Invertendo o sinal

Por: Marta Gil*

Viagens espaciais, corridas de automóvel e até mesmo guerras frequentemente têm desdobramentos considerados benéficos para a sociedade, de novos medicamentos a pneus mais resistentes ou combustíveis de maior rendimento.

Esses “subprodutos” nem sempre justificam a realização dos eventos – especialmente as guerras – mas contribuem para mitigar (para usar um verbo da moda) os fantásticos custos que demandam. Eles trazem ganhos para um número de pessoas bem maior do que os envolvidos (ou atingidos) de forma direta.

Há muito me pergunto: E na área da deficiência, será que isso também acontece? O que foi desenvolvido nessa área que trouxe benefícios para a coletividade?

igualdade perante a lei

Não me ocorria nenhum exemplo marcante, até ler o excelente artigo “Acessibilidade para a segurança de todas as pessoas[1], de Izabel Maior e sua versão resumida, de igual excelência, escrita por ela e Andrei Bastos, “Mobilidade vital[2]. O artigo foi escrito – me atrevo a dizer “inspirado” pela tragédia ocorrida na cidade de Santa Maria, RS, na madrugada do dia 27 de janeiro, quando 241 jovens perderam suas vidas de forma dramática e até então inimaginável, num país onde consideramos que Deus é brasileiro – como se isso nos eximisse de qualquer responsabilidade…

O artigo fala do Decreto 5.296/2004, que estabelece normas detalhadas sobre a acessibilidade, entendida em sentido amplo. Embora esteja em vigor há 8 anos, é pouco conhecido por arquitetos, engenheiros, seus respectivos Conselhos Profissionais, por órgãos de fiscalização de obras, profissionais da área de segurança e prevenção de acidentes e por cursos de formação técnica e universitária.

Suas recomendações em geral não são cumpridas na construção ou na reforma e nem são objeto de fiscalização, como recomendado.

Boate_Kiss_2013_02_04__11A ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, por sua vez, tem uma norma específica sobre acessibilidade, a 9050, que é periodicamente revista, atualizada e ampliada, com a participação de diversos segmentos da sociedade civil, incluindo pessoas com deficiência.

Ou seja: o marco legal e conceitual existe, é de qualidade, mas lamentavelmente não é respeitado. No caso da boate Kiss, como Izabel Maior e Andrei Bastos sublinham, nem uma destas normas foi cumprida. O resultado é o que sabemos.

Se a lei tivesse sido obedecida, muito provavelmente a dimensão da tragédia teria sido menor – embora não menos triste. Como o artigo “Mobilidade vital” sintetiza: “Onde passa um cadeirante, passa qualquer um”.

Se a lei tivesse sido obedecida, haveria sinalização de diversas formas, passagens largas e desimpedidas – até porque para a aprovação ou licenciamento ou emissão de certificado de conclusão de projeto arquitetônico ou urbanístico deverá ser atestado o atendimento às regras de acessibilidade previstas nas normas técnicas de acessibilidade da ABNT, na legislação específica e neste Decreto (capítulo IV, Seção 1, art. 11, § 2.o).

Em minha opinião, esse conjunto de normas e procedimentos, com base legal, que garantem acessibilidade e segurança PARA TODOS é uma significativa contribuição do segmento das pessoas com deficiência para a sociedade.

Ziraldo MaluquinhoConstruir esse corpo conceitual e jurídico levou tempo, suor e lágrimas. Ele veio do enfrentamento diário dos 1001 obstáculos que pessoas com todos os tipos de deficiência enfrentaram (e ainda enfrentam). Representa a somatória de inúmeros esbarrões em galhos de árvore, orelhões, equipamentos urbanos colocados aleatoriamente e sem sinalização de alerta, tombos e atropelamentos, porque calçadas nem sempre podem ser utilizadas por cadeirantes. Isso sem esquecer o transporte público que não é exatamente “público” porque não atende a todos, a ausência de infraestrutura acessível em aeroportos, cais, estações rodoviárias e por aí vai.

