidades e as regras de higienização que caracterizam a vida urbana moderna.

E é nesse ambiente social e produtivo indiferenciado que a figura do “louco” se insere. Não podemos propriamente dizer que, nesse contexto, a loucura seja mais aceita ou melhor assimilada. Acontece que, nesse campo de indiferenciação, tudo acontece diante de todos e cada um encontra muito naturalmente o seu lugar, de tal modo que, em diversos casos, a loucura mesma torna-se um fator importante de produção de riqueza material e de potencialização estética que reverte ao conjunto da sociedade, como veremos pelos exemplos concretos de que estarei tratando, nas próximas semanas.

Foto da queimadinha
– A cachaça queimada com ervas e uma colher de açúcar produzem a
“queimadinha”, é fogo na certa. –

Caso alguém se interesse em aprender a cultivar a terra, degolar uma galinha, beneficiar farinha de mandioca, construir um pote de cerâmica, confeccionar e tocar uma caixa de guerra, cantar, basta observar o que, no dia a dia, está fazendo sua mãe, seu pai, seu vizinho ou outro membro qualquer da comunidade. Claro, num nível de produção muito básico, sem grandes requintes, o mais importante é que os meios de criação estão à disposição de todos.

Histoire de la Folie é o título original do livro de Foucault. A palavra folie, ou seja, loucura, folia, transe coletivo, nos remete à festa da Folia, a respeito de que devo tecer algumas considerações para introduzir a figura magnífica de Joaquim da Miçanga, o tema do post da semana que vem.

Esquematicamente, a Folia é promovida pelo grupo dos foliões: o festeiro, que promove o “giro” da bandeira, seja a dos Reis, do Divino ou de São Sebastião, o procurador, responsável pela guarda do dinheiro e dos bens que vão a leilão e se destinam ao custeio da festa, e o núcleo de cantadores responsáveis pelo louvor ao santo e pelos cantos leigos que animam cada casa. O cortejo vai de casa em casa, pelas roças e pelos povoados, rezando, cantando, comendo, bebendo, até o dia da apoteose, a grande festa final.

Imagem da FoliaAssim, a folia contribui, espalhando, dinamizando o fluxo de sentimentos, para a saúde pública, dependente, vez por outra, de um certo grau de insanidade que, embora permitindo que as regras componham arranjos orgânicos na trilha da pinga, da bandalheira e da gritaria, não instaura a anarquia, como a levar a estrutura aos limites em que ela pode nutrir-se de fontes mais profundas da vida afetiva e criativa.

Lá está o grupo dos anciãos que ainda paira disciplinando a razão soberana da festa, de cunho religioso: comida, cachaça, emoção poética, canto, reza, benção, distribuídos por todos entre todos como uma grande e elaborada brincadeira infantil. Materiais simples, bem trabalhados, mas em processo vivo, poesia à vontade, feita por quem se apresentar, palco aberto, versos se esquecem, mais ou menos, outros se inventam, espírito coletivo vivo vivificado por gênios pessoais muito atados à língua local, o que falam e cantam tem profunda acolhida por toda a gente e essa acolhida no mesmo ato retorna ao artista como estímulo e espírito de criação.

O cenário das roças, da folia original, dá à festa uma dinâmica orgânica, enredada ao seio de cada casa e seus quintais, uns aqui, outros ali, uns jogando verso, outros ouvindo, outros não, outros alheios, proseando, pilheriando, homens se exibindo em seus cavalos, zunindo suas motos, gente partindo, gente chegando.

É uma festa espetacular, justamente na medida em que acontece assim, muito despretensiosamente, entre os presentes, dando a liberdade que essas roças dão para todo tipo de arranjo. Canso de um ambiente, passo a outro, vou a campo, respiro, solitário mas, alhures, encontro um “cumpanheru bão”, bom de conversa, converso, bebo, canto, danço quando quiser ou quando precisarem de mim, de meu ânimo próprio, de meu tipo especial de voz.

Foto de Folião
– O “doidinho” cantador da comunidade de Inácio Félix e seu violão roto de
quatro cordas: o quanto basta para o encantamento da festa. –

Mas a Folia tem um rito e tem seus compromissos, de casa em casa, o festeiro, o procurador e os mais severos foliões vão espalhando o boato e de repente é a hora do canto de louvor e, depois, a de “levantar acampamento”: caixa, bandeira, Deus à frente, para a próximo parada.

A festa navega assim como um barco, de ilha em ilha, a quem “dé pôzu”, um ponto de ordem, instável, no caos dos elementos. Criou-se a ordem, o barco, a folia, a bandeira, a reza, o santo tal. E a ordem sai pelo mundo a instabilizar as casas, as ordens, instabilizando-se ela mesma.

Nada mais maravilhoso que o manifestar do espírito coletivo desses camponeses pobres na Folia. A festa exigiu muita conversa, muito planejamento, andanças para confirmar as casas onde o cortejo vai passar e os pousos onde a bandeira dormirá, onde também o dono da casa dará a janta final da jornada e o almoço da saída do dia seguinte, um mundaréu de comida que as mulheres da casa vão preparar, auxiliadas pelas mais próximas, da família e vizinhança.

E depois começa o “giro”, empresa de muitos dias, que envolve arrecadação de fundos em dinheiro e prendas para leilão e organização da festa final. Esse espírito coletivo na pobreza engendra uma situação democrática agradabilíssima, realidade ordeira, caseira, mas fluida. Cada casa tomada pela turba de foliões dá sombra, frescor, água, vinho, café, farinha com “tuicin”, sofá e, até, cama, a quem se apresentar, seja Servo, pinguço, maltrapilho, sujo, seja Tio Olímpio, o “Ti Limpin”, que quando bebe pára ao pé de cada moça, quer beijar sua mão, puxar um papo. Elas fogem, rindo, ou brincam com ele, afinal se conhecem desde sempre, essas tolices não atrapalham, antes, constituem a Folia.

Foto da FoliaA Folia é naturalmente democrática, a festa é de disciplina espontânea, afinal, não passa pela cabeça de ninguém afastar do “nove”, uma dança ritualizada, crianças pequenas, a não ser que corram risco, tampouco os mais velhos, os mancos, os tolos e os simplórios, sequer os assanhados e os bêbados de toda sorte, a não ser que ofendam alguém, o que não se dá nunca. E se algum se excede, há um alto grau de tolerância, do espírito de “levar na esportiva” ou, de preferência, na galhofa, o importante é, até o limite, não perder o “timing” da alegria que move a folie.

E assim se estabelece uma das máximas da folguedo, sempre repetida, explicitamente, como um slogan, de forma exaltada: “sein purreteru num tein fulia”!!!

Ou seja, sem os loucos, bagunceiros, desviados de toda ordem, não existe o espírito da festa. Claro, sem os “ponta-firmes”, sem os poetas de grande memória, sem os procuradores da ordem e da organização econômica, sem a mulherada da cozinha, forte e “trabaiadera”, ela tampouco ocorreria, mas o fato a ser exaltado é que a Folia não faria nenhum sentido sem os tresloucados, os abobados, os inconvenientes, os excessivos.

Foto do ServoNo link abaixo, vemos Servo, um dos bêbados notórios da Folia, minado por anos a fio de muita pinga, no momento em que arrisca um verso de tremenda organicidade. “Sein purretero, num tein fulia”.

Acesso: <http://www.youtube.com/watch?v=rYNiwF8VlTc&feature=youtu.be>

* Este texto compõe a série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”, ministrado no Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), em 29 de setembro de 2012. Para ler o post inaugural acesse: <https://redeagrega.wordpress.com/2012/10/01/da-loucura-e-da-estetica-do-vale-do-jequitinhonha-para-a-saude-mental-de-sao-paulo/>.

Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

Prezados amigos,

A partir da última semana de outubro o blog da Agrega divulgará uma série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”. Este minicurso foi parte de um conjunto de palestras que são promovidas pelo Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), sempre no último sábado de cada mês, fomentando o debate em torno de temas da Saúde Mental.

Naldo utilizou objetos artesanais, fotografias e imagens em vídeo, na tentativa de compor um quadro complexo e comovente do estilo de vida sertanejo e estudar as implicações psicológicas de um modo de produção artesanal ainda vigoroso, efetuado num campo de intensas relações comunitárias. Em seguida, apresentou alguns casos concretos de artistas que, “em tese, no contexto da civilização mecânica e eletrodoméstica, poderiam padecer de tipos diversos de sofrimento psíquico que os qualificariam como usuários do CAPS, mas que, mergulhados na vida sertaneja, não são propriamente “aceitos” ou “assimilados” pela comunidade, mas antes, transformam muito naturalmente sua loucura em elementos de potencialização estética e produção de riqueza material que revertem ao conjunto da sociedade“.