Depois de compilar essas vivências e ordená-las sob forma de projetos de leis, de decretos, Normas Técnicas a batalha seguinte foi levá-las ao Poder Legislativo e convencê-los da necessidade de irem a votação.

Ganho o segundo round, com a aprovação de leis e decretos, contamos com o importantíssimo reforço da CDPD – Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada (2008) e promulgada (2009) pelo Brasil com a equivalência e força de artigo constitucional.

Agora é hora de divulgar intensamente estas ferramentas, até mesmo para honrar a memória dos jovens que perderam sua vida em Santa Maria, para que nunca mais nada semelhante aconteça, nem aqui e nem em outro país. Já temos “régua e compasso”, como diz a canção.

E a inversão do sinal, lá do título?

Bem, durante séculos a sociedade se acostumou a ver as pessoas com deficiência como seres dignos de piedade, que precisavam ser cuidados, por toda a sua vida. Quantos bingos, jantares beneficentes, rifas foram feitos em seu benefício… e com a melhor das intenções, sem dúvida nenhuma. As pessoas com deficiência, vistas como frágeis, incapazes, desamparadas, demandavam atenção e recursos ininterruptamente.

Ziraldo Maluquinho 2A partir da década de 90 do século 20 essa concepção passa por uma mudança radical, com o paradigma da Inclusão, que traz os conceitos de Cidadania, Acessibilidade, Vida Independente. Recursos de Tecnologia Assistiva possibilitam sua participação na escola, no trabalho, na vida social. Pessoas com deficiência começam a ser vistas no dia-a-dia.

A Convenção insere o tema da Deficiência no patamar dos Direitos Humanos, apontando a direção a seguir e garantindo conquistas. O tempo do assistencialismo – que foi importante para garantir sua sobrevivência – começa a ficar para trás.

De incapazes, as pessoas com deficiência passam a ocupar seu espaço de indivíduos com direitos – e que têm muitas e muitas contribuições a trazer para a sociedade, como o conceito de Acessibilidade e seu corolário, o Desenho Universal:

Uma forma de conceber produtos, meios de comunicação e ambientes para serem utilizados por todas as pessoas, o maior tempo possível, sem a necessidade de adaptação, beneficiando pessoas de todas as idades e capacidades

Depois de séculos, o sinal finalmente começa a ser invertido: de quem só “tinha a receber e humildemente agradecer” para quem tem o que aportar, ombro a ombro com os demais, para a construção de uma sociedade solidária, com segurança e dignidade para todos.

*Marta Gil – consultora na área da Inclusão de Pessoas com Deficiência, socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais, colaboradora do Planeta Educação e colunista da Revista Reação.

Autora do livro “Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP” (Editora SENAI, 2012), organizou livros; tem artigos publicados; participa de eventos no Brasil e no exterior. Áreas de competência: Inclusão na Educação e no Trabalho.

Agregando notícias #8

GRANDE NOTÍCIA:
Benefícios para pessoas com deficiência agora contemplam pessoas com autismo

Uma nova lei, a Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012, assegura novos direitos às pessoas com autismo, sobretudo nos serviços de saúde, educação, assistência social, nutrição, moradia, trabalho, previdência e também, no que diz respeito ao acesso ao mercado de trabalho.

JNA partir de agora, as pessoas com autismo podem compor as cotas para deficientes que nas vagas de trabalho que as empresas precisam reservar para o cumprimento da Lei de Cotas (Lei nº 8.213/91). Em seu Artigo 1º, Parágrafo 2º, a nova lei diz “A pessoa
com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para
todos os efeitos legais”.

Esta notícia é importante porque a nova lei representa um grande avanço no reconhecimento dos direitos das pessoas com algum tipo de transtorno mental.

Veja o vídeo e leia a reportagem do Jornal Nacional em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2013/01/lei-equipara-pessoas-com-algum-tipo-de-autismo-aquelas-com-deficiencia.html>

Empresas inclusivas ganham benefícios com novo acordo

Um acordo firmado em dezembro de 2012, entre a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), o Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo (Sincovaga) e o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, vem facilitando a inclusão de pessoas com deficiências no mercado de trabalho.

As empresas que precisam cumprir a Lei de Cotas passam, com este acordo, a trabalhar com prazos e metas, facilitando o trabalho de inclusão e evitando multas. “A partir da assinatura, os prazos serão: 30% da cota em 6 meses; 60% em 12 meses; 80% em 18 meses e 100% da cota em até dois anos”.

A contrapartida vem em forma de capacitação profissional das pessoas com deficiências que trabalharão nas próprias empresas, além de atendimento às necessidades de acessibilidade para que o trabalhador possa desempenhas as suas funções.

Além disso, “O acordo também prevê a troca de informações sobre vagas disponíveis e cadastro de currículos, ampliando as condições de captação da mão de obra”.

Leia a reportagem na íntegra na Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, em: <http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI330505-17180,00.html>

Fernando de Noronha acessível

NoronhaA acessibilidade chegou em Fernando de Noronha. Recentemente, o governo do estado de Pernambuco anunciou a conclusão da construção de uma trilha acessível até a praia do Sueste. Além disso, a praia também foi equipada com cadeiras anfíbias, banheiros acessíveis e esteiras para acesso dos cadeirantes ao mar e conta com monitores treinados para auxiliar o mergulho das pessoas com deficiência.

Além do Sueste, há estudos para viabilizar acessos em outras três praias de Noronha. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, “Dentro do Parque Nacional Marinho, administrado pela concessionária Econoronha, (…) foram construídos 4.500 metros de trilhas que podem ser vencidas por um cadeirante e que levam à contemplação de símbolos do arquipélago como o Morro Dois Irmãos e ao ponto de apreciação de golfinhos”.

Veja a reportagem completa em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1226608-fernando-de-noronha-faz-mudancas-para-ser-acessivel-a-turistas-com-deficiencia.shtml>.

Cadeirantes com mais mobilidade nos aviões

Skycare ChairCriada por Brian Liang, um estudante de desenho industrial, a Skycare Chair promete resolver alguns embaraços que os cadeirantes sofrem quando desejam fazer uma viagem aérea.

A cadeira de rodas para uso em aeronaves possui uma alavanca de controle frontal e por isso é mais estreita do que as cadeiras convencionais. Além disso, não possui braços (o que facilita a transferência do usuário entre a cadeira e os assentos) e pode ser armazenada nos compartimentos de bagagem.

Mais informações, acesse: <http://turismoadaptado.wordpress.com/2013/02/07/cadeira-de-rodas-especial-para-utilizacao-de-forma-independente-a-bordo-de-aeronaves/>

Qualificação profissional para pessoas com deficiências

Está sendo estudada a possibilidade de formalização de convênio para criação de cursos de qualificação profissional para pessoas com deficiências. Os envolvidos são o Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) e a unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Itu (SP), uma unidade conhecida pela inovação no trabalho de acessibilidade. O objetivo é “criar uma metodologia de ensino e um calendário de cursos (…). Há ainda a possibilidade de treinar multiplicadores, que poderão disseminar pelo Estado os ensinamentos que adquirirem.” Estamos na torcida.

Fonte: <http://www.piniweb.com.br/construcao/carreira-exercicio-profissional-entidades/programa-promove-qualificacao-de-pessoas-com-deficiencia-277715-1.asp>

Botos da Amazônia ajudam na terapia de crianças com deficiências

bototerapiaA bototerapia, como é chamada, se propõe a levar os jovens com deficiências para interagirem com os botos, parentes dos golfinhos que habitam rios da Amazônia. O objetivo é ajudar a melhorar a autoestima desses jovens e funciona como complemento às terapias tradicionais.

Além disso, a atividade é de baixo impacto ambiental e ajuda na conscientização da importância da preservação do meio ambiente.

Mais informações: <http://g1.globo.com/natureza/noticia/2012/08/terapia-com-botos-ajuda-tratar-criancas-deficientes-na-amazonia.html>

Crianças com autismo podem apresentar melhoras significativas, diz estudo

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos estudou 34 crianças diagnosticadas com autismo e observou que os sintomas destes indivíduos desapareceram quando eles atingiram a idade adulta.