Agregar e diversificar: o diálogo virtual de um artesão

A ideia central deste blog é reforçar a noção segundo a qual a loucura é historicamente construída e foi criado com o intuito de combater o estigma, sobretudo a ideia de que a loucura é incapacitante. Uma das estratégias adotadas é a prestação serviços de informação, como a divulgação de eventos, de datas importantes relacionados à saúde mental e a inclusão no trabalho, tanto de pessoas com transtornos mentais quanto de pessoas com deficiências ou, ainda, do fomento ao debate acerca da arte produzida por pessoas com transtornos mentais (como pode ser visto na seção “As imagens da capa” em: < https://redeagrega.wordpress.com/creditos-das-imagens-da-capa/>)

Acreditamos que loucura tal qual é conhecida é uma loucura urbana, nascida entre muros, escondida dentro de um dispositivo de controle, tutelada e estigmatizada. Desde Pinel, os conhecimentos científicos que se aproximaram da loucura não produziram nada de muito novo. Pelo menos até muito recentemente…

Com relação a isso, pedimos licença ao prezado leitor para dizer que a psiquiatria e a psicologia pouco conhecem sobre a loucura, pois a loucura ensinada nas academias foi postulada a partir deste contexto que é muito determinado e cujo marco inicial, podemos dizer, encontra-se na Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, lançado em 1798 por Pinel. Ou seja, o estigma, o medo, a tutela e a ideia de que louco é improdutivo são elementos que povoam o imaginário social que dizem muito daquilo que as ciências modernas construíram em torno do transtorno mental.

Mas estes antigos modos de apropriação e controle do sofrimento mental têm sido duramente atacados, sobretudo por conta da falta de humanidade com que se dedicam à pessoa que se encontra neste estado. Este novo olhar que critica a psiquiatria desumana, inaugurado por Basaglia, nos serve de inspiração na busca das formas esquecidas da loucura que tentamos resgatar em nosso blog.

Queremos mostrar que a loucura pode ser produtiva. Queremos mostrar que a construção de uma sociedade mais saudável precisa da inclusão plena da loucura. Queremos mostrar a possibilidade de uma nova loucura urbana, participativa, produtiva e cidadã.

Hoje, temos a honra de apresentar o trabalho de um pesquisador que teve contato com uma loucura que consegue ser participativa, produtiva e cidadã, muito embora não encontre seu lugar de referência nas grandes cidades, mas no contexto de cidades sertanejas em que a influência da vida rural no espaço urbano ainda é muito marcante. A beleza do que vamos conhecer com o trabalho de Naldo Moreira revela um fato embaraçoso: que pouco sabemos sobre as possibilidades criadoras da loucura, capazes não só de gerar riquezas materiais, mas de colaborar com a potencialização estética das comunidades. É chegada a hora das ciências, dos saberes, dos dispositivos de saúde mental e da sociedade resgatarem a loucura em sua potência positiva, produtiva e criativa; o trabalho de Naldo é uma tentativa de mostrar como isso é possível.

Agregar é possível

A partir de meados de outubro, quando retorna de viagem de férias, Naldo pretende postar aqui uma série de textos, fotografias e pequenas edições de vídeo a fim de desenvolver, através de referências teóricas, notas extraídas de seus diários de campo e imagens ilustrativas, o que foi exposto de forma esquemática durante a palestra. A ideia é explorar a história pessoal, a atividade social e a produção artística de pessoas simples, artesãos e cantadores das folias do Vale do Fanado, que por sua loucura mesma são capazes de dar vida à arte e à cultura de comunidades do Vale do Jequitinhonha, nos sertões de Minas Gerais.

A idéia é inserir um post por semana, por três ou quatro semanas. Aguardemos…

Veja um trecho do minicurso em que Naldo contextualiza o lugar do louco (o porreteiro) na Folia de Reis e no contexto da comunidade sertaneja (2min 01seg): <http://www.redeagrega.com/#!videos>