A pesquisa foi financiada pelo Instituto Americano de Saúde Mental e, segundo Thomas Insel, diretor do Instituto, “Embora o autismo geralmente persista durante toda a vida, esta descoberta permite pensar que esta síndrome poderia experimentar evoluções muito diversas”. Entretanto, os mecanismos do autismo ainda são pouco conhecidos e novas pesquisas são necessárias para ajudar a determinar os fatores que determinam a evolução do quadro, assim como a persistência de certos sintomas em algumas pessoas.

Fonte: <http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2013/01/21/internas_cienciaesaude,419092/sintomas-de-autismo-desaparecem-em-algumas-criancas-quando-elas-crescem.shtml>

25 anos da Carta de Bauru

A Carta de Bauru foi um documento redigido durante o II Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental, realizado entre os dias 3 e 6 de dezembro de 1987, que apresentou os princípios do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial. O Congresso adotava o lema “Por uma sociedade sem manicômios!” e foi um marco decisivo para a Reforma Psiquiátrica brasileira.

Imagem: Cartaz Luta AntimanicomialNa ocasião, o evento reuniu 350 trabalhadores da Saúde Mental e, de lá para cá, o movimento cresceu muito. A discussão sobre os direitos de cidadania das pessoas com sofrimento psíquico intenso foi aprofundada e os serviços de tratamento em Saúde Mental passaram, cada vez mais, a funcionar a partir da recusa do papel de agente da exclusão e da violência. As proposições tiradas no Congresso dirigiram a reorganização dos serviços de tratamento e a Carta de Bauru foi um documento central neste processo.

Para a Agrega, a Carta de Bauru é um marco que representa um avanço na luta pelos direitos humanos no Brasil e vai de encontro a tudo o que acreditamos. Ou seja, ao contrário da exclusão e da violência, trabalhamos em prol da cidadania e do cuidado, ao invés da institucionalização e da opressão, os serviços da Agrega propõem uma nova forma de socialização, de liberdade e de autonomia, pois entendemos o valor que tem o trabalhador e queremos que este valor também esteja ao alcance das pessoas com transtornos mentais.

A relação entre o trabalho e a cidadania está presente no entendimento do Movimento da Luta Antimanicomial desde 1987, como pode ser visto na própria Carta de Bauru:

O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida.”

Para ler a carta de Bauru na íntegra, clique em: Carta de Bauru

Flicts, a cor da inclusão dá o tom de 800 atividades para o final de semana

800 atividades em todo o Estado de São Paulo festejarão, nos dias 1, 2 e 3 de dezembro, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (3 de dezembro).

Foto: flicts-vinilAs atividades fazem parte da 3ª edição da “Virada Inclusiva – Participação Plena”, evento que acontece em mais de 80 cidades do Estado de São Paulo.

Atividades muito interessantes como contação de histórias em português e em libras, apresentação de dança contemporânea em cadeira de rodas e uma exposição de Frida Kahlo (que teve poliomielite na infância), fazem parte da programação do evento.
As atividades acontecem entre 8h e 22h. Para mais informações acesse: <http://viradainclusiva.sedpcd.sp.gov.br/>.

Da loucura e da estética do Vale do Jequitinhonha para a Saúde Mental de São Paulo

Prezados amigos,

A partir da última semana de outubro o blog da Agrega divulgará uma série de posts elaborados por Naldo Moreira com base no minicurso “Saúde Mental e Contexto Social: Alguns Exemplos do Jequitinhonha”. Este minicurso foi parte de um conjunto de palestras que são promovidas pelo Caps Prof. Luís da Rocha Cerqueira (Caps Itapeva – SP), sempre no último sábado de cada mês, fomentando o debate em torno de temas da Saúde Mental.

Naldo utilizou objetos artesanais, fotografias e imagens em vídeo, na tentativa de compor um quadro complexo e comovente do estilo de vida sertanejo e estudar as implicações psicológicas de um modo de produção artesanal ainda vigoroso, efetuado num campo de intensas relações comunitárias. Em seguida, apresentou alguns casos concretos de artistas que, “em tese, no contexto da civilização mecânica e eletrodoméstica, poderiam padecer de tipos diversos de sofrimento psíquico que os qualificariam como usuários do CAPS, mas que, mergulhados na vida sertaneja, não são propriamente “aceitos” ou “assimilados” pela comunidade, mas antes, transformam muito naturalmente sua loucura em elementos de potencialização estética e produção de riqueza material que revertem ao conjunto da sociedade“.

Agregar e diversificar: o diálogo virtual de um artesão

A ideia central deste blog é reforçar a noção segundo a qual a loucura é historicamente construída e foi criado com o intuito de combater o estigma, sobretudo a ideia de que a loucura é incapacitante. Uma das estratégias adotadas é a prestação serviços de informação, como a divulgação de eventos, de datas importantes relacionados à saúde mental e a inclusão no trabalho, tanto de pessoas com transtornos mentais quanto de pessoas com deficiências ou, ainda, do fomento ao debate acerca da arte produzida por pessoas com transtornos mentais (como pode ser visto na seção “As imagens da capa” em: < https://redeagrega.wordpress.com/creditos-das-imagens-da-capa/>)

Acreditamos que loucura tal qual é conhecida é uma loucura urbana, nascida entre muros, escondida dentro de um dispositivo de controle, tutelada e estigmatizada. Desde Pinel, os conhecimentos científicos que se aproximaram da loucura não produziram nada de muito novo. Pelo menos até muito recentemente…

Com relação a isso, pedimos licença ao prezado leitor para dizer que a psiquiatria e a psicologia pouco conhecem sobre a loucura, pois a loucura ensinada nas academias foi postulada a partir deste contexto que é muito determinado e cujo marco inicial, podemos dizer, encontra-se na Nosographie philosophique ou méthode de l’analyse appliquée à la médecine, lançado em 1798 por Pinel. Ou seja, o estigma, o medo, a tutela e a ideia de que louco é improdutivo são elementos que povoam o imaginário social que dizem muito daquilo que as ciências modernas construíram em torno do transtorno mental.

Mas estes antigos modos de apropriação e controle do sofrimento mental têm sido duramente atacados, sobretudo por conta da falta de humanidade com que se dedicam à pessoa que se encontra neste estado. Este novo olhar que critica a psiquiatria desumana, inaugurado por Basaglia, nos serve de inspiração na busca das formas esquecidas da loucura que tentamos resgatar em nosso blog.

Queremos mostrar que a loucura pode ser produtiva. Queremos mostrar que a construção de uma sociedade mais saudável precisa da inclusão plena da loucura. Queremos mostrar a possibilidade de uma nova loucura urbana, participativa, produtiva e cidadã.

Hoje, temos a honra de apresentar o trabalho de um pesquisador que teve contato com uma loucura que consegue ser participativa, produtiva e cidadã, muito embora não encontre seu lugar de referência nas grandes cidades, mas no contexto de cidades sertanejas em que a influência da vida rural no espaço urbano ainda é muito marcante. A beleza do que vamos conhecer com o trabalho de Naldo Moreira revela um fato embaraçoso: que pouco sabemos sobre as possibilidades criadoras da loucura, capazes não só de gerar riquezas materiais, mas de colaborar com a potencialização estética das comunidades. É chegada a hora das ciências, dos saberes, dos dispositivos de saúde mental e da sociedade resgatarem a loucura em sua potência positiva, produtiva e criativa; o trabalho de Naldo é uma tentativa de mostrar como isso é possível.

Agregar é possível

A partir de meados de outubro, quando retorna de viagem de férias, Naldo pretende postar aqui uma série de textos, fotografias e pequenas edições de vídeo a fim de desenvolver, através de referências teóricas, notas extraídas de seus diários de campo e imagens ilustrativas, o que foi exposto de forma esquemática durante a palestra. A ideia é explorar a história pessoal, a atividade social e a produção artística de pessoas simples, artesãos e cantadores das folias do Vale do Fanado, que por sua loucura mesma são capazes de dar vida à arte e à cultura de comunidades do Vale do Jequitinhonha, nos sertões de Minas Gerais.

A idéia é inserir um post por semana, por três ou quatro semanas. Aguardemos…

Veja um trecho do minicurso em que Naldo contextualiza o lugar do louco (o porreteiro) na Folia de Reis e no contexto da comunidade sertaneja (2min 01seg): <http://www.redeagrega.com/#!videos>

A Lei de Cotas e o valor de si mesmo

A Lei de Cotas completa 21 anos hoje. Queremos aproveitar a ocasião para falar sobre duas dimensões sobre as quais seus efeitos se fazem presentes: (1) a dimensão do valor de si mesmo e do trabalho, no que diz respeito a uma sociedade democrática, e (2) a dimensão do valor de si mesmo para a pessoa com deficiência como sujeito produtivo.

Do ponto de vista da democracia, a Lei de Cotas faz parte de um conjunto de medidas governamentais de caráter compensatório em favor de grupos mais vulneráveis. Como diz José Carlos do Carmo, “A razão dessa e de outras ações afirmativas implementadas pelo governo é corrigir defasagens histórico-culturais e zelar para que os cidadãos tenham seus direitos fundamentais garantidos” (2011, p. 33).

Sob este aspecto, a Lei de Cotas é uma medida de construção e renovação cultural, pois visa alterar a situação atual em direção a um equilíbrio, uma situação mais justa. Com esta intenção, espera-se superar os baixos níveis de contratação de pessoas com deficiência pelas empresas. Historicamente, “Os empregadores se eximiam de responsabilidade para com esse público, culpando o governo por não resolver a equação: acesso à educação + boa formação = oportunidade de emprego (…). Hoje, no entanto, reconhece-se que essa obrigação não se esgota nas estatais, pois os princípios da equidade e igualdade têm caráter horizontal e estendem-se às relações particulares. Assim, toda sociedade é responsável por favorecer a concretização dos direitos fundamentais do cidadão” (ibid., p. 34 e 35).

Ao mesmo tempo em que a Lei de Cotas renova uma cultura, ela restaura o valor da pessoa para ela mesma. A ninguém é permitido escolher em que condição virá ao mundo. Portanto, não é justo que uma parcela da população seja prejudicada por conta de fatores (sociais, culturais, econômicos ou físicos) que estão fora de seu controle. Neste sentido, a Lei de Cotas atua construindo um sentido de justiça equitativa, permitindo que a pessoa com deficiência tenha acesso ao trabalho, um direito fundamental previsto na Constituição Federal. A construção de uma sociedade democrática passa pela equidade dessa justiça distributiva que remodela uma cultura antiquada enquanto cria oportunidade de restauração do valor de si mesmo para o sujeito deficiente.

Ou seja, não se trata apenas da igualdade, no sentido de “o meu direito é igual ao direito do outro”, mas de equidade, isto é, o pensamento de que é justo favorecer certos grupos mais vulneráveis da sociedade. Este postulado evita que aqueles que não podem compartilhar do quinhão mais produtivo da sociedade sintam-se excluídos, abrindo a possibilidade para que possam desenvolver um senso de justiça próprio. Em outros termos, a saúde de uma democracia depende, em grande medida, de que seja dado um suporte institucional para que essas pessoas desenvolvam um sentido de respeito por si próprio. E isso se dá através do trabalho, através da inclusão e da participação do sujeito nos processos produtivos.

Apesar do pluralismo moral das sociedades contemporâneas, todos temos o mesmo valor intrínseco: não existe melhor forma de equilibrar as exigências conflitantes entre liberdade e igualdade do que desconstruindo a cultura da exclusão. Testemunhar uma pessoa resgatando o valor de si mesma através da inclusão no mercado de trabalho e do acesso pleno aos bens comuns é participar do resgate do valor integral da comunidade, e assim experimentar a renovação dos nossos próprios valores.